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Equipe World on the Wire

O World on the Wire traz uma análise detalhada sobre a relação Mercosul x União Europeia, que pode dar origem à maior zona de livre comércio do mundo.

(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 06 DE JUNHO DE 2025)

Imagem: Ricardo Stuckert / PR

“Onde há grandes fluxos de capital e recursos, cresce a propensão ao uso de força.”

Por Radamés Perin.

A guerra comercial iniciada pelo governo dos Estados Unidos em abril de 2025 não poupou ninguém. O aumento abrupto das tarifas de importação, impulsionado por uma lógica de protecionismo agressivo e reposicionamento estratégico, afetou tanto aliados históricos quanto rivais tradicionais de Washington. Nesse novo cenário, o comércio internacional passou a ser mais do que uma ferramenta econômica: tornou-se uma extensão direta da disputa pelo poder global. E quando o comércio é transformado em arma, os conflitos militares — diretos ou por procuração — não tardam a surgir como seus reflexos.

É nesse contexto volátil que se insere a recente aproximação entre Mercosul e União Europeia. Em 2024, após décadas de negociações estagnadas, os dois blocos celebraram um acordo comercial histórico, encarado por muitos como uma resposta pragmática à crescente fragmentação da ordem global. No entanto, enquanto os olhos da opinião pública se voltam para as tarifas, os investimentos e as promessas de crescimento, há um subtexto mais denso e potencialmente explosivo: os riscos de conflito associados a essa nova arquitetura de alianças.

A Europa, pressionada pela guerra na Ucrânia, por tensões energéticas no Oriente Médio e por crescentes vulnerabilidades logísticas, começa a reposicionar sua política externa com traços mais estratégicos e securitários. O discurso de que a União Europeia é um ator essencialmente civil vem sendo gradualmente substituído por uma retórica que incorpora defesa, autonomia militar e segurança de cadeias de suprimentos como pilares da integração. O fundo europeu de defesa, as operações conjuntas no Sahel e o reforço das capacidades da OTAN são exemplos claros desse novo vetor.

Ao buscar parcerias com o Mercosul, a UE também projeta sua influência para além de seus arredores tradicionais. A América do Sul, durante muito tempo fora do radar das grandes disputas militares, volta a atrair atenção geopolítica por motivos que vão além do comércio: abundância de recursos naturais estratégicos, posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul e instabilidade latente em algumas de suas fronteiras. Se o comércio entre os blocos se intensificar, não será surpresa ver surgir a demanda por mecanismos de proteção aos ativos europeus em solo sul-americano — e com ela, a tentação da militarização.

A França, que mantém presença oficial na Guiana Francesa e já atua com capacidade expedicionária em diversos teatros, possui ativos logísticos que poderiam ser mobilizados para responder a crises localizadas na região amazônica. Esse movimento, ainda que amparado por pretextos humanitários ou ambientais, tocaria diretamente em um nervo sensível do Brasil: sua soberania sobre a Amazônia e o temor histórico de intervenção externa. Qualquer tentativa europeia de condicionar o avanço do acordo comercial ao cumprimento de metas ambientais mais rígidas — como já ocorreu no passado — pode, em tempos de governos mais assertivos em Brasília ou Buenos Aires, ser interpretada como ingerência externa e desencadear tensões diplomáticas e até medidas de retaliação indireta.

O risco não está apenas na projeção militar tradicional, mas também nas formas híbridas de segurança. A crescente atuação de empresas militares privadas na proteção de infraestrutura crítica, como oleodutos, ferrovias ou áreas de mineração, representa uma nova fronteira de conflito. A experiência recente da Europa com esse tipo de instrumento, especialmente em zonas instáveis da África, poderia ser replicada na América do Sul caso os interesses comerciais se tornem vulneráveis a protestos, crimes ambientais ou conflitos fundiários. O uso de empresas de segurança vinculadas a capitais europeus para proteger ativos estratégicos em solo sul-americano levantaria sérias questões sobre soberania e responsabilidade jurídica em caso de abusos ou confrontos com populações locais.

