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O ataque terrorista do Hamas e a guerra que se seguiu alteraram radicalmente a economia de Tel Aviv. A velocidade das mudanças revelou o quanto a aparente normalidade israelense estava, na verdade, apoiada em bases frágeis.

Imagem: Amir Cohen/Reuters

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Antes do amanhecer de 7 de outubro de 2023, a economia israelense apresentava um quadro de relativa solidez.

O país vinha de uma recuperação pós-pandemia vigorosa, impulsionada sobretudo pela vitalidade de um setor de tecnologia que, há décadas, se consolidou como a espinha dorsal da vida econômica nacional. O turismo batia recordes, os investimentos estrangeiros fluíam e havia, entre analistas e empresários, a sensação de que Israel havia finalmente amadurecido para além de seus ciclos históricos de instabilidade.

O crescimento de 2023, ainda que mais lento, refletia menos uma fragilidade econômica estrutural e mais as tensões internas geradas pelo controverso projeto de reforma judicial do governo Netanyahu (uma crise política, não econômica).

Nada, porém, prenunciava a magnitude do choque que estava por vir.

O ataque terrorista do Hamas e a guerra que se seguiu alteraram radicalmente essa trajetória, e o fizeram com uma velocidade que revelou o quanto a aparente normalidade israelense estava, na verdade, apoiada em bases frágeis.

No último trimestre de 2023, o PIB contraiu de forma abrupta: centenas de milhares de reservistas foram convocados, paralisando empresas e canteiros de obras; as grandes companhias aéreas cancelaram rotas para Tel Aviv, tornando o país virtualmente inacessível ao turismo e aos negócios; e um sentimento difuso de insegurança passou a permear decisões de consumo, investimento e emprego.

Ao longo de 2024, mesmo com alguma recuperação, o crescimento do PIB ficou em apenas 1%, muito abaixo do que havia sido projetado antes do conflito, e negativo em termos per capita quando se considera o crescimento populacional. O que se passou, em síntese, foi menos uma recessão clássica e mais uma economia que entrou em modo de sobrevivência.

O custo fiscal dessa guerra é impressionante e merece atenção especial.

Os gastos militares saltaram de cerca de 98 bilhões de shekels em 2023 para 169 bilhões em 2024, elevando os gastos com defesa para cerca de 7% do PIB, proporção que, no mundo, só encontra paralelos em economias como a da Ucrânia, em situação de guerra declarada em seu próprio território.

Para tentar controlar as contas, o governo aumentou o IVA, congelou benefícios e cortou orçamentos ministeriais. Mesmo assim, a dívida pública saltou de 61,3% para 69% do PIB em apenas um ano, e as principais agências de classificação de risco rebaixaram a nota soberana israelense em sucessivas revisões. O Banco de Israel estimou os custos totais do conflito (militares, civis e de reconstrução) em até US$ 55 bilhões entre 2023 e 2025.

Os números, por si só, descrevem muito; mas o que descrevem de maneira ainda mais eloquente é a dificuldade de qualquer planejamento econômico quando se governa sem horizonte de paz.

O turismo é talvez o setor onde esse impacto se torna mais visível. O número de visitantes estrangeiros, que havia atingido um pico histórico em 2019 e caminhava para superá-lo em 2023, desabou 68% em 2024, encerrando o ano com menos de um milhão de chegadas. Hotéis que abrigavam peregrinos e turistas passaram a hospedar evacuados das regiões de fronteira. Cidades turísticas no norte do país, esvaziadas pelos ataques contínuos do Hezbollah, transformaram-se em zonas desertas.

A construção civil, setor que dependia fortemente de trabalhadores palestinos e que já havia sofrido com a restrição desses vistos, praticamente parou. O tecido econômico do cotidiano, composto por pequenos negócios, restaurantes, hotéis e serviços locais, ficou exposto de uma forma que os grandes números macroeconômicos raramente conseguem capturar.

Mas a guerra também gerou uma paradoxal expansão em outros setores, e aí reside uma das contradições mais reveladoras da economia israelense.

