Proposta de criar o “Five Eyes europeu”, sem os EUA, busca reforçar inteligência continental, reduzir dependências e acelerar respostas a ameaças geopolíticas.

Diante de ameaças crescentes e da perda de confiança em parceiros tradicionais, a Holanda decidiu mexer em um dos pilares mais sensíveis da soberania nacional: a inteligência de Estado.
O novo governo de coalizão neerlandês anunciou, na sexta-feira, planos para impulsionar uma cooperação mais estreita entre serviços de inteligência europeus, chegando a propor um “equivalente europeu” à aliança Five Eyes. A iniciativa integra uma reforma mais ampla da arquitetura de segurança do país, em um cenário de riscos geopolíticos elevados e disputas estratégicas cada vez mais abertas.
Segundo o plano de governo, as ameaças atuais exigem serviços de inteligência mais rápidos, proativos e tecnologicamente preparados, sem abandonar a tradição holandesa de atuação sob rígidos limites do Estado de Direito. A proposta prevê aumento de financiamento e modernização digital da agência civil de inteligência, a AIVD, e do serviço de inteligência militar, a MIVD, além do fortalecimento do coordenador nacional de contraterrorismo.
No plano europeu, Haia defende intensificar a cooperação com um núcleo de países considerados alinhados, incluindo Reino Unido, Polônia, França, Alemanha e nações nórdicas. A ideia é criar um clube restrito de compartilhamento de informações sensíveis, inspirado no modelo do Five Eyes, hoje formado por Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos.
O movimento ocorre após uma decisão relevante tomada em outubro, quando os chefes das duas agências holandesas anunciaram a suspensão do compartilhamento de certas informações com parceiros norte-americanos. A justificativa foi a interferência política e preocupações com direitos humanos, levando o país a buscar maior coordenação dentro da própria Europa.
Internamente, o governo pretende acelerar a aprovação de uma nova Lei de Serviços de Inteligência e Segurança. O texto reformulado deixaria de focar em ferramentas específicas e passaria a se concentrar nos tipos de ameaças, adotando um modelo “tecnologicamente neutro” para evitar que os serviços fiquem para trás diante da inovação. Órgãos de supervisão também seriam fundidos, prometendo fiscalização mais ágil, porém juridicamente robusta.
A agenda inclui ainda a ampliação da capacidade de pesquisa operacional das agências, o estreitamento de laços com empresas de tecnologia e a atração de talentos técnicos, com o objetivo declarado de reforçar a chamada autonomia estratégica europeia.
Leia mais:
Quer entender melhor o cenário atual? Leia também as últimas matérias que selecionamos para você.
Envie-nos o seu feedback em contato@wowgeopolitica.com.br.
Interessado em se conectar com leitores curiosos e informados? Anuncie conosco.