Não se trata de exagero. O histórico global mostra que onde há grandes fluxos de capital internacional e recursos naturais, cresce também a propensão ao uso de força para proteção de investimentos. E a América do Sul, apesar de sua relativa paz nos últimos anos, convive com focos potenciais de conflito: disputas fronteiriças mal resolvidas, áreas de presença estatal frágil, tráficos armados e pressões ambientais crescentes. Se o acordo com a União Europeia efetivamente prosperar, trará consigo uma rede de responsabilidades, expectativas e pressões que podem alterar esse equilíbrio precário.

A guerra na Ucrânia, por sua vez, serve de pano de fundo para outro desdobramento geoestratégico importante: o esforço europeu de reindustrializar seus complexos de defesa. A busca por novos fornecedores e centros de produção desloca o olhar para países com capacidade industrial robusta e política externa relativamente neutra — como o Brasil. A indústria bélica brasileira já exporta para dezenas de países e pode se tornar um parceiro crucial da Europa na fabricação de equipamentos militares de médio porte. No entanto, essa aproximação poderia provocar tensões com atores geopolíticos rivais da OTAN, como a Rússia, a China ou mesmo o Irã, que enxergariam o estreitamento dessa relação como um realinhamento estratégico do Mercosul em direção ao bloco ocidental. A América do Sul pode acabar envolvida, ainda que indiretamente, em rivalidades entre grandes potências.

O mesmo vale para os reflexos das guerras no Oriente Médio. As interrupções no fluxo de petróleo e fertilizantes já afetam profundamente a economia europeia, que busca fontes alternativas em países sul-americanos. Essa dependência pode ampliar o interesse europeu sobre determinadas cadeias produtivas críticas, como a de potássio no Brasil e Bolívia, o lítio no triângulo Argentina-Chile-Bolívia, e os minérios raros espalhados pela floresta amazônica. O risco, nesse caso, é que a pressão por estabilidade e produtividade nesses setores leve à adoção de medidas de “segurança integrada” que envolvam vigilância, policiamento especializado e, em casos extremos, até a presença de consultores militares ou forças de proteção multinacionais, algo que inevitavelmente despertaria resistências internas.

Um aspecto ainda pouco debatido é o papel do Atlântico Sul como corredor logístico vital. As principais rotas de exportação entre os dois blocos passam por essa região, hoje relativamente livre de conflitos. Mas com a intensificação da competição naval entre China, Estados Unidos e Europa, esse oceano pode deixar de ser um espaço neutro. A crescente presença chinesa em portos africanos como Luanda e Walvis Bay, combinada com o interesse russo em cooperação naval com países como Venezuela e Cuba, pode tornar o Atlântico Sul mais congestionado e geopoliticamente sensível. Em um cenário de crise, a simples movimentação de frotas europeias próximas à costa brasileira — sob a justificativa de proteger rotas comerciais — poderia ser interpretada como provocação.

Assim, o projeto de integração entre Mercosul e União Europeia, embora economicamente promissor, não está imune aos riscos do tempo em que vivemos. O comércio, outrora motor da paz, se vê cada vez mais cercado por preocupações com segurança, estabilidade e dissuasão. Ignorar esse pano de fundo seria uma ingenuidade perigosa. Se os dois blocos desejam de fato construir uma aliança estratégica duradoura, precisarão ir além das planilhas de tarifas e incluir, desde já, mecanismos robustos de prevenção de conflitos, gestão de crises e garantia de soberania mútua. Caso contrário, a maior zona de livre comércio do mundo poderá nascer sob o signo da desconfiança e da instabilidade.

A diplomacia, mais do que nunca, precisa caminhar alguns passos à frente dos fuzis. Mas para isso, é preciso entender onde estão os gatilhos.

“O pacto entre os blocos é um retrato de duas estruturas tentando evitar a irrelevância.”

Por Gabriel Sabino.

A tentativa de aproximação entre o Mercosul e a União Europeia não é nova, nem espontânea. É como uma ponte construída lentamente sobre um terreno que muda o tempo todo. Foram mais de vinte anos de escavações diplomáticas, negociações que avançam de um lado e afundam do outro, com governos que mudam, prioridades que se invertem e conjunturas que envelhecem antes mesmo do texto do acordo ser finalizado.

Esse esforço por convergência não se resume a tarifas e cotas: trata-se de uma disputa geopolítica pela sobrevivência em um mundo que já não é o mesmo. De um lado, a Europa enfrenta o dilema de manter sua influência sem o respaldo de uma economia em expansão. Do outro, o Mercosul tenta reafirmar sua existência como bloco em um continente marcado por oscilações políticas e assimetrias internas (quem diria). O acordo aparece, então, como uma tentativa de ambos os lados de reescrever sua posição no tabuleiro internacional. Não por força, mas por necessidade.

