Dólar perde força com tarifas e tensões políticas. FMI simula cenários extremos e investidores buscam alternativas fora dos Estados Unidos.

O dólar voltou ao centro da tempestade global e já não inspira a confiança automática de outros tempos. Entre tarifas, choques diplomáticos e ruídos institucionais em Washington, investidores e autoridades internacionais começaram a se preparar para um cenário que até pouco tempo parecia impensável.
Na segunda-feira (26), a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou que a instituição vem simulando cenários extremos, incluindo uma corrida global contra ativos denominados em dólar. As declarações ocorrem num momento em que a moeda norte-americana acumula queda superior a 9% desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, aprofundando perdas frente ao euro e reacendendo dúvidas sobre seu papel como principal reserva global.
O pano de fundo é geopolítico e econômico. As tarifas agressivas impostas por Washington, os ataques recorrentes à independência do Federal Reserve e a escalada de tensões diplomáticas vêm pressionando o dólar e alimentando a busca por alternativas. O ouro atingiu o recorde histórico de US$ 5.100 por onça-troy, enquanto grandes gestores revisam sua exposição a ativos dos Estados Unidos.
“Não acho que seja um movimento de ‘venda dos Estados Unidos’, mas os fundamentos estão mudando mais rápido do que o esperado”, disse Seema Shah, da Principal Asset Management.
O fenômeno não é isolado nem recente. Segundo Georgieva, a participação do dólar nas reservas globais caiu de 72% em 2001 para menos de 57% atualmente, refletindo um processo gradual de diversificação. Países do bloco BRICS, como China e Rússia, vêm defendendo abertamente sistemas de pagamento menos dependentes da moeda norte-americana, em reação às sanções ocidentais.
Diante desse cenário, o FMI passou a defender que a União Europeia emita mais dívida conjunta, criando um ativo seguro alternativo aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. A proposta, no entanto, enfrenta resistência interna de países como Alemanha e Países Baixos.
Ainda assim, Georgieva reconheceu que uma mudança abrupta no status do dólar é improvável.
“Ele continua dominante por um motivo: a profundidade e a liquidez dos mercados de capitais dos Estados Unidos”, afirmou.
O recado dos mercados, porém, é claro. A previsibilidade que sustentou o dólar por décadas já não é garantida, e o sistema financeiro global começa, discretamente, a recalcular seus riscos.
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