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Vítor Ribeiro

Derrota de Orbán na Hungria gera alívio em Bruxelas, que agora tem um obstáculo a menos em seu apoio à Ucrânia. Mudanças, no entanto, refletem menos um endosso ao bloco que a incapacidade do Fidesz de responder à estagnação econômica.

“A assimilação de temas defendidos pelo Fidesz por partidos de centro demonstra que se livrar do mensageiro será muito mais fácil que apagar a mensagem.”


O bicho-papão é um mito universal. Em diferentes formas, toda cultura tem sua versão. Na Espanha e suas ex-colônias – como Chaves bem nos ensina -, o Homem do Saco leva embora as crianças malcriadas. No frio dos Alpes, o Krampus, versão malvada do Papai Noel, não apenas deixa os pequenos sem presente, como enfia os levados em um saco e os carrega consigo. Já nos Balcãs, a assustadora Babaroga sequestra os desobedientes e os devora em uma caverna. 

Mesmo pouco afeita a punir seus travessos, a União Europeia não deixa de ter sua própria iteração do monstro. Nomes de destaque já se revezaram no posto, seja por princípio, como a britânica Margareth Thatcher e sua oposição ao federalismo; pelo contexto, caso da alemã Angela Merkel durante a crise do Euro, ou por controvérsias, como o austríaco Sebastian Kurz e seus parceiros de coalizão em Ibiza. Nos últimos anos, porém, nenhum ator protagonizou tão bem o papel quanto o húngaro Viktor Mihály Orbán.
  
Originário – assim como tantos outros bichos-papões da história europeia – das terras cinzentas à leste do continente, precisamente da impronunciável Szekesfehervar, a 65 km da capital Budapeste, o em breve ex-primeiro ministro foi a mais incômoda pedra no sapato da instituição neste século, especialmente após retomar o poder em 2010. Antes, já havia governado o país entre 1998 e 2002, mas de forma pragmática e sem grande alarde.

Orbán promoveu mudanças legislativas e institucionais no país, aparelhando o judiciário, reforçando o controle estatal sobre a economia, a educação e os meios de comunicação e movendo Budapeste na direção do que ele próprio descreveu como democracia iliberal. À época flanqueada pela Polônia de Andrezj Duda, a Hungria afirmava lutar contra o globalismo sem freios que engolia a soberania estatal. 

A ameaça tinha seus próprios bichos-papões: a UE e, ao seu lado, o bilionário George Soros. Tinha também altas doses de ironia, como, por exemplo, a adesão húngara à União Europeia ter sido aprovada em 2003 por 84% da população; e o fato de Orbán, no passado um jovem ativista liberal, ter tido os estudos em Oxford financiados justamente pela ONG de Soros. Esses são detalhes, porém. Na batalha pela pátria, inconveniências históricas ficam para depois.

A UE reagiu às medidas acionando o Artigo 7 do tratado do bloco, que prevê punições diante de “riscos claros de infração dos princípios da UE”, especialmente frente a ameaças à “democracia” e aos “direitos fundamentais”. Iniciado em 2017, o processo contra a Polônia, primeiro na história do bloco, foi arquivado em 2024, após compromisso do governo liderado por Donald Tusk de reverter as mudanças. O caso húngaro, aberto em 2018, resultou no bloqueio temporário de cifras superiores a €16 bilhões em recursos destinados ao país e segue sem conclusão.

Já estremecida, a relação rachou de vez quando, em 2022, Putin resolveu dar início a sua “operação militar especial” na Ucrânia. A Hungria, agora com apoio sérvio, passou a atuar praticamente como promotora dos interesses russos no bloco, impedindo a aplicação de sanções, clamando por diálogo e travando qualquer apoio efetivo à Kiev. Para Orbán, não caberia à UE “importar a guerra”, e qualquer suporte, fosse de cunho político, financeiro ou militar, faria com que o conflito deixasse as fronteiras ucranianas e abraçasse todo o continente. 

