Análise histórica do conflito Israel-Palestina, das origens no mandato britânico às guerras, intifadas e ao impasse geopolítico atual.

A disputa entre israelenses e palestinos é um dos conflitos mais longos, complexos e simbólicos da política internacional contemporânea. Mais do que uma guerra territorial, trata-se de um embate profundamente enraizado em fatores históricos, religiosos, identitários, coloniais e geopolíticos.
Ao longo de mais de um século, o conflito moldou a política do Oriente Médio, influenciou a atuação das grandes potências e se tornou um dos principais símbolos da instabilidade internacional do pós-Segunda Guerra Mundial.
Compreender o conflito israelo-palestino exige ir além dos eventos mais recentes e retornar às suas origens, quando as bases da disputa foram lançadas ainda no contexto do declínio do Império Otomano e da expansão do colonialismo europeu no Oriente Médio.
As origens históricas da disputa
Até o início do século XX, a região da Palestina fazia parte do Império Otomano. A população era majoritariamente árabe palestina, composta por muçulmanos e cristãos, com uma presença judaica minoritária, concentrada sobretudo em cidades como Jerusalém, Safed e Tiberíades. A convivência entre comunidades existia, ainda que marcada por hierarquias típicas de impérios multiconfessionais.
O ponto de inflexão ocorre no final do século XIX, com o surgimento do sionismo, um movimento político e nacionalista que defendia a criação de um lar nacional judeu. O sionismo emerge em um contexto de perseguições antissemitas na Europa, especialmente no Leste Europeu, e ganha força com a ideia de que os judeus só estariam seguros se possuíssem um Estado próprio.
A Palestina passa a ser vista por setores do sionismo como o território ideal para esse projeto, tanto por razões históricas e religiosas quanto por sua localização estratégica. A partir do início do século XX, ondas de imigração judaica começam a se intensificar, alterando gradualmente o equilíbrio demográfico e social da região.
A Primeira Guerra Mundial acelera essas transformações. Com a derrota do Império Otomano, a Palestina passa ao controle britânico, formalizado pelo Mandato Britânico da Palestina, concedido pela Liga das Nações em 1922. Antes disso, em 1917, o governo britânico havia emitido a Declaração Balfour, na qual expressava apoio à criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina, sem consultar a população árabe local.
Essa ambiguidade britânica é central para o conflito. Ao mesmo tempo em que prometia aos árabes independência em troca do apoio contra os otomanos, Londres apoiava o projeto sionista. Durante o período do mandato, a imigração judaica aumentou de forma significativa, impulsionada pela perseguição nazista na Europa nas décadas de 1930 e 1940.
A população árabe palestina passou a ver o projeto sionista como uma ameaça existencial. Rebeliões e confrontos tornaram-se frequentes, especialmente entre 1936 e 1939, quando ocorreu a Grande Revolta Árabe. A repressão britânica enfraqueceu a liderança palestina, enquanto as organizações sionistas se fortaleceram militarmente e politicamente.
A criação de Israel e a Nakba palestina
Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, a pressão internacional pela criação de um Estado judeu aumentou de forma decisiva. Em 1947, a ONU aprovou um plano de partilha da Palestina, que previa a criação de dois Estados, um judeu e um árabe, com Jerusalém sob administração internacional.
Os líderes sionistas aceitaram o plano, apesar das reservas. A liderança árabe palestina e os países árabes rejeitaram a proposta, argumentando que ela era injusta, pois concedia a maior parte do território a uma população que ainda era minoritária.
Em 1948, com a retirada britânica, os líderes sionistas proclamaram a criação do Estado de Israel. No dia seguinte, exércitos de países árabes vizinhos entraram em guerra contra o novo Estado. O conflito terminou com vitória israelense e uma ampliação significativa do território originalmente previsto pela ONU.
Para os palestinos, esse momento é conhecido como Nakba, ou “catástrofe”. Cerca de 700 mil palestinos foram expulsos ou fugiram de suas casas, tornando-se refugiados em países vizinhos ou em outras partes da Palestina histórica. Suas propriedades foram confiscadas, e o direito de retorno nunca foi reconhecido por Israel.
A partir de então, o conflito deixa de ser apenas uma disputa colonial e passa a estruturar identidades nacionais opostas. Israel se consolida como Estado soberano, enquanto os palestinos permanecem sem um Estado próprio, fragmentados entre refugiados, populações sob controle árabe e aqueles que permaneceram dentro das fronteiras israelenses.
As guerras árabe-israelenses e a ocupação dos territórios palestinos
Nas décadas seguintes, o conflito se insere em um contexto mais amplo de rivalidade regional. Israel enfrenta seus vizinhos árabes em sucessivas guerras, sendo a mais decisiva a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Nesse conflito, Israel derrota Egito, Jordânia e Síria e ocupa a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, o Sinai e as Colinas de Golã.
A ocupação da Cisjordânia e de Gaza marca um novo capítulo da disputa. Pela primeira vez, Israel passa a controlar diretamente milhões de palestinos, sem conceder cidadania ou soberania. Jerusalém Oriental é anexada unilateralmente, movimento não reconhecido pela comunidade internacional.
