Fundos de pensão do Norte da Europa reduzem exposição aos Estados Unidos, citando risco geopolítico, dívida elevada e incertezas sobre dólar e títulos do Tesouro.

O capital europeu começa a questionar um dogma histórico: a segurança automática dos ativos financeiros dos Estados Unidos.
Grandes fundos de pensão do Norte da Europa estão reavaliando sua exposição ao mercado norte-americano diante do aumento do risco geopolítico, fiscal e cambial associado às decisões de Washington.
O movimento ganhou visibilidade nesta semana após fundos da Suécia, Dinamarca e Finlândia admitirem publicamente desconforto com ativos dos Estados Unidos, citando incertezas na política externa e o nível da dívida pública. Gestores afirmam que o prêmio de risco associado a títulos do Tesouro, ações e ao próprio dólar aumentou de forma relevante.
Dois grandes fundos nórdicos já agiram.
A sueca Alecta vendeu a maior parte de seus títulos do Tesouro dos Estados Unidos, enquanto a dinamarquesa AkademikerPension confirmou que concluirá sua saída desses papéis até o fim do mês. Ambos alegam que a decisão está ligada a fundamentos econômicos, e não a disputas políticas recentes, como a tensão entre Washington e Copenhague em torno da Groenlândia.
Ainda assim, o pano de fundo é claramente geoeconômico. A política externa imprevisível do presidente Donald Trump, combinada com o aumento acelerado da dívida federal, passou a ser vista como ameaça direta à estabilidade do dólar. Em 2024, a moeda norte-americana caiu cerca de 10% frente a outras grandes divisas, enquanto os juros dos títulos de 30 anos se aproximaram de 4,9%, patamar comparável ao da crise financeira global.
A mudança de postura não se limita à Escandinávia. Segundo Van Luu, estrategista-chefe da Russell Investments, cerca de metade dos clientes europeus da consultoria discute ativamente se é hora de reduzir a exposição a ativos dos Estados Unidos. A Russell assessora fundos que somam US$ 1,6 trilhão em ativos.
Apesar do desconforto, os fundos evitam caracterizar o movimento como politização do capital. “Não há qualquer instrumentalização financeira”, afirmou Tom Vile Jensen, da associação Insurance and Pensions Denmark. Ainda assim, o debate público sobre o risco norte-americano é raro e simbólico.
Para Annika Ekman, da finlandesa Ilmarinen, os Estados Unidos seguem investíveis, mas com um alerta claro: “O prêmio de risco continuou a subir”.
Em um cenário de imprevisibilidade crescente, até o ativo mais tradicional do sistema financeiro global começa a ser tratado com cautela.
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