Olhar para a China de 2026 é olhar para um país extraordinariamente poderoso que acumulou, ao longo de seu crescimento vertiginoso, contradições igualmente extraordinárias.

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Por décadas, a ascensão da China foi tratada como uma força da natureza, inevitável, irrefreável, uma questão de “quando” e não de “se”. Economistas de Princeton a Pequim produziram projeções mostrando o PIB chinês ultrapassando o americano em algum ponto das décadas de 2020 ou 2030. Governos ocidentais debatiam estratégias de adaptação a um mundo sinocêntrico.
Hoje, esse (quase) consenso começa a rachar.
A narrativa da ascensão irresistível ignorou fraturas estruturais que o tempo tornou difíceis de esconder. Olhar para a China de 2026 é olhar para um país extraordinariamente poderoso que acumulou, ao longo de seu crescimento vertiginoso, contradições igualmente extraordinárias. Entender essas contradições não é decretar o fim de um projeto, é tentar ver o gigante com mais precisão do que os entusiastas e os céticos costumam fazer.
O ponto de partida mais honesto talvez seja o crescimento econômico em si.
O potencial de crescimento do PIB chinês deve desacelerar, segundo algumas projeções, para uma média de 3,8% ao ano entre 2025 e 2039, muito abaixo dos 7,3% registrados na década anterior à pandemia. O FMI projeta desaceleração ainda mais acentuada no médio prazo, pressionada por fatores que não são conjunturais, mas estruturais.
Há debate legítimo sobre a qualidade e a precisão dos dados oficiais, com alguns economistas independentes sugerindo que os números reais ficam abaixo das metas declaradas, mas o que os dados consensuais mostram já é suficiente para uma reflexão séria: o modelo que sustentou décadas de crescimento acelerado chegou a seus limites naturais.
Um desses limites é o setor imobiliário, que durante muito tempo foi simultaneamente motor e espelho do milagre chinês. O setor, somado à construção civil, respondia por cerca de 30% do PIB chinês antes do aperto regulatório sobre o endividamento dos incorporadores em 2020.
A crise que se seguiu (da qual a Evergrande foi o símbolo mais visível, mas não o único) não é o colapso de empresas mal geridas, mas o esgotamento de um modelo em que governos locais dependiam da venda de direitos de uso do solo para financiar seus orçamentos, e em que famílias tratavam apartamentos como reserva de valor imunes à queda.
Parte considerável das famílias chinesas têm o imóvel como seu principal ativo. À medida que os preços caem, o consumo se contrai, criando um ciclo negativo que sufoca o crescimento. Não há solução rápida para isso porque não há solução que não passe por uma redefinição profunda de como a economia chinesa se organiza internamente.
Ao lado da questão imobiliária, e de certa forma ainda mais determinante no longo prazo, está a demografia. O cenário ideal é o de envelhecimento do país somente após atingir o status de alta renda, mas a rápida queda na taxa de natalidade da China e o aumento da expectativa de vida significam que o país está lidando com esses problemas mais cedo do que o usual.
A tendência não se reverterá: as projeções, governamentais e privadas, indicam continuação desse cenário. A Índia, que ultrapassou a China em população em 2023, tem uma pirâmide etária radicalmente mais jovem, o que não resolve sozinho nenhum dos desafios indianos, mas coloca os dois países em trajetórias completamente distintas nas próximas décadas.
Há também uma questão de escala que raramente aparece com clareza nas comparações entre China e Estados Unidos: a obsessão com o PIB bilateral tende a obscurecer o quadro mais amplo.
O bloco de economias alinhadas aos EUA responde por 55% do PIB global em paridade de poder de compra, contra 35% para o bloco liderado por Pequim. Europa, Japão e Coreia do Sul não são coadjuvantes, são os centros históricos da inovação tecnológica, das finanças globais e do comércio de alto valor agregado. Qualquer projeção que coloca a China “superando” os Estados Unidos sem levar em conta esse contexto está, de certa forma, comparando um time com um jogador.
E é justamente nesse contexto de blocos que a corrida pela inteligência artificial ganha seu significado mais profundo. É talvez o campo onde as apostas são mais altas e onde a disputa está mais aberta. Do lado americano, a vantagem em infraestrutura de computação é expressiva: empresas americanas controlam a maior parte da chamada computação global voltada para IA, enquanto as chinesas respondem por muito menos, pelo menos por enquanto. Os controles de exportação americanos sobre semicondutores avançados foram desenhados exatamente para preservar esse diferencial.