A partir de 1967, o conflito deixa de ser apenas entre Estados e passa a ser, de forma central, entre Israel e o povo palestino. Surgem movimentos de resistência organizados, com destaque para a Organização para a Libertação da Palestina, liderada por Yasser Arafat. Inicialmente, a OLP defende a luta armada como principal estratégia.
Paralelamente, Israel inicia a construção de assentamentos judaicos nos territórios ocupados, uma política que se tornaria um dos principais obstáculos à solução do conflito. Esses assentamentos são considerados ilegais pelo direito internacional, mas se expandiram de forma contínua ao longo das décadas.
As intifadas e o reconhecimento mútuo
Em 1987, eclode a Primeira Intifada, um levante popular palestino contra a ocupação israelense. Diferentemente da luta armada tradicional, a Intifada se caracteriza por protestos, desobediência civil e confrontos de baixa intensidade. A repressão israelense gera imagens que impactam a opinião pública internacional.
Esse contexto abre espaço para negociações políticas. Em 1993, Israel e a OLP assinam os Acordos de Oslo, que estabelecem o reconhecimento mútuo e criam a Autoridade Nacional Palestina, responsável por administrar partes da Cisjordânia e Gaza de forma provisória.
Os Acordos de Oslo geraram grande expectativa, mas deixaram questões centrais sem solução definitiva: fronteiras, Jerusalém, refugiados, assentamentos e segurança. O processo avançou lentamente e foi corroído pela desconfiança, pela continuidade da ocupação e por atos de violência de ambos os lados.
Em 2000, o colapso das negociações e a visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas desencadeiam a Segunda Intifada, muito mais violenta que a primeira. Atentados suicidas palestinos e operações militares israelenses intensificam o ciclo de violência, enterrando o otimismo dos anos 1990.
A fragmentação palestina e o impasse político
Nos anos seguintes, o cenário palestino torna-se ainda mais fragmentado. Em 2006, o grupo Hamas vence eleições legislativas palestinas. O Hamas, considerado organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia, rejeita o reconhecimento de Israel e defende a resistência armada.
O resultado é uma divisão política profunda. O Hamas passa a controlar a Faixa de Gaza, enquanto a Autoridade Palestina, dominada pelo Fatah, mantém controle limitado sobre partes da Cisjordânia. Gaza é submetida a um bloqueio imposto por Israel e Egito, que restringe severamente a circulação de pessoas e bens.
Desde então, Israel e Hamas se envolveram em múltiplos confrontos armados, com grande impacto sobre a população civil de Gaza. Ao mesmo tempo, a expansão dos assentamentos na Cisjordânia continua, reduzindo ainda mais a viabilidade territorial de um Estado palestino.
O papel das grandes potências e da geopolítica regional
O conflito israelo-palestino nunca foi apenas local. Os Estados Unidos tornaram-se o principal aliado de Israel, fornecendo apoio militar, diplomático e financeiro. Ao mesmo tempo, Washington se posiciona oficialmente como mediador, uma postura frequentemente questionada por palestinos e países árabes.
A União Europeia desempenha um papel mais ambíguo, defendendo a solução de dois Estados, mas com limitada capacidade de pressão efetiva. Países árabes, por sua vez, passaram por mudanças significativas. A partir da década de 2010, alguns Estados normalizaram relações com Israel, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos, deslocando a questão palestina para segundo plano em suas prioridades estratégicas.
Esse reposicionamento regional contribuiu para o isolamento político dos palestinos. Ao mesmo tempo, o conflito passou a se inserir em disputas mais amplas, envolvendo Irã, grupos armados regionais e a rivalidade entre potências globais.
O conflito nos dias atuais
Atualmente, o conflito israelo-palestino vive um impasse estrutural. A solução de dois Estados, defendida oficialmente pela maior parte da comunidade internacional, tornou-se cada vez mais difícil de implementar devido à fragmentação territorial palestina e à expansão dos assentamentos.
Dentro de Israel, o debate político se deslocou para a direita, com governos que priorizam segurança, controle territorial e identidade nacional. Entre os palestinos, há descrença crescente na diplomacia e nas instituições existentes, especialmente entre as gerações mais jovens.
A violência persiste em ciclos recorrentes, com episódios de grande intensidade alternados com períodos de tensão latente. A população civil, especialmente em Gaza, continua pagando o preço mais alto, vivendo sob condições humanitárias precárias.
Mais de um século após o início da disputa, o conflito israel-palestino permanece sem solução clara. Ele reflete não apenas uma luta por território, mas um choque profundo entre narrativas históricas, identidades nacionais e interesses geopolíticos.
Entender esse conflito é essencial para compreender o Oriente Médio e a política internacional contemporânea. Enquanto não houver um arranjo político capaz de oferecer segurança, dignidade e autodeterminação para ambos os povos, o conflito continuará a ser uma ferida aberta no sistema internacional, com impactos que vão muito além das fronteiras da região.
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