Comissão Europeia quer reduzir a dependência do dólar, temendo que os EUA usem sua moeda como ferramenta de pressão política. Impasses internos dificultam a implementação das reformas necessárias.

A União Europeia decidiu que a dependência financeira em relação aos Estados Unidos deixou de ser apenas um inconveniente econômico para se tornar uma vulnerabilidade de segurança nacional.
Sob o espectro da administração de Donald Trump, a Comissão Europeia traçou um plano ambicioso para fortalecer o euro e blindar o bloco contra a “militarização” do sistema financeiro internacional. A preocupação central é que Washington utilize o domínio do dólar como ferramenta de coerção política, uma tática que o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, descreveu abertamente como uma forma eficaz de “fazer a diferença sem disparar balas”.
O plano, detalhado em uma nota confidencial que circula entre ministros das Finanças do bloco, propõe uma reavaliação abrangente do posicionamento global do euro. Para Bruxelas, não se trata mais de um objetivo meramente desejável, mas de uma necessidade de defesa. O documento é claro na descrição:
“A evolução recente no cenário monetário e financeiro internacional exige uma reavaliação abrangente da estratégia de posicionamento global do euro. A UE precisa agir para aumentar sua resiliência contra a potencial transformação do sistema financeiro em arma.”
A execução dessa estratégia, contudo, enfrenta barreiras internas crônicas. O primeiro passo necessário seria a integração total dos mercados financeiros europeus, um projeto que se arrasta há uma década. A criação de uma União de Poupança e Investimento esbarra na resistência da Alemanha em compartilhar riscos bancários e no bloqueio da Itália a mecanismos de liquidez. Sem um mercado de capitais profundo e unificado, o euro carece da liquidez necessária para atrair grandes investidores globais que hoje orbitam o Tesouro americano.
Outro pilar da ofensiva europeia envolve a arena digital. Enquanto os EUA apostam em stablecoins pareadas ao dólar para manter sua dominância, a Comissão Europeia quer acelerar a adoção de ativos digitais denominados em euro. François Villeroy de Galhau, governador do banco central francês, resumiu a urgência da soberania tecnológica.
“Podemos ter tanto stablecoins quanto depósitos tokenizados. Mas, se não tivermos nenhum deles, ficarei preocupado com a soberania. O euro digital é o caminho para o mundo financeiro do futuro.”
Apesar do entusiasmo técnico, a resistência política permanece alta. O Partido Popular Europeu (PPE) mantém ceticismo sobre o euro digital, e países fiscalmente conservadores, como a Holanda e novamente a Alemanha, opõem-se à emissão de dívida conjunta para financiar projetos de defesa e energia. Além disso, a tentativa de impor o euro em contratos de matérias-primas e aviação enfrenta a inércia de décadas de práticas de mercado consolidadas em dólar.
Essa encruzilhada coloca a Europa em uma posição delicada: o desejo de independência financeira é claro, mas a fragmentação política interna continua sendo o maior aliado da hegemonia americana. Ao tentar construir um muro de proteção contra as incertezas de Washington, Bruxelas descobre que os tijolos mais difíceis de assentar são aqueles que dependem do consenso entre suas próprias capitais.
Leia mais:
Quer entender melhor o cenário atual? Leia também as últimas matérias que selecionamos para você.
Envie-nos o seu feedback em contato@wowgeopolitica.com.br.
Interessado em se conectar com leitores curiosos e informados? Anuncie conosco.