A queda de Maduro evidencia que a disputa dos Estados Unidos na Venezuela vai além do petróleo: minerais críticos e o controle geopolítico da América do Sul estão em jogo.

Os interesses por trás da derrubada de Nicolás Maduro por Washington vão muito além do petróleo e expõem uma disputa geopolítica maior: o controle de minerais críticos na América do Sul.
Embora o petróleo concentre os holofotes, para alguns analistas ele não é o fator decisivo. Os Estados Unidos têm oferta abundante de óleo. Por outro lado, carecem de minerais essenciais para sustentar sua ambição tecnológica.
Em 2025, o governo norte-americano interveio diretamente em setores estratégicos do país para garantir domínio em inteligência artificial, incluindo por meio de investimentos pesados em terras raras e cadeias industriais sensíveis. A pressão aumentou após a China, responsável por cerca de 85% do processamento global desses minerais, impor restrições às exportações.
Nesse contexto, a Venezuela surge como estratégica. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, resumiu a aposta ao afirmar que o país tem “aço, minerais, todos os minerais críticos” e “uma grande história de mineração que enferrujou”, algo que a administração Trump pretende “consertar”.
A ironia é que o potencial mineral venezuelano, embora relevante, pode ser mais limitado do que o discurso sugere.
Leia mais:
Trump quer controle da Groenlândia e gera tensão com aliados europeus
A benção maldita da África: o conflito pelas Terras Raras
Analistas do setor apontam que a Venezuela não possui reservas confirmadas de terras raras. Seus principais recursos minerais incluem ouro, níquel, bauxita e coltan, insumos importantes, mas menos valiosos do que cobre ou lítio, abundantes em outros países da região. Christopher Ecclestone, estrategista de mineração da Hallgarten & Company, avalia que, fora o ouro, os minerais venezuelanos são relativamente baratos e difíceis de explorar em escala competitiva.
O desafio é também institucional e territorial. Grande parte das jazidas está no Arco Minerador do Orinoco, uma área remota, coberta por floresta e marcada pela presença de redes ilícitas e grupos armados. A promessa de riqueza rápida, segundo Ecclestone, pode se revelar ilusória para investidores estrangeiros dispostos a enfrentar riscos elevados sem garantia de retorno.
Ainda assim, a operação na Venezuela envia um recado claro à região. O objetivo estratégico é reestabelecer uma esfera de influência norte-americana nas Américas e reduzir a presença chinesa. A América do Sul concentra ferro, cobre, lítio e manganês em volumes decisivos para a economia global. Brasil, Chile, Peru, Bolívia e Argentina aparecem como ativos muito mais atraentes do que Caracas para quem pensa em retorno econômico e segurança jurídica.
Matt Gertken, da BCA Research, alerta que qualquer aproveitamento relevante dos recursos venezuelanos levará anos, exigindo um governo estável e forte participação privada. O próprio histórico recente do país funciona como advertência.
“Eles testemunharam que a revolução bolivariana levou ao colapso econômico, à instabilidade social e à intervenção militar estrangeira”, afirmou.
Leia mais:
Trump quer controle da Groenlândia e gera tensão com aliados europeus
A benção maldita da África: o conflito pelas Terras Raras
Envie-nos o seu feedback em contato@wowgeopolitica.com.br.
Interessado em se conectar com leitores curiosos e informados? Anuncie conosco.