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Equipe World on the Wire

O World on the Wire gira distintas engrenagens que compõem o BRICS, a fim de ver se sua heterogeneidade é vantagem ou empecilho.

(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 11 DE JULHO DE 2025)

Imagem: AP

“A expansão aumenta o peso geopolítico do BRICS, mas também acentua seu caráter heterogêneo, quase disfuncional.”

Por Radamés Perin.

O BRICS — acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — foi concebido como uma coalizão de grandes economias emergentes, com o objetivo de remodelar a ordem mundial, historicamente dominada pelo Ocidente. Fundado com esperanças de cooperação econômica, desenvolvimento conjunto e maior representatividade global, o grupo evoluiu para algo mais ambicioso: uma frente geopolítica alternativa ao eixo liderado pelos Estados Unidos e União Europeia. No entanto, por trás das cúpulas e comunicados diplomáticos cuidadosamente redigidos, o bloco esconde profundas tensões e contradições estratégicas que colocam em xeque sua coesão e eficácia.

Em teoria, o BRICS representa um esforço coletivo do Sul Global por autonomia e influência. Na prática, seus membros têm interesses muitas vezes divergentes, agendas domésticas distintas e disputas bilaterais latentes.

Por exemplo, a Índia e a China, duas potências nucleares do grupo, mantêm uma disputa territorial crônica no Himalaia. Desde os anos 1960, o conflito na fronteira do Aksai Chin e de Arunachal Pradesh já causou confrontos armados — inclusive mortes em 2020, no Vale de Galwan, em um embate corpo a corpo entre soldados dos dois países. Mesmo diante desses choques, os dois gigantes continuam sentando à mesa do BRICS, o que evidencia a ambiguidade do bloco: uma plataforma onde adversários estratégicos fingem convergência em nome de interesses maiores.

Embora a China seja a maior economia do BRICS, seu papel hegemônico dentro do grupo é mal digerido por outros membros, especialmente pela Índia. Pequim promove sua Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) como ferramenta de projeção geoeconômica, mas Nova Délhi rejeita abertamente o projeto, alegando preocupações com soberania — já que um dos principais corredores da iniciativa atravessa a disputada Caxemira.

Além disso, há um jogo de influência em curso dentro do BRICS em que China e Índia competem pela liderança no Sul Global. A China aposta em investimentos e bancos multilaterais como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), enquanto a Índia se aproxima dos EUA e Japão por meio do grupo Quad (Quadrilateral Security Dialogue), visando contrabalançar a influência chinesa na Ásia.
A guerra na Ucrânia isolou a Rússia do Ocidente, mas ao mesmo tempo fortaleceu seus laços com China e Índia dentro e fora do BRICS. No entanto, esse reposicionamento estratégico não está isento de fricções.

A Índia, apesar de manter compras expressivas de petróleo russo, não reconheceu a legitimidade da anexação da Crimeia nem endossa abertamente a invasão da Ucrânia. O Brasil, sob diferentes governos, adotou posturas ambíguas — por vezes condenando, por vezes relativizando a agressão. Já a África do Sul tem oscilado entre neutralidade diplomática e simpatia à retórica antiocidental de Moscou.

Isso revela um dilema estrutural: o BRICS é incapaz de formar consensos em temas de segurança internacional. A ausência de uma posição comum sobre a guerra na Ucrânia é o exemplo mais gritante dessa limitação.

O Brasil tem sido o membro mais errático do BRICS. Sob diferentes governos — de Lula a Bolsonaro, e agora de volta a Lula — o país oscilou entre um alinhamento com os emergentes e uma aproximação com os EUA e a Europa. Essa instabilidade prejudica sua influência dentro do bloco.

Lula tenta reviver o papel do Brasil como articulador da cooperação Sul-Sul, propõe uma moeda alternativa ao dólar para transações entre os membros e reforça a crítica à ONU e ao sistema financeiro global. No entanto, o país tem pouco poder real para liderar o grupo, limitado por sua estagnação econômica, crise institucional crônica e posição periférica nas cadeias globais de valor.
Além disso, o Brasil mantém relações comerciais intensas tanto com China quanto com os EUA, o que o força a um equilíbrio diplomático delicado — e às vezes incoerente.

A África do Sul é o membro mais fraco economicamente, mas cumpre papel simbólico essencial no BRICS: representa o continente africano e legitima a agenda de expansão do bloco.