A indústria de defesa, já consolidada como uma das mais avançadas do mundo, atingiu em 2024 um recorde histórico de exportações, com países europeus aumentando drasticamente suas compras, impulsionados pelo ambiente de insegurança gerado pelos conflitos em curso no continente. O número de startups no setor de defesa quase dobrou desde outubro de 2023. O setor de alta tecnologia como um todo, que responde por cerca de 17% do PIB e por parcela majoritária das exportações de serviços, mostrou uma resiliência que surpreendeu: mesmo com o país formalmente em guerra, gigantes como Nvidia, Salesforce e SAP realizaram aquisições bilionárias de empresas israelenses, e o total captado pelo setor em 2024 cresceu 31% em relação ao ano anterior.

Há, em Israel, uma capacidade quase singular de inovar sob pressão, o que é, simultaneamente, um ativo notável e um sintoma de uma sociedade que aprendeu a funcionar sob condições que seriam paralisantes em qualquer outro contexto.

E então, na última semana de fevereiro de 2026, o horizonte se fechou ainda mais. Na madrugada do dia 28, Israel e os Estados Unidos lançaram uma série de ataques contra o Irã (a chamada Operação Epic Fury), que resultou, entre outras coisas, no assassinato do Aiatolá Ali Khamenei. O Irã respondeu com uma campanha massiva de mísseis e drones contra Israel, bases militares americanas em pelo menos oito países do Golfo e infraestrutura energética da região.

Em poucos dias, grandes empresas de navegação suspenderam operações no Oriente Médio, o Irã declarou o Estreito de Ormuz fechado e passou a atacar petroleiros que tentassem atravessá-lo, elevando os preços do barril de petróleo em aproximadamente 30%, para mais de US$ 90 dólares pela primeira vez em anos.

O conflito, antes geograficamente circunscrito, tornou-se, de repente, um problema energético e logístico global.

Para Israel, o impacto econômico desse novo capítulo ainda está se materializando, mas sua direção é clara. O turismo, que já estava em colapso, enfrenta agora uma perspectiva ainda mais distante de recuperação: não há horizonte de normalização do espaço aéreo, de retomada de rotas comerciais ou de confiança suficiente para que visitantes planejem viagens ao país. O investimento estrangeiro, que havia dado sinais de resiliência no setor de tecnologia, passa a conviver com um nível de incerteza geopolítica que poucos investidores, mesmo os mais experientes em riscos emergentes, estão dispostos a ignorar. E o gasto militar, já pressionando o orçamento de forma historicamente inédita, tende a se ampliar ainda mais diante de uma guerra que agora envolve diretamente diversos atores regionais e os Estados Unidos.

O que esse acúmulo de conflitos revela, ao fim, é algo mais profundo do que uma sequência de choques externos. Ele revela uma mudança de natureza.

Durante décadas, Israel viveu com a presença permanente de tensões e conflitos, mas tratava essa convivência como um estado de exceção gerenciável, algo que existia em paralelo à vida econômica normal, perturbando-a periodicamente, mas sem defini-la de forma estrutural. O que se passa desde outubro de 2023, e que se aprofunda agora com a escalada contra o Irã, sugere que esse modelo de coexistência entre guerra e normalidade está se tornando insustentável. O conflito deixou de ser o pano de fundo e passou a ser o ambiente permanente.

Economias, por mais resilientes que sejam, não foram construídas para prosperar indefinidamente nesse tipo de ambiente. Israel dispõe de ativos reais: capital humano, ecossistema de inovação, relações financeiras sólidas com o Ocidente. Mas esses ativos se desgastam quando o horizonte de planejamento desaparece, quando a dívida cresce sem âncora fiscal, quando os jovens mais talentosos começam a calcular se faz sentido construir suas vidas ali.

A pergunta que paira sobre a economia israelense hoje não é se ela vai sobreviver. Já sobreviveu a muita coisa. A pergunta é o que ela será depois, e se o modelo que a tornou próspera no passado ainda faz sentido num país que parece ter deixado de ter a guerra como exceção para vivê-la como condição.

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