Cobiça norte-americana pela Groenlândia e possível resposta agressiva da UE aproximam a relação de seu ponto mais baixo. Efeitos econômicos e políticos podem ser imprevisíveis.

A crise transatlântica deixou de ser retórica e começou a fazer preço.
A ofensiva comercial do presidente Donald Trump contra aliados europeus, combinada à ameaça de anexação da Groenlândia, expôs um novo estágio da relação entre Estados Unidos e Europa, no qual tarifas, coerção econômica e poder tecnológico substituem a antiga linguagem de parceria.
Com líderes europeus reunidos em Davos, a União Europeia passou a discutir retaliações a tarifas anunciadas por Washington, que podem chegar a 25% sobre produtos de países como Alemanha, França e Reino Unido caso não haja acordo envolvendo a Groenlândia. Entre as opções avaliadas está a aplicação do instrumento anticoerção, mecanismo que permitiria ao bloco atingir diretamente serviços, investimentos e operações de empresas norte-americanas em território europeu.
O impacto econômico potencial é significativo.
A União Europeia é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos e a principal fonte de investimento estrangeiro direto no país, com cerca de 3,6 trilhões de dólares aplicados até 2024. O caminho inverso também é relevante: empresas norte-americanas obtêm receitas expressivas na Europa com software, serviços financeiros, energia e computação em nuvem.
“Não existem relações comerciais mais profundas do que essas”, afirmou Philip A. Luck, do Center for Strategic and International Studies.
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Economistas avaliam que uma guerra tarifária não levaria os Estados Unidos à recessão, mas poderia desacelerar o crescimento, pressionar preços e atingir setores industriais já fragilizados. Um estudo do Instituto Kiel mostrou que empresas e consumidores norte-americanos arcaram com 96% dos custos das tarifas em 2024 e 2025, um dado que relativiza a ideia de que o peso recai sobre exportadores estrangeiros.
O cenário mais sensível, porém, seria o uso da chamada “bazuca” europia. Nesse caso, setores estratégicos como tecnologia, farmacêutico e serviços digitais seriam diretamente afetados.
“Os negócios das empresas mais lucrativas do mundo têm um braço europeu significativo”, alertou Brad W. Setser, do Council on Foreign Relations, destacando os riscos para lucros globais e investimentos em áreas como inteligência artificial.
Ainda assim, analistas observam que Trump aposta na assimetria do poder. A Europa depende da proteção militar norte-americana diante de uma Rússia hostil, enquanto Washington mantém vantagem decisiva em energia, tecnologia e finanças.
Para Rich Nuzum, da gestora de investimentos globais Franklin Templeton, o mercado, por ora, trata o conflito como ruído político.
“O mercado acredita que isso será resolvido.“
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