Gastos militares alemães disparam, reacendendo debates internos e preocupações na Europa sobre poder, identidade e equilíbrio militar.

A Alemanha decidiu abandonar de vez as ambiguidades do pós-Guerra Fria e acelerar um rearmamento que já redefine o equilíbrio de poder europeu.
Impulsionada pela agressividade russa e pela imprevisibilidade de Washington, Berlim avança para construir a maior força militar do continente desde 1945, mesmo carregando o peso histórico de seu passado.
O movimento é profundo e rápido. Desde 2022, quando o então chanceler Olaf Scholz classificou a nova fase como uma Zeitenwende, uma virada histórica, os números cresceram de forma inédita. O atual governo, liderado por Friedrich Merz, foi além: flexibilizou o freio constitucional ao endividamento e colocou a Alemanha no caminho de gastar cerca de 650 bilhões de euros em defesa nos próximos cinco anos. Até 2029, o país deve atingir 3,5% do PIB em gastos militares, superando com folga as metas da OTAN.
O rearmamento não se limita a orçamentos. Um novo marco legal de recrutamento prevê dobrar o contingente disponível para combate, elevando o efetivo ativo do Bundeswehr, as forças armadas alemãs, de 180 mil para 260 mil soldados, além de criar uma reserva de até 200 mil homens. Mulheres não serão obrigadas, mas poderão se voluntariar. A mudança sinaliza que Berlim passou do discurso para a preparação concreta.
Para muitos aliados, especialmente no Leste Europeu, a guinada é bem-vinda. A Alemanha volta a ser vista como pilar central da dissuasão contra Moscou. Em Paris, porém, o sentimento é ambíguo. Autoridades francesas observam com uma mescla de admiração e desconforto a velocidade com que Berlim acumula capacidade militar, temendo um deslocamento do centro de gravidade político e estratégico do continente.
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Internamente, o processo é menos consensual do que os números sugerem. Décadas de pacifismo moldaram uma sociedade que ainda olha com desconfiança para o uso da força. Pesquisas mostram maior consciência da ameaça russa, mas também hesitação. Apenas uma minoria dos alemães mais jovens afirma estar disposta a pegar em armas para defender o país, um dado revelador do desafio cultural que acompanha o rearmamento.
Sönke Marahrens, ex-coronel do Bundeswehr e hoje pesquisador em política de segurança, resume o dilema ao afirmar que a Alemanha desenvolveu uma “cultura estratégica de não ter cultura estratégica”. Segundo ele, muitos jovens ainda não entendem por que o país precisa de um Exército forte, mesmo diante de alertas de serviços de inteligência que indicam a possibilidade de um ataque russo a um país ocidental até o fim da década.
O fator Washington também pesa. A retórica errática de Donald Trump em relação à OTAN e à Europa levou dois terços dos alemães a concordarem que não podem mais depender automaticamente do apoio militar norte-americano. A mensagem é clara: a Europa precisa aprender a cuidar da própria segurança, ainda que compre armas dos Estados Unidos. Como resumiu o deputado Thomas Silberhorn, “os norte-americanos vão nos vender armas, mas nós é que teremos de atirar”.
No tabuleiro político, a centro-direita lidera o processo. A União Democrata Cristã (CDU), partido de Merz, e sua aliada bávara, a CSU, sustentam o núcleo do rearmamento. Os sociais-democratas, parceiros de coalizão, seguem divididos entre alas mais duras e setores pacifistas. À esquerda, a resistência é maior. À direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD) sobe nas pesquisas, mas combina nacionalismo com uma postura surpreendentemente complacente em relação a Moscou, defendendo o fim de sanções e a retomada das importações de energia russa. O crescimento da direita radical em meio ao rearmamento, inclusive, acende sinais de atenção continente afora, dado o peso do passado.
Outro obstáculo é industrial. Berlim aposta que a expansão da indústria de defesa possa compensar parte do declínio do setor automotivo, pressionado por concorrência chinesa e custos energéticos. A transição, porém, é lenta, cara e enfrenta gargalos regulatórios. Investimentos privados começam a surgir, mas especialistas alertam que o governo ainda carece de uma estratégia clara para criar uma base industrial de defesa moderna e competitiva.
Apesar das dúvidas, o processo parece irreversível. Pesquisas recentes indicam que a sociedade pode estar se movendo mais rápido que a política, com maioria favorável ao serviço militar obrigatório e a cortes em gastos sociais para financiar a defesa. Para Silberhorn, a questão não é mais se a Alemanha deve liderar, mas quem fará isso se ela não o fizer.
“Precisamos explicar o que está em jogo”, afirma. “O mundo está mudando, e as consequências de não agir serão muito piores.”
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