O complexo industrial-militar é hoje parte constitutiva das economias mais desenvolvidas do mundo. Desmontá-lo não seria apenas um gesto de paz; seria uma cirurgia econômica de proporções imprevisíveis.

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Em algum lugar do mundo, enquanto você lê este texto, alguém está morrendo em combate. Um míssil está sendo lançado, uma cidade está sendo evacuada, uma família está enterrando alguém. E em algum escritório de Estocolmo, economistas atualizam calmamente uma planilha com o custo de tudo isso.
Em 2024, o mundo gastou US$ 2,718 trilhões com despesas militares, segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). É o décimo ano consecutivo de aumento, e o maior salto anual desde o fim da Guerra Fria: 9,4% em termos reais em relação ao ano anterior. Para dar escala ao número, basta observar que ele equivale a 2,5% de todo o PIB mundial, ou US$ 334 por cada ser humano vivo no planeta, incluindo os que não têm acesso a água potável.
A frieza com que esses números existem não é casual, é parte da natureza da economia da guerra, um campo em que a violência e a contabilidade convivem com naturalidade perturbadora, e onde reduzir o conflito a uma linha de despesa seria um erro de perspectiva apenas se fingirmos que a relação entre guerra e prosperidade não é tão antiga quanto a própria civilização.
Desde que os primeiros estados organizados surgiram na Mesopotâmia, a capacidade de fazer guerra, e de se defender dela, foi também capacidade de acumular, de proteger rotas comerciais, de garantir colheitas, de impor tributos. O exército romano não era apenas uma máquina de conquista: era um dos maiores empregadores do Mediterrâneo antigo, o maior construtor de infraestrutura, o garantidor de um mercado comum que durou séculos. A espada e o arado sempre dividiram o mesmo ferro, e essa continuidade histórica é essencial para entender o que os números revelam, e o que escondem.
Voltando aos dias de hoje, os Estados Unidos gastaram US$ 997 bilhões em defesa em 2024. Sozinhos. Mais do que o triplo do segundo colocado, a China, que investiu US$ 314 bilhões. O conjunto dos 32 membros da OTAN somou US$ 1,5 trilhão, o equivalente a 55% de todo o gasto militar do planeta. Esses não são apenas números de segurança nacional. São contratos com empresas de tecnologia de ponta, são salários de milhões de trabalhadores, são patentes que migram da indústria bélica para o cotidiano civil, a internet, o GPS, os microprocessadores, os materiais que compõem hoje desde os carros elétricos até os stents cardíacos têm genealogia militar.
O complexo industrial-militar, aquele contra o qual Eisenhower alertou em 1961 em tom quase profético, é hoje parte constitutiva das economias mais desenvolvidas do mundo. Desmontá-lo não seria apenas um gesto de paz; seria uma cirurgia econômica de proporções imprevisíveis.
O outro lado desse espelho é igualmente desconfortável. Em países de renda média e baixa, aumentos no gasto militar tendem a ocorrer em detrimento direto de investimentos em saúde e educação. A disputa não é abstrata, ela aparece nas rubricas do orçamento. A Ucrânia, em guerra desde 2022, destinou em 2024 nada menos do que 34% do seu PIB à defesa, a maior carga militar de qualquer país no mundo. Todo o arrecadado em impostos pelo governo ucraniano foi para pagar a guerra.
O que pode sobrar para hospitais, escolas, reconstrução, quando um país inteiro se converte em campo de batalha? A equação é brutal: quando um Estado luta pela sobrevivência, a economia de guerra deixa de ser escolha e passa a ser condição de existência.
É aqui que o Oriente Médio, palco da mais recente escalada, mostra toda a sua complexidade. Israel aumentou seus gastos militares em 65% em 2024, o maior salto desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, chegando a US$ 46,5 bilhões, com uma carga de 8,8% do PIB, segunda maior do mundo. O contexto é o de um estado que se percebe permanentemente sitiado, cujo sistema de defesa antimíssil é ao mesmo tempo tecnologia de sobrevivência e um dos produtos de exportação mais disputados do mercado global de armamentos.
Como sabemos, recentemente os Estados Unidos e Israel lançaram ataques de larga escala contra o Irã, visando a ativos militares e à liderança do país. O Irã vem revidando com drones e mísseis balísticos contra Israel e bases americanas na região, e o confronto continua. O conflito vem dificultando a navegação no Estreito de Ormuz, principal artéria de petróleo do mundo, causou centenas de mortes e seus efeitos se espalharam por toda a região. O barril de petróleo disparou. O custo da guerra voltou, literalmente, ao bolso de quem abastece o carro em qualquer parte do mundo.
A economia da guerra é complexa, assustadoramente complexa. Uma fábrica de mísseis no estado norte-americano do Alabama emprega engenheiros, paga impostos e financia pesquisa universitária, mas o produto dela pode destruir uma escola no outro lado do mundo. Os primeiros dias da operação americana contra o Irã geraram uma conta bilionária, em sua maioria fora do orçamento previsto, segundo analistas do setor de defesa. Cada Tomahawk disparado custa cerca de US$ 2 milhões. Cada interceptação do sistema antimíssil Patriot, entre US$ 3 e 6 milhões.
A guerra é também uma disputa de tesourarias, e nessa disputa ganha quem consegue sustentar o ritmo de gasto por mais tempo, o que, por si só, já diz muito sobre quem pode se dar ao luxo de travar um conflito prolongado.
A Europa vem assistindo a essa realidade e, ainda que para alguns críticos o faça de forma lenta, vem ampliando seus esforços militares de maneira consistente. Com a guerra na Ucrânia em seu terceiro ano, os gastos militares do continente cresceram 17% em 2024. A Alemanha aumentou 28% e tornou-se, pela primeira vez desde a reunificação, o maior investidor em defesa da Europa Central e Ocidental. Polônia, Romênia, Suécia e Holanda registraram altas também expressivas.
O continente que construiu sua identidade pós-1945 sobre a ideia de que a integração econômica tornaria a guerra impossível redescobriu, com algum constrangimento, que a paz tem custos de manutenção, e que esses custos tendem a ser cobrados com juros quando se procrastina demais.
Em 2024, o gasto militar médio como parcela dos orçamentos governamentais subiu para 7,1%, e o gasto per capita global atingiu o nível mais alto desde 1990. Esses números não são abstratos: eles representam escolhas feitas em detrimento de outras, e não há resposta simples sobre qual delas é mais legítima. Há países que gastam em armas e prosperam, e há países que gastam em armas e empobrecem. Há conflitos que terminam com a vitória do mais armado, e há conflitos que se eternizam exatamente por isso. Ao mesmo tempo, há tecnologias que salvam vidas em hospitais por terem sido desenvolvidas originalmente para matar em campos de batalha.
A única certeza é que a guerra é uma constante da humanidade, em qualquer época, em qualquer latitude.
O que muda são os instrumentos, as justificativas, os números nas planilhas de Estocolmo. O que permanece é a conta, sempre crescente, sempre paga por alguém. A economia da guerra existe porque existe a guerra, e a guerra existe porque os humanos ainda não encontraram uma forma consistente de resolver disputas sem ela. Enquanto isso não mudar, o SIPRI continuará atualizando sua base de dados. E os números continuarão crescendo.
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