União Europeia classifica a Guarda Revolucionária do Irã como terrorista, endurece sanções e abandona cautela diplomática após repressão violenta a protestos.

A União Europeia decidiu, enfim, cruzar uma linha política que por meses tentou evitar. Ao classificar a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã como organização terrorista, o bloco troca cautela diplomática por um recado geopolítico direto a Teerã, em um momento de escalada repressiva interna e crescente instabilidade regional.
A decisão foi tomada nesta quinta-feira (29), em Bruxelas, durante reunião dos ministros das Relações Exteriores dos 27 países do bloco, após a obtenção de unanimidade política. A medida inclui congelamento de ativos, proibição de financiamento e restrições de viagem aos integrantes da Guarda Revolucionária, força criada em 1979 após a Revolução Iraniana e hoje considerada um verdadeiro Estado dentro do Estado iraniano.
O gesto europeu ocorre após semanas de impasse interno. Países como França, Espanha e Itália resistiam à designação por temer represálias diplomáticas, riscos a negociações nucleares e impactos sobre cidadãos europeus detidos no Irã. Esse cálculo mudou à medida que imagens e vídeos da repressão começaram a circular após o afrouxamento do bloqueio à internet no país.
“Quando as atrocidades ficaram claras, também ficou claro que precisava haver uma resposta muito forte do lado europeu”, afirmou a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas. Segundo ela, os riscos diplomáticos foram considerados e calculados.
Dados citados por organizações de direitos humanos indicam que mais de 6.100 pessoas morreram desde o início dos protestos no fim de dezembro de 2025, incluindo dezenas de crianças. Outros relatos apontam números significativamente mais altos, com estimativas chegando a dezenas de milhares de mortos em confrontos de rua ligados à crise econômica que se transformaram em contestação direta ao regime.
A pressão política aumentou dentro da própria União Europeia. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, classificou a decisão como “a correta”, após o que descreveu como imagens “chocantes” da brutalidade do regime.
“A Europa se posiciona para ser considerada”, declarou.
A Guarda Revolucionária é acusada de coordenar a repressão interna, fornecer armas à Rússia, lançar mísseis contra Israel e manter vínculos com grupos armados como Hezbollah no Líbano, Hamas na Palestina e os Houthis no Iêmen. Estados Unidos, Canadá e Austrália já haviam adotado a classificação, enquanto Alemanha e Países Baixos pressionavam o bloco a seguir o mesmo caminho.
Mesmo com a decisão, Bruxelas afirma querer manter canais diplomáticos abertos. “As interações com o ministro das Relações Exteriores não estão sob esta designação”, disse Kallas. “Os canais diplomáticos permanecerão abertos.”
A resposta de Teerã ainda é incerta. Mas a mensagem europeia, porém, foi clara.
“A repressão não pode ficar sem resposta”, resumiu Kallas. “Qualquer regime que mata milhares de seu povo trabalha para a própria queda.”
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