Parceria franco-alemã perde força, e Berlim se aproxima da Itália. Países buscam fortalecer aliança estratégica para impulsionar indústria, defesa e autonomia europeia.

A velha engrenagem franco-alemã da União Europeia começa a falhar, mas Berlim já encontrou um novo parceiro para manter o bloco em movimento: Roma.
Em meio a tensões com Paris e a um cenário geopolítico mais hostil, Alemanha e Itália ensaiam uma reconfiguração de poder que combina pragmatismo econômico, cálculo político e uma dose controlada de ironia histórica.
Em Roma, nesta sexta-feira (23), o chanceler alemão Friedrich Merz e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni selaram uma aproximação estratégica durante uma cúpula intergovernamental realizada na Villa Doria Pamphilj, na capital italiana. O encontro marcou a assinatura de um novo Plano de Ação Germano-Italiano, com foco em competitividade industrial, defesa, energia, migração e relações transatlânticas.
A mudança de eixo não é casual. Berlim está irritada com a postura francesa em relação ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, considerado vital pelos alemães para sustentar exportações industriais. Também pesam disputas em projetos militares conjuntos e a percepção de que Paris prefere discursos a resultados. Roma, por sua vez, oferece algo raro no atual tabuleiro europeu: alinhamento político, estabilidade interna e disposição para negociar.
Merz e Meloni compartilham uma visão atlanticista e buscam reduzir tensões com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao mesmo tempo em que defendem uma Europa mais competitiva e menos engessada por regulações. “Quando Berlim e Roma trabalham juntas, não é por rotina, mas por convicção”, afirmou o chanceler alemão, destacando que o futuro e a capacidade de ação da Europa dependem dessa cooperação.
O Plano de Ação prevê coordenação em defesa e segurança, reforço da OTAN, apoio à Ucrânia, sanções contra a Rússia e iniciativas conjuntas para lidar com migração, especialmente a partir da África. No campo econômico, Alemanha e Itália se apresentam como as “duas principais nações industriais da Europa” e defendem uma transição verde competitiva, sem imposições tecnológicas que prejudiquem setores como o automotivo, onde o bloco já corre atrás da China.
Apesar da sintonia, a aliança está longe de ser um casamento por amor. Há divergências relevantes, sobretudo em política fiscal e gastos militares. Ainda assim, para Berlim, a parceria com Roma funciona como contrapeso a Paris. Para Meloni, é a chance de ocupar um espaço deixado pela França em um momento de redefinição do poder europeu.
O ex-diplomata italiano Stefano Stefanini descreveu a relação como “muito tática”. Em um continente pressionado por crises externas e disputas internas, isso pode ser exatamente o que ambos precisam.
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