A China vem respondendo de uma forma que surpreendeu o mundo. O lançamento do modelo DeepSeek R1, em janeiro de 2025, capturou a atenção global: a empresa afirmou ter desenvolvido um modelo com desempenho equivalente ao dos líderes americanos, a custo significativamente menor e com muito menos poder computacional, desafiando as suposições sobre a eficácia da estratégia americana de contenção tecnológica.
Analistas descrevem as restrições aos chips como um catalisador involuntário de inovação chinesa: ao forçar equipes a focar em eficiência algorítmica em vez de escala bruta, os controles podem ter acelerado um tipo diferente de progresso. Ainda assim, o episódio tem nuances: a própria DeepSeek reconheceu ter utilizado chips Nvidia fabricados nos EUA, e sem acesso à pesquisa e ao hardware americanos, provavelmente não teria chegado onde chegou.
O resultado é uma corrida cuja liderança depende de qual dimensão se observa.
Após o impacto do DeepSeek, empresas chinesas de IA lançaram uma sequência de modelos competitivos, demonstrando capacidade de acompanhar as líderes americanas. Mas à medida que a IA migra dos laboratórios para o cotidiano de empresas e consumidores, a competição deixa de ser apenas sobre qual modelo é mais capaz e passa a ser sobre mercados, serviços e a capacidade de vender um produto em escala global. Nessa dimensão, os modelos americanos continuam dominantes em termos de uso global, beneficiados pela vantagem de quem chegou primeiro, embora esse domínio não deva ser dado como garantido.
Vale aqui uma ressalva que honestidade intelectual exige: o “bloco ocidental” tem seus próprios problemas.
A presidência de Donald Trump trouxe tarifas, atritos com aliados históricos e questionamentos às instituições multilaterais que foram construídas, em grande parte, como pilares da ordem favorável ao Ocidente. Se esses laços se enfraquecem, e há sinais de que alguns estão, a comparação de blocos muda. Ainda assim, os vínculos econômicos, militares e culturais entre as democracias avançadas são estruturais demais para serem desfeitos por um só ciclo político. Até agora, ao menos, é o que se supõe.
Do lado chinês, a expansão geopolítica é real e não deve ser subestimada. A Nova Rota da Seda conecta continentes, financia infraestrutura onde o Ocidente não chegou e cria dependências que são, em si mesmas, uma forma de poder. Os avanços na África e em partes da Ásia e América Latina são concretos. Mas parceiros históricos como a Rússia (atolada na Ucrânia e sob sanções extensas) passaram, na prática, de aliados estratégicos a dependentes, o que paradoxalmente enfraquece a posição chinesa no tabuleiro global em vez de fortalecê-la.
Há ainda uma dimensão que os números capturam mal: substituir os Estados Unidos como centro organizador da economia global exige mais do que um PIB maior. Exige uma moeda que o mundo queira guardar, instituições em que o mundo confie e uma cultura que o mundo deseje importar voluntariamente. Nenhum desses elementos se constrói por decreto, e nenhum deles aparece nas projeções de crescimento. Isso não é apenas uma questão de valores abstratos: reflete o ambiente em que empresas decidem onde investir, onde confiar seus dados e sua propriedade intelectual, onde estabelecer laços duradouros.
Nada disso nega o que a China é: a segunda maior economia do planeta, o maior exportador do mundo, um ator tecnológico de crescente sofisticação, dos veículos elétricos às baterias, das energias renováveis à inteligência artificial. O avanço é genuíno. A questão, porém, é se esse avanço é suficiente para sustentar o projeto de uma hegemonia global, e se as contradições acumuladas ao longo do crescimento acelerado podem ser resolvidas antes que se tornem limitantes demais.
O que parece claro é que a narrativa simples é insuficiente para descrever um processo de tamanha complexidade.
Mas talvez a pergunta em si já esteja mal formulada. Afinal, o que significa exatamente “superar”? Superar em qual dimensão, medido por quem, em benefício de quem?
Um país pode ter o maior PIB do mundo e ainda assim não ser capaz de exportar seus valores, sua moeda ou sua visão de futuro. Pode construir portos em todos os continentes e não conseguir construir a confiança que transforma influência econômica em liderança duradoura. Ou pode, ao contrário, resolver suas contradições internas de formas que ainda não conseguimos antecipar, e surpreender um Ocidente que também tem as suas.
O exercício mais honesto, talvez, não seja revisar as projeções, mas sim revisar as perguntas.
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