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Equipe World on the Wire

Hoje, o WoW vai ao Oriente Médio e examina como o Irã se encaixa no tabuleiro mundial. História, conflitos, religião e economia são algumas das peças de que dispõe a República Islâmica nesse jogo.

(Texto publicado originalmente em 25 de abril de 2025)

Imagem: Office of the Iranian Supreme Leader

O Irã é uma potência resiliente, estrategicamente sofisticada e perigosamente subestimada.

Por Radamés Perin.

O Irã não é apenas um ator geopolítico relevante — é um laboratório vivo de estratégias militares assimétricas, guerras indiretas e projeção de poder por meios não convencionais. Sua política externa, marcada por uma combinação de ideologia e pragmatismo, se apoia em um aparato militar que, embora limitado em termos convencionais, é sofisticado, resiliente e surpreendentemente eficaz diante das pressões ocidentais.

A arquitetura militar iraniana é composta por duas principais instituições: o Exército Regular (Artesh) e os Guardas Revolucionários Islâmicos (IRGC). Enquanto o Artesh cumpre funções convencionais de defesa do território, os IRGC operam como uma força paralela, profundamente ideológica, com forte lealdade ao regime e com presença dominante nas operações externas. A joia da coroa dos Guardas é a Força Quds, uma unidade de elite encarregada de conduzir operações extraterritoriais e coordenar milícias aliadas fora do país.

Essa estrutura dual permite ao Irã adotar uma doutrina de dissuasão assimétrica. Sabendo que não pode confrontar diretamente potências como os Estados Unidos ou Israel em um campo de batalha tradicional, o país investe em uma combinação de meios alternativos: apoio a milícias estrangeiras, desenvolvimento de mísseis balísticos de longo alcance, guerra naval de guerrilha e capacidades cibernéticas. É um modelo de resistência ativa, desenhado para multiplicar os custos de qualquer tentativa de agressão direta ao seu território.

O apoio a grupos armados na região é o núcleo dessa estratégia. O Irã construiu, ao longo de décadas, uma rede de aliados ideológicos e políticos que funcionam como extensões informais de seu poder. Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen, milícias xiitas no Iraque, combatentes aliados na Síria — todos fazem parte de um sistema que permite ao Irã projetar influência muito além de suas fronteiras. Essa rede, muitas vezes referida como “Eixo de Resistência”, cria um ambiente de retaliação difusa, onde qualquer agressão ao Irã pode provocar contra-ataques em diversas frentes.

Essas milícias não são apenas instrumentos militares, mas também vetores de influência política e cultural. Funcionam como braços armados e como canais de disseminação da visão iraniana de resistência ao Ocidente. Elas operam com relativa autonomia, mas em consonância com os interesses estratégicos de Teerã, recebendo apoio logístico, financeiro e treinamento especializado da Força Quds. Essa capacidade de agir por meio de terceiros confere ao Irã uma profundidade estratégica inigualável na região.

No campo tecnológico, o Irã compensou o embargo à compra de armamentos com uma impressionante capacidade de desenvolvimento interno. Os avanços no programa de mísseis são um exemplo disso. Teerã possui hoje um dos maiores arsenais de mísseis balísticos do mundo fora das grandes potências militares. Modelos como o Shahab-3, Sejjil e Khorramshahr têm alcance para atingir Israel, bases militares americanas no Golfo e, em alguns casos, partes da Europa Oriental. A precisão desses mísseis tem melhorado com o tempo, como demonstrado nos ataques de 2020 a bases americanas no Iraque e em 2024 contra bases israelenses.

Outro eixo de desenvolvimento é o programa de drones. Os veículos aéreos não tripulados iranianos, como os modelos Shahed, têm sido cada vez mais utilizados em conflitos e exportados para aliados, inclusive para a Rússia, que os empregou na guerra da Ucrânia. Esses drones são baratos, eficazes, e sua proliferação representa um desafio considerável às defesas tradicionais baseadas em interceptação aérea. O uso extensivo de drones e mísseis cria uma matriz de dissuasão que torna qualquer ataque ao Irã uma operação de alto risco.

O trunfo geográfico do Irã também desempenha papel crucial em sua estratégia de defesa. O controle sobre o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais sensíveis para o tráfego mundial de petróleo, é uma carta de barganha sempre presente. Embora não detenha o controle exclusivo da região, o país possui capacidade militar suficiente — com mísseis costeiros, minas navais e barcos rápidos — para interromper temporariamente o fluxo de navios petroleiros, o que teria efeitos econômicos globais imediatos. Esse potencial é explorado como forma de dissuadir ações militares contra o país.

