Ofensiva dos Estados Unidos contra Maduro expõe divisões na política francesa. Reações vão das críticas à ação norte-americana ao silêncio conveniente sobre Rússia e China.

As reações na França à ofensiva dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás Maduro, realizada em 3 de janeiro de 2026, escancararam mais do que divergências ideológicas: revelaram a disposição dos políticos franceses em relativizar ditaduras quando estas se alinham ao seu repertório político.
O episódio reacendeu o debate sobre soberania, imperialismo e, sobretudo, sobre a credibilidade moral de Paris no cenário internacional.
Convocados por Jean-Luc Mélenchon, líder do partido radical França Insubmissa, grupos de esquerda protestaram nas ruas de Paris contra a ação norte-americana. Mélenchon classificou a ofensiva como “puro imperialismo” e afirmou que “não existe invasão boa”. Acusou ainda os Estados Unidos de utilizarem o combate ao narcotráfico como “pretexto” para manter influência sobre o petróleo venezuelano.
O detalhe conveniente: Mélenchon evitou qualquer condenação direta ao regime de Maduro, mesmo após eleições contestadas e anos de repressão.
A retórica foi acompanhada ainda de investidas contra o presidente Emmanuel Macron, que afirmou que o povo venezuelano havia sido “libertado da ditadura”. Para a esquerda francesa, a declaração simbolizou “fraqueza europeia” e “abandono do direito internacional”.
“Ele nos envergonha,” disparou o líder radical. “Ele abandona o direito internacional. É um dia sombrio para o nosso país”.
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No outro extremo político, ainda que diferentes, as manifestações não foram isentas de controvérsias.
Na última quinta-feira (15), Jordan Bardella, líder do Rassemblement National, partido de extrema-direita, criticou Donald Trump por supostas “ambições imperiais”, citando tanto a Venezuela quanto a Groenlândia. Bardella classificou a ação como “um desafio direto à soberania” e alertou para um mundo onde “a lei do mais forte supera o respeito às regras internacionais”.
Bardella, assim como seus adversários, soube fazer bom uso de seletividade.
O jovem, principal cotado para vencer futuras eleições presidenciais, foi cuidadoso ao tratar da Rússia, descrevendo Moscou como “uma ameaça multidimensional”, mas defendendo cautela por se tratar de uma potência nuclear. O contraste com a contundência contra Washington não passou despercebido.
O fato é que, enquanto a política francesa se mobiliza para defender princípios abstratos e regimes autoritários, os Estados Unidos reforçam sua posição como ator disposto a confrontar ditaduras alinhadas a Rússia e China.
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