Foi depois de ler O novo acordo Mercosul-União Europeia em perspectiva, publicado pela Konrad-Adenauer-Stiftung, que percebi como esse processo poderia ser interpretado com mais profundidade. O artigo, ao reunir análises sobre as limitações institucionais, as tensões políticas, o peso da pandemia e as expectativas empresariais, me levou a ver o acordo não como um marco resolvido, mas como um sintoma de algo maior: um realinhamento imperfeito entre dois blocos que se movem por razões diferentes (um por fome, outro por falta de comida).

Para dar conta dessa complexidade, usarei a estrutura teórica de O Homem, o Estado e a Guerra, de Kenneth Waltz. Suas três imagens — o indivíduo, o Estado e o sistema — funcionam aqui como uma espécie de bússola analítica. Porque esse acordo, como qualquer movimento geopolítico duradouro, não nasce de uma causa única, mas do atrito constante entre as vontades pessoais, os limites institucionais e os ruídos do mundo (que o WoW está aqui para reduzir).

Blocos não se aproximam como imãs. Eles se testam, se empurram, se retraem. E às vezes, por cálculo ou por cansaço, decidem andar juntos.

Nenhuma negociação internacional acontece no vazio. Por trás dos comunicados oficiais e dos rascunhos jurídicos, há rostos (não tão bonitos), egos, cálculos eleitorais e afetos midiáticos. No caso do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, os indivíduos importam — e muito. A primeira imagem de Waltz aponta justamente para isso: os líderes políticos, seus discursos e suas decisões pessoais moldam as rotas da história.

O presidente Lula, por exemplo, representa um tipo de diplomacia personalista e simbólica. Sua proximidade com Emmanuel Macron é frequentemente performada em fotos cuidadosamente calculadas, como a imagem que publicou com o francês e sua esposa, Janja Lula da Silva, num gesto ambíguo entre afeto diplomático e espetáculo político. Mas por trás desse “trisal geopolítico”, como muitos ironizaram nas redes sociais, há também hipocrisia. Macron posa ao lado de líderes latino-americanos em nome da integração, ao mesmo tempo em que seu país, a França, é um dos maiores obstáculos à ratificação do acordo, pressionado por agricultores protecionistas e nacionalismo verde.

Do outro lado do Atlântico, a própria retórica europeia sobre sustentabilidade carrega contradições profundas. A imposição de cláusulas ambientais rígidas ao Mercosul vem acompanhada de uma memória seletiva: a Europa já desmatou praticamente todas as suas florestas nativas durante sua industrialização. O que restou foi replantado sob critérios paisagísticos e turísticos — uma “natureza curada” que agora serve de argumento moral contra países que ainda vivem o dilema entre preservação e desenvolvimento. Há, portanto, um colonialismo ambiental disfarçado de civilidade climática.

No sul, figuras como Jair Bolsonaro e Alberto Fernández encarnaram visões quase opostas de integração. Bolsonaro representou o negacionismo ambiental (hoje representado na Argentina por Milei) em estado bruto, rejeitando qualquer compromisso multilateral que exigisse restrições. Fernández, por sua vez, aderiu à retórica da integração, mas pouco avançou na prática. Seu populismo discursivo e sua dependência do coronelismo kirchnerista o tornaram refém de agendas internas, fragmentando qualquer esforço coordenado. Ambos revelam o quanto o acordo é, também, uma guerra de narrativas — onde o que se diz pesa tanto quanto o que se evita fazer.

Mesmo quando há vontade política individual, os Estados nem sempre conseguem se mover com agilidade. No caso do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, as engrenagens institucionais de ambos os lados operam como freios naturais a qualquer entusiasmo momentâneo. Aqui, o que Waltz chama de “Segunda Imagem” revela toda sua força: a estrutura interna dos Estados, com suas regras, vetos, ciclos eleitorais e prioridades domésticas, delimita o campo do possível na política internacional.

