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Vítor Ribeiro

UE e Mercosul, após 26 anos, assinam enfim seu acordo. Divisões no bloco europeu, porém, já ameaçam descarrilhar um trem que sequer saiu da estação.

“A UE segue refém de interesses individuais, totalmente distantes do princípio da cooperação legal que rege o bloco.”

Por Vítor Ribeiro

Conta a Bíblia que Deus teria feito o mundo em seis dias. Gênesis, 1:31, relata que “viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto”.

Há controvérsia – e sobre qual trecho bíblico não há? – a respeito dessa contagem. Seriam esses os nossos dias de 24 horas? Ou teriam duração própria? A obra sagrada é repleta de lapsos temporais discutíveis. Enoque, por exemplo, teria vivido “trezentos e sessenta e cinco anos” segundo o mesmo Gênesis. E, convenhamos, Deus, sendo Deus, faz dos dias o tempo que quiser.

Tal qual o Pai Celestial, a União Europeia trata o tempo como um criado obediente. No último sábado (17), o bloco enfim assinou seu tão alardeado tratado com o Mercosul. Entre as primeiras tratativas e o acordo finalizado, meros 26 anos transcorreram.

Não surpreenderia se, questionados sobre a demora, os dignitários europeus a descrevessem como “o tempo necessário”. Ora, dias, meses e anos são constrições mortais apenas, não preocupações divinas. E o que são os líderes em Bruxelas senão o Olimpo da Burocracia?

Unindo os 27 membros do bloco europeu a Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, impulsionada por 700 milhões de consumidores e 20% do PIB mundial. Em 2024, a corrente de comércio entre as partes superou €111 bilhões e, no ano anterior, as trocas em serviços alcançaram €42 bilhões. Mesmo antes do pacto, a UE já figurava como a maior investidora estrangeira no Mercosul, com mais de €390 bilhões aportados.

O objetivo principal do tratado é, segundo a Comissão Europeia, “criar regras mais previsíveis e estáveis para o comércio e o investimento” com foco nas áreas de “propriedade intelectual, segurança alimentar, competição e práticas regulatórias”. Para além dos benefícios comerciais, o acordo promove ganhos políticos óbvios, especialmente em um contexto de pressões tarifárias e parcerias tradicionais estremecidas.

Escolhemos parceria e cooperação. Escolhemos nossos negócios. Escolhemos nossos povos”, postou no X Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, classificando o acordo como uma “vitória geopolítica” e afirmando que “o melhor ainda está por vir”.

No lado sul-americano, o presidente brasileiro Lula – que bateu ponto com um “me inclua fora dessa” na cerimônia de assinatura – afirmou que “Mercosul e Europa farão história com o tratado”. Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, descreveu o acordo como uma “parceria estratégica” considerada “indispensável para o desenvolvimento”.

Com tantas benesses na mesa, por que, então, quase três décadas foram necessárias para que os digníssimos pusessem seus autógrafos no papel?

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Por óbvio que acordos dessa complexidade não serão assinados de um dia para o outro. O Acordo Transpacífico, de escopo similar mas abrangência menor, levou quase 7 anos para ser concluído. O NAFTA original, entre México, Estados Unidos e Canadá, foi negociado em três anos e meio, e sua versão atual, o USMCA, exigiu pouco mais de um ano.

Acima de detalhes técnicos, porém, o entrave principal sempre foi – e segue sendo, já que o acordo ainda carece de ratificação nos respectivos Parlamentos – a perene enfermidade europeia: suas divisões internas. Ninguém simboliza melhor a desunião que a França.

No cerne das preocupações de Paris jaz a suposta ameaça do tratado a seu setor agrícola. Historicamente, os subsídios aos agricultores – cuja aprovação popular é alta e cujos grupos de lobby estão entre os mais atuantes do continente – são um dos pontos mais sensíveis e divisivos do bloco. Durante as negociações, a principal associação europeia do setor afirmou que a proposta “corrói a credibilidade da governança europeia e seus processos democráticos”. Grupos organizaram protestos, estacionando tratores em frente a marcos da capital, como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.

Desesperado por apoio político, o presidente da França, Emmanuel Macron, abraçou a causa, alegando que o tratado promoveria a concorrência desleal ao colocar em igualdade de condições os produtos europeus e os sul-americanos. Estes, segundo o francês, estariam sujeitos a menores exigências sanitárias, o que lhes reduziria significativamente o custo.

Ecoando as preocupações francesas, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria se juntaram a Paris e votaram contra a aprovação no Conselho Europeu. No entanto, nem a derrota nem as inúmeras concessões aos agricultores, como os €45 bilhões em manobras orçamentárias aprovadas na semana da votação, dissuadiram Macron, que prometeu levar a briga ao Parlamento. Nesta quarta (21), o legislativo remeteu o acordo à análise do judiciário do bloco, o que pode retardar sua adoção em até 1 ano. Como declarou um eurodeputado francês, “o jogo ainda não acabou”.

O impasse revela prismas distintos, da estagnação de setores habituados a robusto suporte público, passando pela força de grupos organizados e chegando ao descalabro da política interna francesa. Todos, porém, empalidecem quando comparados ao jogo de conveniências em que se converteu a UE.

O Tratado de Lisboa, que em 2007 modernizou a estrutura do bloco, inseriu a previsão de que os “Estados-Membros facilitam à União o cumprimento da sua missão e abstêm-se de qualquer medida suscetível de pôr em perigo a realização dos objetivos da União”. Em anos recentes, os membros parecem decididos a descumprir o preceito.

Fazendo uso da famigerada necessidade de unanimidade, Polônia e Hungria travaram a aprovação do orçamento; a Áustria impediu medidas para expansão do espaço Schengen, enquanto a Eslováquia vetou sanções contra a Rússia. Em estratégia menos chamativa, mas igualmente deletéria, os países do norte, como Holanda e Alemanha, reiteradamente impediram a captação de recursos a nível europeu no mercado.

Mudam as ferramentas, mantém-se o resultado: uma UE refém de interesses individuais, totalmente desconectados do princípio da “cooperação legal”, que defende respeito e assistência mútua no “cumprimento das missões” do bloco. De 2007 para cá, ínfimos 19 anos se passaram. Pode ser que os membros ainda estejam se acostumando às novas regras. É o tempo dos deuses de Bruxelas, afinal. Não nos cabe entender.

Em meio ao noticiário sombrio e ao deboche de aliados e adversários, o acordo com o Mercosul é, indubitavelmente, um passo positivo. Dá ao bloco alternativas e demonstra a seus inimigos que, por mais impassível que pareça, a UE segue viva. A morosidade bíblica para assiná-lo não pode ser imputada exclusivamente à França. Mas a insistência de Paris e aliados em tentar descarrilá-lo, e a série de ferramentas disponíveis para isso, enfraquece o cerne do bloco. É urgente a necessidade de reformas que impeçam ou, ao menos, elevem o custo de tais práticas. O debate será tortuoso, mas fundamental para incutir nos membros a ideia de que os bônus da União exigem também o ônus do “abrir mão“.

Enuncia o Gênesis que “Deus descansou no sétimo dia”. Oniscientes que são, os burocratas no Berlaymont descansaram antes mesmo de completar a obra. E enquanto seu sétimo dia se arrasta, o mundo se move, adversários se fortalecem, alianças se desfazem e desafios assomam no horizonte. Seus líderes precisam aceitar que, se insistirem em enxergar os compromissos como um menu à la carte, acabarão lançados fora do jardim do Éden.

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