Nos últimos anos, Teerã também passou a investir seriamente em guerra cibernética. Grupos de hackers ligados ao regime foram acusados de invadir bancos, infraestruturas energéticas e instituições governamentais de adversários. Essas operações não apenas demonstram a capacidade técnica do Irã, mas também seu entendimento moderno da guerra como fenômeno multifacetado, que inclui o domínio da informação e a manipulação de narrativas.

Porém, nenhum aspecto da política de defesa iraniana gera tanta controvérsia quanto seu programa nuclear. Desde que os EUA se retiraram do Acordo Nuclear em 2018, o Irã acelerou o enriquecimento de urânio, aproximando-se de níveis que permitem o desenvolvimento de armas nucleares. Apesar de Teerã insistir que não busca esse armamento, a falta de transparência e o avanço do programa alimentam temores reais em Israel e nos EUA. O governo israelense já deixou claro que não permitirá a aquisição de armas nucleares por parte do Irã — o que significa que um ataque preventivo permanece uma possibilidade constante.

Esse cenário levanta o espectro de uma guerra regional de grandes proporções. Um confronto direto entre Irã e Israel poderia se espalhar rapidamente para o Líbano, Síria, Iraque e até para a Península Arábica. O Hezbollah lançaria mísseis contra Israel; os Houthis poderiam bloquear o Mar Vermelho; milícias no Iraque atacariam posições americanas. As consequências seriam devastadoras — não apenas para o Oriente Médio, mas para a economia e a segurança globais.

Apesar do foco militarizado, o Irã também sabe utilizar a diplomacia como ferramenta estratégica. A recente reaproximação com a Arábia Saudita, mediada pela China, foi uma jogada inesperada que reduziu temporariamente as tensões sectárias no Golfo e demonstrou a flexibilidade tática de Teerã. Essa manobra indica que, embora mantenha uma postura agressiva, o Irã está atento às mudanças no equilíbrio de poder global e busca redefinir sua posição em um mundo multipolar.

Em um ambiente internacional onde o poder se redefine constantemente, o Irã se move com um misto de agressividade e cálculo. Isolado por sanções, mas fortalecido por sua rede de aliados, ameaçado por possíveis ataques, mas protegido por uma arquitetura de dissuasão complexa e eficaz. É uma potência resiliente, estrategicamente sofisticada e perigosamente subestimada. Com sua combinação de guerra assimétrica, avanços tecnológicos, posicionamento geográfico e diplomacia calculada, o Irã se consolida como um dos atores mais imprevisíveis e relevantes da geopolítica contemporânea.

Entender o Irã é fundamental para compreender o futuro do Oriente Médio. Cada movimento estratégico de Teerã reverbera não apenas em suas fronteiras, mas em Tel Aviv, Riad, Washington e além. Em um mundo onde as alianças se realinham e os paradigmas de poder são reescritos, o Irã não é apenas um problema a ser contido — é um protagonista decisivo na construção da nova ordem internacional.

“O desenvolvimento nuclear e seu uso estratégico são partes centrais das medidas de disuassão no Oriente Médio.”

Por Gabriel Sabino.

Em 460 a.C., o filósofo grego Demócrito teorizava que toda a matéria seria composta por pequenas partículas indivisíveis, às quais se daria o nome de átomos. Sua concepção, ainda que baseada em especulação filosófica, moldaria durante séculos a maneira como se compreendia a constituição do universo. No entanto, com o avanço da ciência moderna, especialmente entre os séculos XIX e XX, descobriu-se que o átomo não era, afinal, indivisível — seus constituintes internos, como elétrons, prótons e nêutrons, não apenas poderiam ser separados, mas manipulados a ponto de liberar uma quantidade de energia antes inimaginável.

Essa quebra de paradigma não se restringiu à ciência. De forma análoga, a política internacional também é marcada por verdades temporárias e estruturas que se revelam instáveis com o tempo. O que antes se apresentava como consenso ou equilíbrio pode, sob novas pressões, tornar-se fragmentado — como o próprio destino do Acordo Nuclear Iraniano demonstraria.

A descoberta da fissão nuclear por Otto Hahn e Fritz Strassmann em 1938, compreendida teoricamente por Lise Meitner e Otto Frisch, marcou o início de uma nova era: a era da energia atômica. Sob a liderança de J. Robert Oppenheimer no Projeto Manhattan, o conhecimento científico se transformou em força destrutiva com a explosão das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki. O lamento de Oppenheimer, citando o Bhagavad Gita — “Agora me tornei a Morte, o destruidor de mundos” — ecoa até hoje como alerta ético diante da potência dessa tecnologia.

