Mesmo com cessar-fogo em curso, países do Golfo aceleram planos de dutos bilionários para contornar o controle iraniano no Estreito de Ormuz e garantir exportações.

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Mesmo diante do arrefecimento do conflito, a ameaça de um controle permanente do Irã sobre o Estreito de Ormuz está forçando as monarquias do Golfo a desenterrar projetos multibilionários de infraestrutura.
Executivos da indústria e autoridades regionais admitem que a construção de uma teia de corredores terrestres é agora a única via para reduzir a vulnerabilidade existencial de suas exportações de óleo e gás.
Como inspiração, os executivos apontam o sucesso estratégico do gasoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita. Transportando atualmente 7 milhões de barris por dia diretamente para o Mar Vermelho, a estrutura vem servindo como principal válvula de escape do reino enquanto as águas do Golfo permanecem sob fogo cruzado.
A Arábia Saudita estuda expandir massivamente sua capacidade de escoamento e criar novos terminais no porto de Neom. Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, desengavetaram planos para um segundo duto rumo a Fujairah.
Os desafios, contudo, são monumentais: replicar a engenharia saudita custaria ao menos US$ 5 bilhões, enquanto rotas multinacionais cruzando Iraque, Jordânia ou Turquia poderiam exigir investimentos de até US$ 20 bilhões.
Além dos custos, a complexidade política de integrar redes soberanas e a ameaça de sabotagem por milícias ou ataques de drones – como os recentemente vistos no porto de Salalah, em Omã – mostram que a rota terrestre está longe de ser isenta de riscos.
VISÃO WOW
O custo humano – sem dúvida o principal – foi suportado majoritariamente por Irã e Líbano. Mas a aventura de Trump no Oriente Médio deixa os aliados norte-americanos no Golfo como as principais vítimas econômicas.
O cessar-fogo no qual Teerã e Washington trabalham tem como alicerce a reabertura do Estreito de Ormuz. Basicamente, o retorno ao status quo ante. Todavia, mesmo que, na prática, o fluxo desimpedido de embarcações pelo gargalo seja efetivamente retomado, o estrago estratégico já está feito.
Ainda que as conversas avancem, e o Irã concorde em interromper tanto os ataques quanto as tarifas agora impostas, o prêmio de risco seguirá elevado. Diante de uma conjuntura com oferta ampla, inclusive com reservas venezuelanas – as maiores do mundo – potencialmente retornando ao mercado no médio/longo prazo, o poder de barganha tenderá aos compradores. E aos iranianos.
Aos exportadores do Golfo, não resta opção que não buscar desvencilhar-se do risco. O problema é que não se reestrutura operações dessa magnitude da noite para o dia.
A Arábia Saudita, principal perdedora política da guerra ao ver sua liderança no mundo muçulmano engolida por um Irã fortalecido, larga na frente ao já ter percorrido com sucesso o caminho necessário. Replicá-lo, no entanto, já não seria simples em circunstâncias normais. Diante do aperto fiscal que acomete o Reino e põe em risco até mesmo sua Visão 2030, o desafio torna-se ainda maior.
As nações se vizinhas enxergam rota ainda mais tortuosa. Nem o vultoso AuM de seus Fundos Soberanos é suficiente para afastar da mente dos investidores a falta de escala que sua geografia diminuta impõe. Isolados, pouco podem fazer diante da pressão externa e dos desafios geopolíticos em instalar corredores que ultrapassam fronteiras.
A Terceira Guerra do Golfo, se realmente encerrada nos termos atuais, deixará dois produtos: um regime confiante em Teerã e promessas de proteção norte-americana estremecidas. As mudanças tendem a intensificar uma aproximação chinesa já crescente em tempos recentes, além de abrir espaço para que Moscou também ofereça seus serviços.
Não obstante os cartões e ofertas distribuídas por parceiros de conveniência, a solução para a encruzilhada arábe jaz justamente nos irmãos mais próximos: relações renovadas dentro do Conselho de Cooperação do Golfo, que convertam a região em ator que não apenas atrai interesse, mas também projeta influência.
Mais fortes juntos, poderão negociar em termos equânimes e até mesmo agir como força estabilizadora em cenários de ruptura. Não apenas terão mais facilidade em desenvolver alternativas, como os gasodutos por terra, como poderão também oferecer estabilidade jurídica e viabilidade econômica para projetos maiores, da energia à tecnologia, passando ainda por segurança e defesa.
Os riscos no Estreito são sem dúvida dor de cabeça imediata para as nações da região. Mas, se administrados adequadamente, podem dar início a uma verdadeira mudança de paradigma no futuro.
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