Suíça decide aumentar IVA por dez anos para financiar rearmamento militar, abandonando cautela histórica diante da guerra na Europa e novas ameaças globais.

A neutralidade suíça ficou mais cara. Pela primeira vez em décadas, isso será sentido diretamente no bolso do contribuinte. Diante de um cenário europeu cada vez mais instável, Berna decidiu que segurança nacional também se financia com impostos.
O governo da Suíça anunciou nesta semana que pretende elevar o imposto sobre valor agregado (IVA) em 0,8% por um período de dez anos, a partir de 2028, para financiar um amplo programa de modernização militar. A medida busca levantar cerca de 31 bilhões de francos suíços para fortalecer a defesa do país em meio à deterioração do ambiente geopolítico no continente.
Hoje, a alíquota padrão do imposto é de 8,1%, uma das mais baixas da Europa. Mesmo assim, a proposta enfrenta um caminho político complexo. Além da aprovação do Parlamento, a mudança exige alteração constitucional e será submetida a voto popular, reflexo direto do sistema de democracia suíço. O governo pretende apresentar o projeto de lei até o fim de março, com um referendo previsto para o verão de 2027.
A decisão expõe uma mudança histórica de postura. País tradicionalmente neutro e fora tanto da União Europeia quanto da OTAN, a Suíça gasta apenas cerca de 0,7% do PIB com defesa, menos da metade da média europeia. O objetivo oficial de elevar esse percentual para 1% até 2032 já foi considerado insuficiente pelo próprio governo.
Segundo o Conselho Federal, décadas de cortes orçamentários deixaram as Forças Armadas mal equipadas para enfrentar ameaças modernas, como ataques de longo alcance, guerra híbrida, cibernética e desafios no espectro eletromagnético. O plano prioriza sistemas de defesa aérea de curto e médio alcance, além de investimentos em tecnologia digital militar.
O contexto internacional pesa. Além da guerra na Ucrânia, autoridades suíças mencionam o recuo do compromisso de segurança dos Estados Unidos com a Europa, o que tem levado países tradicionalmente cautelosos a rever suas estratégias. O fundo de armamentos criado com o novo imposto poderá contrair dívidas, desde que esteja zerado ao fim dos dez anos.
“O equipamento de defesa ficou significativamente mais caro, em parte pela inflação e pelo aumento abrupto da demanda”, afirmou o ministro da Defesa, Martin Pfister. “O modelo atual de financiamento não reflete mais a realidade desse mercado”.
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