Avanço chinês no continente, com novos acordos com Quênia e Lesoto, preocupa Washington. Pequim se coloca como alternativa estratégia em meio a tarifas e retirada norte-americana.

A África acelera sua guinada econômica em direção à China, enquanto incertezas comerciais com Washington empurram países do continente a buscar novos mercados e parceiros estratégicos.
Em Nairóbi, nesta semana, o Quênia anunciou um acordo preliminar com Pequim que garante acesso sem tarifas para quase todos os seus produtos exportados ao mercado chinês. A decisão ocorre em meio ao impacto de tarifas mais altas impostas pelos Estados Unidos e à instabilidade em torno da renovação do African Growth and Opportunity Act (AGOA), tradicional mecanismo de acesso preferencial ao mercado norte-americano.
Segundo o ministro do Comércio do Quênia, Lee Kinyanjui, 98,2% dos bens quenianos poderão entrar na China sem impostos de importação, com destaque para produtos agrícolas, setor vital da economia nacional. O acordo ainda depende de ratificação parlamentar, mas já é visto pelo governo como peça central de uma estratégia para diversificar mercados e reduzir desequilíbrios comerciais.
“O acordo busca diversificar nossos mercados e reduzir desequilíbrios comerciais”, afirmou Kinyanjui em comunicado oficial.
O movimento queniano não é isolado. Diversos países africanos vêm reforçando laços com Pequim desde que o governo do presidente Donald Trump ampliou tarifas globais no ano passado. Embora o Quênia tenha sido atingido pela menor alíquota adicional, de 10%, o país sofreu com o vencimento do AGOA em setembro. Apesar de parlamentares norte-americanos terem aprovado recentemente uma extensão de três anos, o processo ainda não foi concluído.
Em paralelo, a China intensificou sua presença diplomática e econômica no sul do continente. Durante visita oficial do chanceler Wang Yi, Pequim e o Lesoto concordaram em aprofundar a cooperação em áreas como agricultura, infraestrutura, saúde, água, energia e economia verde. Para Maseru, a parceria é estratégica em um momento de dificuldades no setor têxtil, diretamente afetado por mudanças na política comercial de Washington.
O ministro das Relações Exteriores do Lesoto, Lejone Mpotjoane, destacou que a prioridade é fortalecer os vínculos bilaterais e impulsionar o desenvolvimento. Ele ressaltou o apoio chinês à agricultura e a projetos de energia, explorando o potencial hídrico do país, conhecido como a “torre de água” da África Austral.
Nos bastidores, o avanço chinês desperta preocupação em Washington. O deputado Jason Smith, presidente do Comitê de Meios e Recursos da Câmara, alertou para o risco de Pequim “monopolizar” mercados africanos, ao mesmo tempo em que cobra urgência na renovação do AGOA.
Para os países africanos, porém, a mensagem é clara: em um cenário global mais protecionista, diversificar parceiros tornou-se uma questão de sobrevivência econômica.
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