Fundo de recuperação da União Europeia, instrumental durante a pandemia, enfrenta agora atrasos, burocracia e dúvidas sobre seu real impacto estrutural.

O maior fundo de recuperação da história da União Europeia nasceu como resposta emergencial à pandemia, mas caminha para o fim deixando uma sensação incômoda: salvou economias no curto prazo, porém falhou em transformar o bloco estruturalmente.
Criado em 2021, o pacote NextGenerationEU, cujo principal instrumento é o Recovery and Resilience Facility, mobilizou até € 723 bilhões em subsídios e empréstimos para conter o colapso econômico provocado pela COVID-19 e, paralelamente, acelerar as transições verde e digital. Anos depois, o saldo é desigual, e os gargalos são cada vez mais evidentes.
É consenso que o fundo amortizou o choque da recessão. O dinheiro ajudou governos a sustentar empresas, proteger empregos e financiar investimentos públicos quando o PIB europeu despencava. Também rompeu um tabu histórico ao permitir o endividamento conjunto da União Europeia, movimento visto como um divisor de águas institucional. Mas a ambição de “emergir mais forte” esbarrou na velha combinação europeia de burocracia pesada, escassez de mão de obra qualificada e lentidão decisória.
Dos mais de € 700 bilhões inicialmente disponíveis, cerca de € 182 bilhões ainda não foram desembolsados. Países-chave, como Espanha e Itália, concentram boa parte dos atrasos. Em Madri, o governo abriu mão de mais de € 60 bilhões em empréstimos, alegando dificuldades técnicas, entraves em cadeias de suprimento e menor atratividade da dívida europeia diante da melhora de sua posição nos mercados.
Na Itália, o maior beneficiário individual do fundo, revisões sucessivas do plano nacional e disputas políticas internas atrasaram investimentos estratégicos. Projetos considerados essenciais, como a expansão de creches para ampliar a participação feminina no mercado de trabalho, foram reduzidos. Ao mesmo tempo, parte dos recursos foi direcionada a intervenções vistas como de baixo impacto econômico, alimentando críticas sobre dispersão e ineficiência.
Nem mesmo a tempestade geopolítica de anos recentes foi suficiente para concretizar as iniciativas. A invasão da Ucrânia pela Rússia, a crise energética, a inflação elevada e o risco crescente de coerção econômica por parte da China e de um ambiente mais hostil vindo dos Estados Unidos reforçaram a percepção de que a Europa precisa fortalecer sua base produtiva e sua autonomia estratégica. Ainda assim, o fundo avançou mais como instrumento de estabilização do que como motor de competitividade.
A Comissão Europeia sustenta que os efeitos positivos sobre crescimento e produtividade ainda aparecerão, estimando um aumento de até 1,4% no PIB real do bloco até 2026. Economistas, porém, alertam que, sem continuidade e menos rigidez fiscal, o impacto pode se dissipar rapidamente. Na visão de Carsten Brzeski, economista do ING, permitir que o programa expire é um erro.
“Uma maneira fácil de garantir que o dinheiro chegue à economia seria estender os programas por mais um ou dois anos”.
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