A União Europeia avança com uma política industrial inspirada na China, exigindo joint ventures, limites ao capital estrangeiro e transferência de tecnologia.

A União Europeia (UE) prepara uma guinada profunda em sua política industrial, inspirando-se abertamente no modelo chinês de controle sobre o investimento estrangeiro. A estratégia, que por décadas foi alvo de críticas de Bruxelas, agora reaparece como peça central do plano para reindustrializar o bloco.
A mudança está materializada no Industrial Accelerator Act, proposta liderada pelo comissário europeu de Indústria, Stéphane Séjourné. O texto prevê que empresas estrangeiras só terão acesso a setores estratégicos europeus se aceitarem formar joint ventures com companhias locais, compartilhar know-how e manter a propriedade intelectual sob controle europeu.
O movimento representa uma ruptura com o discurso histórico da União Europeia em defesa de mercados abertos. Durante anos, Bruxelas condenou exatamente esse tipo de exigência quando imposta por Pequim, acusando a China de forçar transferências tecnológicas e distorcer a concorrência global. Agora, o argumento é que a Europa precisa “correr atrás” para recuperar a musculatura industrial perdida.
Segundo dados do projeto, o plano busca elevar a participação da indústria para ao menos 20% do valor agregado bruto do bloco até 2030, ante 14,3% em 2020. Para isso, investimentos estrangeiros acima de € 100 milhões em setores considerados estratégicos passariam por triagem obrigatória, com a participação estrangeira limitada a 49%.
Os setores atingidos devem incluir indústrias intensivas em energia, tecnologias de transição climática, como baterias e painéis solares, além do setor automotivo. Além disso, empresas estrangeiras teriam de destinar ao menos 1% da receita à pesquisa e desenvolvimento dentro da UE e adquirir 50% de seus insumos no próprio bloco.
Especialistas apontam riscos jurídicos e políticos relevantes.
“Isso vai contra todos os esforços que a Europa fez no passado para manter este mercado aberto e, do ponto de vista legal, é muito duvidoso”, afirmou Niclas Poitiers, do think tank Bruegel.
O debate também escancara contradições históricas. Durante décadas, empresas europeias aceitaram as regras chinesas em troca de acesso a um mercado gigantesco, ajudando a construir cadeias produtivas que hoje se tornaram fonte de dependência estratégica. “Permitimos que essas dependências fossem criadas porque acreditávamos que nunca haveria uma instrumentalização do comércio”, disse Agatha Katz, da consultoria Rhodium Group.
Agora, ao tentar replicar o modelo chinês, Bruxelas corre o risco de afastar investidores justamente em um momento de baixo crescimento. Andreas von Bonin, do escritório Freshfields, descreveu o racional da questão em poucas palavras.
“Se você tem um problema estrutural de crescimento, deveria pensar duas vezes antes de adicionar mais burocracia”.
Leia mais:
Quer entender melhor o cenário atual? Leia também as últimas matérias que selecionamos para você.
Envie-nos o seu feedback em contato@wowgeopolitica.com.br.
Interessado em se conectar com leitores curiosos e informados? Anuncie conosco.