A União Europeia, por exemplo, é uma entidade marcada pela lentidão estrutural. O consenso entre mais de vinte países membros é sempre precário, os parlamentos nacionais têm poder de veto, e a Comissão Europeia, embora tecnicamente poderosa, precisa calibrar cada passo com a opinião pública, especialmente quando o tema envolve setores sensíveis como agricultura, meio ambiente ou compras governamentais. O acordo com o Mercosul, que envolve concessões tarifárias e cláusulas ambientais, se vê refém dessas travas institucionais. É uma Europa que, mesmo quando deseja, muitas vezes não pode.

Do lado do Mercosul, a rigidez é de outra natureza. O bloco carece de mecanismos de coordenação efetiva. Suas instituições têm baixo grau de autonomia e pouca capacidade de enforcement. O parlamento do Mercosul é mais simbólico que funcional, e o bloco opera sob a lógica do consenso intergovernamental, o que significa que um único país pode paralisar decisões coletivas. Além disso, as economias do bloco são marcadas por desigualdades estruturais, o que faz com que o mesmo acordo seja visto como oportunidade para uns e ameaça para outros.

Essa assimetria se projeta sobre a negociação: enquanto o Brasil, com maior escala econômica, tende a buscar acordos que ampliem sua inserção global, países como Argentina ou Paraguai os encaram com mais receio, temendo impactos negativos sobre suas indústrias locais. O resultado é um Mercosul fragmentado internamente, com diplomacias que se sabotam silenciosamente — cada Estado agindo mais em nome de sua estabilidade política doméstica do que em nome de uma integração regional coerente (teoria do interesse).

Mesmo quando há declarações entusiasmadas ou fotografias diplomáticas calculadamente distribuídas à imprensa, o que vigora nos bastidores é uma profunda resistência institucional ao risco. O acordo, nesse cenário, se transforma numa espécie de ficção administrativa: tecnicamente vivo, politicamente congelado.

No plano internacional, a aproximação entre o Mercosul e a União Europeia ganha outra dimensão. Não é mais uma questão de afinidade ideológica ou de burocracia institucional: é um gesto de sobrevivência estratégica. A Terceira Imagem de Waltz — o sistema internacional, mostra um mundo sem árbitro, onde cada ator se move não por idealismo, mas pela necessidade de garantir relevância, acesso e resiliência diante de um cenário em mutação constante.

Ambos os blocos se encontram numa encruzilhada. A União Europeia enfrenta o esgotamento de seu soft power: já não seduz como antes, nem dita normas como outrora. Enfrenta uma guerra em seu continente (Ucrânia), crises migratórias persistentes, instabilidade energética e um enfraquecimento progressivo do eixo atlântico. Sua ampliação estagnou, sua coesão política foi abalada pelo Brexit, e seu futuro geoeconômico está preso entre a ascensão da China e a imprevisibilidade dos Estados Unidos. Diante disso, o acordo com o Mercosul aparece menos como projeto de expansão e mais como gesto de contenção, uma forma de manter influência em um hemisfério ainda aberto a interlocuções plurais.

Já o Mercosul se vê à margem das grandes cadeias globais de valor. A região perdeu fôlego industrial, acumula déficits (de novo: quem diria) em inovação e padece de uma crônica dependência de commodities. Em termos geopolíticos, o bloco oscila entre o desejo de autonomia e a necessidade de inserção. Não tem poder de barganha suficiente para negociar de igual para igual com potências isoladas, e justamente por isso aposta, de tempos em tempos, em acordos de bloco a bloco, como se a força coletiva pudesse compensar a fraqueza individual.

Mas o mundo de hoje não oferece espaço para acordos lentos. A ascensão de uma ordem multipolar acelerada por interesses chineses, o avanço de tratados comerciais alternativos (como o RCEP e o CPTPP) e o uso cada vez mais estratégico do comércio como ferramenta de pressão política impõem uma nova régua: quem demora, desaparece.

Nesse tabuleiro, o acordo Mercosul-União Europeia parece fora de época, ao mesmo tempo tardio e tímido. Tardio porque chega num momento em que o comércio global está sendo reconfigurado por zonas de influência regionais e cadeias produtivas mais curtas. Tímido porque, mesmo que assinado, seu impacto seria limitado frente aos acordos de nova geração, que já incorporam tecnologias, dados, padrões ambientais e fluxos digitais com muito mais intensidade.