Eventos recentes, como o bloqueio húngaro de um empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia, supostamente calcado na obstrução do fluxo de combustível no oleoduto Druzhba, e a prisão de sete cidadãos ucranianos na Hungria transportando milhões em dinheiro e ouro, são sintomáticos do nível de quase ruptura da relação. Após este último episódio, inclusive, o presidente Volodymyr Zelensky insinuou que poderia enviar tropas contra Orbán, o que lhe valeu uma rara reprimenda pública de Bruxelas.   

Diante da tensão latente, portanto, é natural que a UE acompanhasse as eleições do último dia 12 de abril na Hungria, cujas pesquisas indicavam liderança para a oposição, com um misto genuíno de expectativa e esperança. A derrota acachapante do partido de Orbán, o Fidesz, trouxe um sopro de alívio imediato a Bruxelas. Para alguns, o resultado, além de remover uma úlcera no cerne do bloco, representou também um freio à direita radical no continente, da qual o húngaro era, até então, o principal expoente.
 
É tentador atribuir aos fatores externos peso maior do que de fato tiveram, mas é fundamental ter em mente o quadro completo. As causas da queda do partido tem muito mais a ver com descontentamento interno do que efetivamente com questões regionais ou globais. E, para a UE, é importante ainda entender que, sim, o bicho papão de agora caiu. Mas nada impede que outros surjam para tomar seu posto.

Em primeiro lugar, no que pese o alarde quanto a ameaças à democracia e ao estado de direito, o que de fato moveu o eleitor húngaro foi algo bem mais objetivo: dinheiro no bolso. Ou a falta dele. As alternativas cansadas oferecidas por Orbán para combater a estagnação econômica, o aumento do custo de vida e a sensação de instabilidade social já não ressoavam com o eleitorado como nas três eleições anteriores, que mantiveram seu partido no poder ininterruptamente por 16 anos. A alusão às ameaças – os bichos-papões – externos tampouco ecoou com o eleitorado, ávido por renovação. Os votos, pois, refletem interesses materiais, práticos, e não um repúdio manifesto à ideologia da situação ou a concordância estreita com a visão de mundo da burocracia em Bruxelas.

A própria alternativa escolhida é evidência dessa dinâmica. Personagem controverso e longe de imaculado, Péter Magyar, líder do Tisza, foi apparatchik do Fidesz por duas décadas, tendo deixado o partido apenas em 2024. Afastou-se de Orbán nos últimos dois anos, e, adotando expediente similar ao do primeiro-ministro, gravitou para novas posições muito mais por oportunidade que por ideologia. Suas declarações em relação à Ucrânia, em que alterna pragmatismo e “emcimadomurismo”, defendendo a soberania de Kiev ao mesmo tempo em que rejeita apoio militar ao país, não deixam dúvidas disso. Magyar disparou acenos calorosos a Bruxelas em suas primeiras declarações públicas, mas Ursula von der Leyen e cia seriam ingênuos de escalar o novo comandante húngaro como titular em seu time.

Também no escopo mais amplo, é cedo para marcar o 12 de abril de 2026 como o dia em que a Europa venceu a – extrema? – direita. Por óbvio, a queda de um baluarte do porte de Orbán, já apelidado por Donald Trump de “um verdadeiro amigo e vencedor”, tolhe o movimento de uma força relevante no cenário europeu e causa um baque imediato nos apoiadores. Ainda assim, o crescimento perene em gigantes, especialmente Alemanha e França, a permanência de líderes fortes, como Robert Fico na Eslováquia, e a ascendência de novos representantes, caso do recém-eleito Rumen Radev na Bulgária, mostram que a batalha seguirá. Mais que isso, a própria assimilação de temas defendidos pelo Fidesz, como imigração e soberania, por partidos mais ao centro demonstra que se livrar do mensageiro será muito mais fácil que apagar a mensagem.

A demissão do bicho-papão de momento é vitória inegável para a UE. Mas não pode ser respondida com a usual complacência, que inevitavelmente dará origem a novas assombrações. O folclore tradicional austríaco ensina às crianças algumas táticas para manter afastada a fúria do Krampus: além do indispensável bom comportamento, evitar conflitos, manter as luzes acesas e deixar de lado as distrações são as principais estratégias. Em um mundo dominado por guerras, crises energéticas e transformações aceleradas, a Europa faria bem em seguir os conselhos infantis.

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