Kaja Kallas alerta que depender dos Estados Unidos para a defesa se tornou um risco estrutural. Ela defende autonomia militar diante da ruptura transatlântica.

Cresce na Europa a sensação incômoda de que terceirizar a própria sobrevivência talvez não tenha sido um grande negócio. Em Bruxelas, o discurso deixou de ser diplomático e passou a ser existencial.
Nesta quarta-feira(28), em discurso na Agência Europeia de Defesa, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que o bloco precisa reformular com urgência sua estratégia de segurança para sobreviver em um cenário marcado pela ruptura transatlântica e pela ascensão da “política de poder coercitiva”. Segundo ela, a confiança europeia nos Estados Unidos como parceiro central de defesa foi abalada sob o governo de Donald Trump.
Kallas afirmou que a Europa deixou de ser prioridade estratégica de Washington. “Essa mudança vem ocorrendo há algum tempo. Ela é estrutural, não temporária”, disse. E foi direta ao ponto: “Nenhuma grande potência na história jamais terceirizou sua sobrevivência e sobreviveu”.
O pano de fundo é a escalada de tensões entre aliados históricos. Trump voltou a questionar seu compromisso com a OTAN, ameaçou assumir o controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, e chegou a acenar com tarifas contra parceiros europeus. O episódio escancarou fissuras que vinham sendo ignoradas desde o fim da Guerra Fria.
Diante disso, Kallas defendeu o fortalecimento de capacidades militares próprias da União Europeia, incluindo metas conjuntas de aquisição de equipamentos, maior coordenação entre países que integram simultaneamente a UE e a OTAN, e até a possibilidade de um aparato militar europeu financiado e controlado pelos Estados-membros. Também criticou a exigência de unanimidade em decisões de política externa, apontada como fator de paralisia estratégica.
A proposta enfrenta resistência. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que a Europa deveria “continuar sonhando” se acredita poder se defender sem os Estados Unidos. Em resposta, o chanceler francês Jean-Noël Barrot rebateu: “Não, caro Mark Rutte. Os europeus podem e devem assumir o controle de sua segurança”.
O debate ocorre enquanto países da Otan prometem elevar gastos militares para até 5% do PIB até 2035, sob pressão de Washington. Para críticos, trata-se menos de autonomia e mais de um ajuste tardio à realidade. Para Kallas, é uma questão de sobrevivência.
“A Europa precisa assumir sua responsabilidade.”
Leia mais:
Quer entender melhor o cenário atual? Leia também as últimas matérias que selecionamos para você.
Envie-nos o seu feedback em contato@wowgeopolitica.com.br.
Interessado em se conectar com leitores curiosos e informados? Anuncie conosco.