Após o fim da guerra, duas respostas teóricas e estratégicas passaram a disputar o futuro da energia nuclear. A primeira, defendida por cientistas como Niels Bohr e Leo Szilard, propunha o compartilhamento internacional da informação atômica por meio de um organismo multilateral, visando impedir uma corrida armamentista (SEGUNDO ESTUDOS DE HOLLOWAY, 1994). A segunda resposta se consolidou como doutrina dominante durante a Guerra Fria: a Destruição Mútua Assegurada (MAD – Mutual Assured Destruction), que sustentava a paz por meio da ameaça de aniquilação recíproca entre as potências nucleares (SEGUNDO ESTUDOS DE WALTZ, 1981; FREEDMAN, 2003). Esse paradoxo, no qual a segurança se fundamenta no medo absoluto, moldaria as estratégias nucleares dos Estados Unidos, da União Soviética e, mais tarde, influenciaria o debate em torno de regimes de não proliferação como o Tratado de 1968 e o JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action).

A energia nuclear emerge como um símbolo de poder no século XX, mas suas raízes podem ser rastreadas até os séculos antigos, quando a relação entre os persas e os judeus começou a se desenvolver. A história dessa relação é marcada tanto por momentos de cooperação quanto por tensões políticas, que moldariam os confrontos contemporâneos no Oriente Médio, onde a questão das armas nucleares desempenha um papel central.
O Império Persa, sob Ciro, o Grande, foi um dos primeiros regimes a demonstrar tolerância religiosa, permitindo que os judeus retornassem do cativeiro babilônico e reconstruíssem o Templo em Jerusalém, um ato que muitos estudiosos consideram um marco de cooperação entre os persas e os judeus (KUHRT, 2007). Esse período foi visto como um exemplo de coesão entre culturas e governança inclusiva no Oriente Médio.

Entretanto, com o passar dos séculos, especialmente após a Revolução Islâmica no Irã (1979), as relações entre o Irã moderno e Israel se deterioraram drasticamente. O novo regime iraniano, sob a liderança do Aiatolá Khomeini, adotou uma postura anti-Israel que se consolidaria ao longo das décadas, refletindo tensões sobre identidade religiosa, poder político e a soberania no Oriente Médio. A rivalidade Irã-Israel não se limita apenas a diferenças religiosas e políticas, mas também envolve interesses de segurança e, mais recentemente, a questão nuclear.

A questão do armamento nuclear entrou em cena quando o Irã iniciou um programa nuclear nas décadas de 1980 e 1990, alimentando temores internacionais sobre suas intenções. Israel, por sua vez, já possuía um arsenal nuclear não declarado, e a possibilidade de o Irã desenvolver armas nucleares foi vista como uma ameaça existencial para a nação israelense. O desenvolvimento nuclear de Israel desempenhou um papel crucial nesse cenário. Os cientistas judeus tiveram um papel fundamental na criação do programa nuclear israelense, com destaque para Shimon Peres, Ben-Gurion e Ephraim Kishon, e, mais crucialmente, J. Robert Oppenheimer, considerado o “pai da bomba atômica”, teve influência em toda a era nuclear, com muitos estudiosos como Perkovich (2007) argumentando que Israel, com o apoio de cientistas e infraestrutura, adquiriu armas nucleares na década de 1960.

Neste cenário, a geopolítica nuclear no Oriente Médio é uma questão de segurança e poder, e os acordos sobre o programa nuclear iraniano — em especial o JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action) de 2015 — surgem como uma tentativa de mitigar o risco de proliferação nuclear na região. O acordo, elaborado pelas potências mundiais (China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) e pelo Irã, buscava limitar as capacidades nucleares do Irã em troca do alívio de sanções econômicas. No entanto, o acordo não conseguiu dissipar completamente as preocupações de segurança de Israel e de outros aliados ocidentais, que temem que o Irã, sob um governo com uma retórica anti-Israel, possa buscar armas nucleares no futuro. Como apontado por Trita Parsi (2017), embora o acordo tenha sido visto como um marco diplomático, ele não conseguiu resolver as profundas desconfianças geopolíticas entre o Irã e Israel.

Além disso, o desenvolvimento nuclear e o uso estratégico dessa tecnologia são partes centrais das estratégias de dissuasão e segurança no Oriente Médio. Israel manteve uma política de ambiguidade nuclear, nunca confirmando ou negando oficialmente seu arsenal nuclear, mas sua postura em relação ao programa iraniano reflete sua crença de que o controle sobre armas nucleares é fundamental para garantir sua sobrevivência. O Irã, por outro lado, vê o acesso a tecnologia nuclear como uma forma de afirmar a soberania do seu regime teocrático totalitário no cenário global, além de projetar uma imagem de potência regional, que atualmente é feita através de suas proxys e sua guarda revolucionária, como abordado acima pelo analista Radamés Perin.