O pacto entre os blocos, então, é menos um avanço geopolítico robusto do que um sintoma melancólico: o retrato de duas estruturas tentando evitar a irrelevância num sistema que não as espera. Como escreveu Waltz, “os Estados não fazem o sistema; é o sistema que faz os Estados agirem como agem.” E, nesse sistema, Mercosul e União Europeia se aproximam não por afinidade profunda, mas por exaustão, pela urgência de manter alguma margem de manobra num mundo que já começou a se mover sem eles.

A aproximação entre Mercosul e União Europeia é uma ponte que resiste ao tempo, mas não à pressa do mundo. Ela foi construída lentamente, entre tentativas diplomáticas, discursos ambientalistas e crises de identidade. Como vimos pelas três imagens de Waltz, esse não é um processo linear: é feito de vontades contraditórias, de Estados emperrados e de um sistema internacional que não oferece garantias, apenas exigências.

E enquanto essa ponte hesita, há quem a observe de longe com outra lógica, como Donald Trump, que assiste ao impasse como quem revê, com satisfação ou ironia, os efeitos colaterais do próprio tarifaço. Suas barreiras comerciais, erguidas sob o pretexto de proteger a indústria americana, fragmentaram ainda mais o comércio internacional e alimentaram uma onda de desconfiança mútua entre países. O mundo que Trump ajudou a esculpir não é um mundo de blocos cooperando, mas de nações blindadas, desconfiadas e reativas. A histeria tarifária de ontem se tornou o ruído de fundo das negociações de hoje.

Nesse contexto, o acordo Mercosul-União Europeia soa quase anacrônico, como se dois blocos tentassem escrever um tratado de paz num campo de batalha que já mudou de endereço. Mas talvez aí resida sua importância: não como resposta perfeita ao mundo, mas como um esforço imperfeito de civilidade geopolítica. Um gesto, ainda que tímido, arrastado, contraditório, de quem prefere pontes a muros, mesmo sabendo que o terreno continua a afundar sob os próprios pés.

Porque no fundo, blocos não se aproximam como imãs. Eles se testam, se empurram, se retraem. E às vezes, por cálculo ou por cansaço, decidem andar juntos, ainda que o mundo ao redor já tenha escolhido seguir separado.

“O impasse para o acordo é menos sobre tarifas e mais sobre visões de mundo.”

Por Fernando Gonçalves.

Desde que foi anunciado em 2019, após duas décadas de negociações, o Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia tem oscilado entre o simbolismo de uma integração histórica e o ceticismo prático de sua implementação. À primeira vista, trata-se de um pacto ambicioso: ao abranger dezenas de países e mais de 700 milhões de pessoas, configura-se como o maior acordo comercial negociado por ambas as regiões. Em 2023, o comércio bilateral entre os blocos atingiu aproximadamente €111 bilhões, evidenciando a relevância econômica da parceria.

No entanto, o potencial econômico contrasta com a lentidão política. Em 2025, em um mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas e retrocessos na globalização, a pergunta que se impõe é: o acordo sairá do papel?

Historicamente, os grandes ciclos de integração econômica global coincidiram com períodos de estabilidade relativa, hegemonia clara e confiança mútua entre blocos. A liberalização comercial do pós-guerra foi impulsionada pela liderança dos EUA e consolidada em marcos como o GATT e, mais tarde, a OMC. Já os anos mais recentes do nosso século XXI parecem marcar o movimento inverso. A ascensão de políticas protecionistas, evidenciada pela guerra comercial entre Estados Unidos e China e, mais recentemente, pela reconfiguração estratégica promovida por Donald Trump e retomada com força em seu segundo mandato, representa uma inflexão. A lógica do “America First” ecoa em diferentes latitudes, ainda que com outros nomes.

Neste contexto, o acordo Mercosul–UE parece anacrônico — um produto de uma era que já não existe. Talvez, pode-se pensar, que seja justamente por isso que ele importe. Em um mundo que assiste ao mesmo tempo à fragmentação de cadeias globais e a entraves nos fluxos comerciais, a aposta em acordos inter-regionais ganha nova roupagem: de não apenas instrumento econômico, mas símbolo político. Uma resposta possível para preencher os vácuos deixados por grandes potências em retração em seus processos de integração à economia global.

