Divisa supera US$ 1,20 e expõe fragilidades do dólar. Alta pressiona exportadores europeus e reacende debates sobre poder monetário, reservas globais e o futuro da ordem financeira.

O euro voltou a cruzar um patamar simbólico e politicamente sensível. Ao superar a marca de US$ 1,20, a divisa europeia reacende debates sobre poder econômico, desequilíbrios globais e a crescente fadiga com o dólar.
Com alta acumulada de cerca de 13% no último ano, o melhor desempenho frente ao dólar desde 2017, a valorização levou o euro ao seu nível mais alto desde 2021. O movimento ocorre em meio ao enfraquecimento da moeda dos Estados Unidos, alimentado por tensões comerciais, ruídos políticos e dúvidas sobre a condução da política econômica norte-americana.
Historicamente, o nível de US$ 1,20 não é excepcional. Ele está ligeiramente acima da média do euro desde sua criação, em 1999, e bem distante do pico de quase US$ 1,60 registrado em 2008, antes da crise financeira global. Ainda assim, o patamar redondo funciona como um divisor psicológico para investidores e formuladores de política.
O impulso recente tem raízes geoeconômicas claras. Confrontos do presidente Donald Trump com aliados, ataques públicos ao Federal Reserve e incertezas sobre comércio internacional pressionaram o dólar. Ao mesmo tempo, estímulos fiscais europeus, liderados pela Alemanha, e esforços para reforçar segurança e crescimento de longo prazo fortaleceram a percepção sobre o euro.
Para as empresas europeias, porém, a moeda forte tem custo. Cerca de 60% das receitas das companhias do índice STOXX 600 vêm do exterior, sendo quase metade dos Estados Unidos. Um euro valorizado encarece exportações e já respondeu por aproximadamente metade dos cortes nas projeções de lucro por ação no último ano, segundo estimativas do Barclays.
No Banco Central Europeu (BCE), a preocupação não é o nível em si, mas a velocidade do movimento. O euro subiu cerca de 2% em uma semana, a maior alta semanal desde abril, o que pode pressionar a inflação para baixo em um cenário que já projeta resultado inferior à meta de 2%.
Apesar das mudanças, a disparada não transforma o euro em substituto do dólar como principal moeda de reserva global. O dólar ainda responde por quase 60% das reservas internacionais, contra cerca de 20% do euro. Para que a transformação de fato ocorresse, mudanças tanto nos EUA quanto na UE precisariam ser concluídas.
Para Christine Lagarde, presidente do BCE, políticas erráticas nos Estados Unidos podem ampliar o papel global do euro, mas a confirmação da tendência vai depender da capacidade europeia de avançar em sua arquitetura financeira própria.
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