Esse complexo equilíbrio de poder, onde a nuclearização de um estado ameaça a segurança de outro, é um reflexo das antigas disputas geopolíticas, que remontam à era persa, mas também à criação de um novo sistema de segurança nuclear no século XX. O JCPOA, portanto, não apenas lida com questões técnicas e de verificação, mas também com questões históricas profundamente enraizadas na rivalidade e temores existenciais entre Irã e Israel.

A história do átomo, de sua concepção filosófica à sua instrumentalização como arma, espelha o percurso de ideias que, quando submetidas à realidade geopolítica, revelam sua vulnerabilidade à mudança. Da mesma forma, as relações entre a antiga Pérsia e os judeus — que já foram marcadas pela convivência e respeito sob o domínio de Ciro, o Grande — transformaram-se, no século XXI, em uma das rivalidades mais sensíveis do sistema internacional.

O regime dos aiatolás, estabelecido após a Revolução Islâmica de 1979, consolidou uma postura ideológica anti-Israel que extrapola a crítica política e assume contornos existenciais. Declarações de líderes como Ali Khamenei, que descrevem Israel como um “tumor cancerígeno” a ser removido do mapa (KHALAJI, 2015; INSS, 2020), são evidências do uso do discurso do ódio como ferramenta de mobilização política interna e de projeção estratégica externa. Esse ódio institucionalizado agrava as preocupações israelenses com a possibilidade de o Irã alcançar um arsenal nuclear — não apenas pela ameaça material que representa, mas pelo componente ideológico que sustenta tal ameaça.

Neste contexto, o Acordo Nuclear Iraniano (JCPOA) surgiu como uma tentativa de impor limites verificáveis ao programa nuclear iraniano, oferecendo incentivos econômicos em troca de conformidade técnica. No entanto, como apontam estudos de Parsi (2017) e Waltz (2012), os acordos nucleares não operam no vácuo técnico, mas dentro de estruturas políticas e ideológicas voláteis. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA em 2018, sob o governo Trump, e as dificuldades de sua reativação sob o governo Biden, evidenciam a fragilidade diplomática desses mecanismos frente a agendas nacionais e mudanças de governo.

Por isso, a segurança no Oriente Médio, e em especial a estabilidade na relação Irã-Israel, não pode depender unicamente de acordos técnico-nucleares. É necessário reconhecer que, enquanto o ódio ideológico dos aiatolás for parte estrutural da política externa iraniana, qualquer tentativa de resolução do impasse será temporária, parcial e potencialmente reversível. O paradoxo nuclear persiste: é justamente a busca por segurança que alimenta a insegurança regional.

Assim como a indivisibilidade do átomo foi desmentida pela ciência, a suposta imutabilidade dos equilíbrios estratégicos também é frágil diante das transformações políticas. A não proliferação nuclear, no caso iraniano, não é apenas uma questão de tecnologia, mas de ideologia, história e identidade nacional. E nesse jogo de forças, a memória do passado — seja a de Ciro e Jerusalém, ou a de Oppenheimer e Hiroshima — continua assombrando o presente.

“Mesmo diante da bateria de sanções, o Irã segue como peça-chave no tabuleiro da região.”

Por Vítor Ribeiro.

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, se orgulha de ostentar o prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros de altura. O Qatar, por sua vez, sediou a Copa do Mundo da FIFA de 2022, ao custo aproximado de US$220 bilhões, valor 15x superior ao investido pela Rússia em 2018. Omã planeja elevar em 90% seu PIB per capita até 2040. E, last but not least, a Arábia Saudita trabalha em sua Visão 2030, estratégia de desenvolvimento com a qual quer se desvencilhar das amarras do petróleo. No pipeline de projetos, iniciativas como a cidade futurista NEOM e a “futura capital do entretenimento, Qiddiya”. Isso tudo, claro, ao nada desprezível price tag de US$1,3 trilhão.

Mera designação ocidental, o MENA (Oriente Médio e Norte da África, na sigla em inglês) é um território de contrastes, com fronteiras – oficiais, oficiosas, internas e externas – eternamente contestadas. Da costa atlântica do Marrocos ao Passo Khyber, nos limites entre Afeganistão e Paquistão, a região fervilha de história, conflitos e riqueza. Palpitando simultaneamente com desastres humanitários e projetos faraônicos, a Península Arábica, berço do Islã, pode ser considerada seu coração econômico. Compreender toda a dinâmica, porém, demanda uma curta travessia pelo Estreito de Ormuz.