Do ponto de vista econômico, as estimativas do governo brasileiro indicam que, até 2044, o acordo poderá gerar um incremento de R$ 37 bilhões no PIB do país, representando um aumento de 0,34%. Além disso, projeta-se um crescimento de 0,76% nos investimentos (R$ 13,6 bilhões) e uma redução de 0,56% no nível de preços ao consumidor. As exportações brasileiras para a UE poderiam aumentar em R$ 52,1 bilhões (2,65%), enquanto as importações cresceriam R$ 42,1 bilhões (2,46%).

Adicionalmente, faz-se importante destacar os possíveis ganhos indiretos. Para o Mercosul, em tese, a integração com a União Europeia poderia estimular o investimento estrangeiro direto, ao reduzir incertezas regulatórias e aumentar o acesso ao mercado europeu. Empresas locais podem ser incorporadas a cadeias globais de valor, absorvendo conhecimento técnico, práticas de sustentabilidade e padrões de governança. Além disso, o acordo poderia funcionar como sinal geopolítico, ampliando o peso do Mercosul nas negociações internacionais e abrindo portas para novos acordos com outros blocos.

No entanto, o caminho para a ratificação do acordo está longe de ser técnico. Ele é, essencialmente, político. E está atravessado por tensões profundas, especialmente no lado europeu. Os lobbies agrícolas, como na França, veem na entrada de produtos sul-americanos uma ameaça direta a seus interesses, ainda que, do ponto de vista do consumidor europeu, o ganho em variedade e preço seja inegável. As resistências se ancoram, muitas vezes, no argumento ambiental: acusa-se o Brasil, especialmente, de não garantir mecanismos robustos de proteção ambiental e demais práticas regulatórias no setor, o que colide com as exigências cada vez mais verdes das políticas comerciais da UE.

A visita recente do presidente Lula a Emmanuel Macron teve como pano de fundo justamente esse impasse. O presidente francês, país símbolo da resistência dentro do bloco europeu, reafirmou a necessidade de cláusulas ambientais vinculantes, enquanto o Brasil propõe uma abordagem mais flexível. Por trás dessa divergência está também uma disputa narrativa: quem define o que é sustentabilidade? E quem deve pagar o custo da transição ecológica?

Ainda que as projeções do acordo apontem para ganhos líquidos em termos de PIB, comércio e investimento, a análise econômica não se limita aos saldos agregados. É crucial observar os efeitos distributivos, dentro e entre os países envolvidos. A liberalização tende a beneficiar os setores mais competitivos, ao mesmo tempo em que expõe segmentos menos preparados à concorrência internacional. No caso do Mercosul, por exemplo, indústrias de bens de capital, farmacêuticos e manufaturas de média-alta tecnologia podem enfrentar retração frente à maior sofisticação produtiva europeia. Na UE, o setor agrícola, especialmente de países como França e Irlanda, vê nos produtos sul-americanos uma ameaça direta em preços e volume.

Esses custos de transição, embora previsíveis, colocam na pauta interna dos países o debate sobre políticas de compensação: qualificação da força de trabalho, proteção temporária a setores estratégicos e estímulos à inovação. Sem esses mecanismos, o argumento narrativo dos reticentes aponta que o acordo pode aprofundar desigualdades internas e provocar reações sociais e políticas adversas, como já se observa em parte da oposição europeia.

Em suma, o impasse do acordo Mercosul–União Europeia é menos sobre tarifas e mais sobre visões de mundo. Ele revela o descompasso entre uma promessa de integração global e as novas dinâmicas de um mundo mais fragmentado, onde o comércio internacional volta a ser um campo de disputa estratégica, e não apenas de eficiência econômica.

Ainda que o acordo possa representar um jogo de soma positiva, com especialização relativa impulsionando a produção, produtividade, ganhos de escala e redução de preços, como preveem os modelos teóricos de comércio internacional, o custo será grande para diversos setores e, portanto, o lobby, que influencia o processo decisório, acompanhará o debate.

Se o acordo será concluído ainda em 2025 permanece incerto. Mas a sua própria existência e o debate subjacente representam um campo de batalha entre dois paradigmas: o do multilateralismo resiliente e o do protecionismo estratégico. A depender de como esse embate se resolver, poderemos ter um vislumbre não apenas do futuro das relações entre Europa e Mercosul, mas do próprio rumo da globalização nos próximos anos.


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