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Lisboa lucrou com a Venezuela chavista durante a crise do Euro, mas a aposta no regime Maduro resultou em contratos descumpridos, calotes e prejuízos milionários.

Imagem: Daniel Rocha / Publico

Entre 2008 e 2016, Portugal apostou pesado na Venezuela chavista como saída económica em plena crise financeira europeia, sustentando negócios bilionários pagos, direta ou indiretamente, pelo petróleo do regime.

O que começou como diplomacia económica agressiva terminou como um manual de como não se negociar com ditaduras personalistas e economias dependentes de um único recurso.

O acordo de cooperação firmado durante o primeiro governo de José Sócrates abriu as portas para contratos vultosos em construção, energia, alimentos e tecnologia. As exportações portuguesas para a Venezuela multiplicaram-se por seis em poucos anos, atingindo picos entre € 200 e € 300 milhões anuais. Casas pré-fabricadas, portos, autoestradas, computadores escolares e até pernil de porco tornaram-se símbolos dessa ofensiva.

O pano de fundo era geopolítico. Hugo Chávez via Portugal como parceiro europeu amigável e politicamente alinhado. Lisboa, por sua vez, enxergava Caracas como mercado garantido graças ao petróleo e à forte comunidade luso-descendente. A PDVSA, estatal venezuelana, funcionava como fiadora informal dos contratos, enquanto receitas do petróleo bruto, vendido inclusive à multinacional portuguesa Galp, serviam como garantia indireta de pagamento.

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O problema surgiu quando a realidade bateu à porta.

A morte de Chávez, a ascensão de Nicolás Maduro, a queda do preço do petróleo, a má gestão crônica e o isolamento internacional corroeram rapidamente a capacidade de pagamento do regime. Contratos milionários ficaram pelo caminho, obras foram suspensas e empresas portuguesas passaram a acumular créditos a receber.

Casos emblemáticos ilustram o colapso. O Grupo Lena, com o qual Sócrates viria a ter uma relação conturbada, e a Teixeira Duarte, conglomerado de construção, viram projetos de bilhões minguarem. A Iguarivarius, criada para vender pernil à Venezuela, faturou centenas de milhões até ser engolida pela inadimplência estatal. O computador Magalhães, promovido como símbolo de cooperação educacional, acabou associado a polémicas políticas e falta de transparência.

A erosão foi inevitável. O investimento direto português na Venezuela despencou de cerca de € 650 milhões em 2017 para pouco mais de € 90 milhões no ano seguinte. As exportações tornaram-se residuais, afetadas por sanções internacionais, hiperinflação e desvalorização cambial.

O caso venezuelano deixou uma lição clara para a geopolítica económica europeia: regimes alinhados a Rússia e China podem prometer muito, mas raramente entregam estabilidade. Para Fernando Serrasqueiro, ex-secretário de Estado do Comércio, o motor de tudo era simples e frágil.

“Unicamente a disponibilidade de fundos gerada pela venda do petróleo venezuelano”.

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