De “integrante do eixo do mal” à “nação terrorista número um”, a República Islâmica do Irã já recebeu diversas alcunhas. Da revolução islâmica de 1979 para cá, as qualificações tornaram-se cada vez mais gentis e as relações com o ocidente azedaram, fruto de distinções sociais, culturais, algum rancor e uma dose de ingerência de ambas as partes. O quanto de mentira há nas verdades, e se há alguma verdade nas mentiras, é difícil definir. O fato é que, mesmo diante da bateria de sanções aplicadas por seus adversários, o Irã segue como peça-chave no tabuleiro do Oriente Médio.

Com 92 milhões de habitantes, o Irã possui a segunda maior população da região, atrás apenas do Egito. Sua taxa de alfabetização é alta, superando 94%, e a participação nos níveis superiores de educação é elevada, especialmente no comparativo regional. A amplitude de seu mercado interno é, por si só, um trunfo do país. Considerando a demografia relativamente positiva, com boa proporção de jovens, o país tem, em uma conjuntura ideal, capacidade de inovar, produzir, consumir e manter boas trocas comerciais com o cenário externo.

No campo econômico, porém, a grande vantagem do Irã está em uma combinação tríplice de fatores: recursos energéticos, posição estratégica e influência religiosa. As duas primeiras são claramente motores que se retroalimentam. Esta última, porém, pode parecer, à primeira vista, descorrelacionada das demais, mas tem peso relevante na interação iraniana com outras nações e atores, da qual tenta de forma recorrente extrair benefícios.

O Irã possui a quarta maior reserva comprovada de petróleo e gás do mundo, em torno de 10% do total mundial. O país produz aproximadamente 2 milhões de barris por dia, com um market share próximo a 2%. A China é o principal consumidor de óleo iraniano. Essa relação comercial, apesar de mutuamente relevante, é de evidente desequilíbrio. Os US$2 bilhões mensais representam 16% das importações de petróleo de Pequim, mas respondem por mais de 90% das exportações iranianas. Se, de um lado, a China poderia buscar alternativas no mercado, Teerã, sufocada por sanções internacionais que atingem suas exportações e seu acesso a linhas de financiamento, teria sérias dificuldades em obter novos clientes e repor suas reservas internacionais.

Ainda que a contribuição do óleo iraniano possa ser substituída – a OPEP+ afirma reiteradamente possuir tal capacidade -, o segundo trunfo de Teerã não é de revide simples. Ponto nevrálgico do comércio global, o estreito de Ormuz responde por quase 21% de todo o fluxo de petróleo consumido no mundo. O controle – de fato, se não de direito – exercido proporciona ao Irã influência considerável sobre a passagem de embarcações nas águas locais, o que lhe permitiria, em um cenário de conflito, estrangular a oferta internacional e consequentemente fazer disparar a cotação do petróleo nos mercados mundiais.

Em termos religiosos, 89% dos habitantes do Irã são muçulmanos xiitas, enquanto 10% praticam a corrente sunita do Islã, e os demais dividem-se entre outras fés e denominações, como católicos e zoroastras. A preponderância iraniana entre os xiitas é outra arma do país, que se consubstancia – majoritariamente, mas não unicamente – em seu apoio político, econômico e militar a grupos armados em outros países, como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza e os Houthis no Iêmen. Além de instrumentalizar tais grupos para atuarem diretamente em conflitos internos, a liderança iraniana pode ainda mobilizar minorias xiitas em outros locais para desestabilizar regimes e promover seus próprios interesses.

As cartas, individualmente, têm seu peso, mas poderiam ser contornadas pelos adversários. No entanto, quando empilhadas, permitem que o Irã dite de forma desproporcional a dinâmica econômica local. Isso, aliado à proximidade crescente com Rússia e China, ajuda a aliviar relativamente o peso das sanções e manter um mínimo de dinamismo econômico. Não fosse tal combinação, muito provavelmente as pressões sociais internas seriam muito mais acentuadas, e o regime dos Aiatolás, não obstante o fervor religioso de seus líderes, já teria cedido.

Nem toda importância é barulhenta, e não é a falta de opulência que torna um personagem irrelevante. Em uma região que ergue recordes, o Irã, quando comparado à pompa e à fanfarra do entorno, pode parecer mero coadjuvante. Milênios de história, todavia, têm seu peso. Muitos veem picos momentâneos de performance, para então desaber num vale quase sem volta. O Irã persiste. O Irã segue. É questão de carrego, não de oportunidade.


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