Contudo, o país enfrenta sérias crises domésticas — desemprego massivo, colapso energético, corrupção sistêmica — que reduzem sua capacidade de agir como ator global. Sua política externa também tem sido inconsistente: apoia retoricamente a multipolaridade, mas hesita em adotar posturas que possam comprometer seus laços com o Ocidente, especialmente em temas como sanções à Rússia ou alinhamento com a China.

Em 2023, o BRICS anunciou a expansão do grupo, convidando países como Irã, Argentina, Egito, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A medida visa ampliar a influência global do bloco, especialmente no Oriente Médio e na África.

No entanto, essa ampliação também traz novos desafios: interesses conflitantes entre países do Golfo, questões religiosas, rivalidades regionais e modelos políticos distintos tornam ainda mais difícil a formação de consensos. Como harmonizar as prioridades do Irã teocrático com os interesses dos Emirados pragmáticos? Como manter coesão entre democracias instáveis e regimes autoritários?
A expansão aumenta o peso geopolítico do BRICS, mas também acentua seu caráter heterogêneo, quase disfuncional.

Apesar de ter criado o NDB e falado em reformas do FMI e do Banco Mundial, o BRICS sofre com uma estrutura institucional frágil. Não há mecanismos de resolução de conflitos, nem regras claras de tomada de decisão. As cúpulas anuais produzem documentos genéricos, com linguagem vaga, que muitas vezes escondem desacordos profundos.

A ausência de uma secretaria permanente e de metas concretas limita a capacidade do bloco de agir de forma coordenada. O BRICS continua mais como uma plataforma de diálogo do que uma aliança estratégica robusta.

O BRICS enfrenta um paradoxo fundamental: quanto mais tenta expandir sua influência global, mais expõe suas fissuras internas. Seu sucesso depende da capacidade de seus membros em equilibrar ambições nacionais com compromissos multilaterais — tarefa difícil diante de disputas bilaterais, visões de mundo incompatíveis e rivalidades estratégicas.

A China quer liderar. A Índia quer autonomia. A Rússia quer romper com o Ocidente. O Brasil quer relevância. A África do Sul quer visibilidade. Esses objetivos nem sempre se alinham.

Ainda assim, o BRICS cumpre um papel importante: força o debate sobre a reforma das instituições internacionais, dá voz ao Sul Global e pressiona por uma ordem mundial mais multipolar. Mas, para além do simbolismo, precisa resolver suas próprias contradições internas se quiser deixar de ser um clube diplomático e se tornar um ator geopolítico real.

“O BRICS permanece uma ficção útil: uma utopia geopolítica que seduz pelo discurso e tropeça na realidade.”

Por Gabriel Sabino.

O BRICS é como um cardume formado por peixes de espécies diferentes, todos imersos no mesmo oceano unipolar. Na minha visão, a China ainda não alcançou o mesmo nível de influência dos Estados Unidos, embora muitos analistas afirmem que esse oceano já é em parte dominado por correntes opostas entre China e Estados Unidos, configurando um cenário bipolar. Mesmo assim, o bloco sonha com águas multipolares. Movidos pelo instinto de sobrevivência coletiva, nadam juntos. No entanto, como na Torre de Babel, cada um fala uma língua própria, impulsionado por culturas e interesses distintos, nadando em direções que raramente se encontram. Unidos na aparência, mas fragmentados na essência.

No início de 2025, o Brasil assumiu a presidência pro tempore do BRICS e, neste mês, sediou a cúpula em território nacional. Diante de um cenário geopolitico cada vez mais pressionado por disputas sistêmicas e redefinições de alianças, especialmente pela volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e pelas ameaças de tarifas feitas por ele, coube ao Brasil o desafio de orquestrar consensos e imprimir ao bloco uma narrativa de coesão. Lula demonstrou total incapacidade de fazê-lo (novidade).

O BRICS carrega profundas contradições internas. Há pouco, China e Índia brigavam literalmente a pau e pedras no Himalaia, mostrando rivalidades regionais que persistem mesmo dentro do bloco, como por exemplo a criação de dois novos condados pela China no começo do ano no Himalaia, atitude contestada por Nova Delhi. Enquanto o discurso oficial enfatiza a defesa da democracia e do multilateralismo, essa é uma falácia evidente. Putin, responsável pela invasão de um país soberano, e Xi Jinping, que persegue e reprime opositores — ambos, ironicamente, tratados como referências de defensores das liberdades — ausentaram-se da cúpula aqui no Brasil, mostrando estilos de liderança antagônicas ao centro do debate da cúpula e prioridades divergentes. A ausência de ambos foi sintomática, uma espécie de demonstração silenciosa de que o bloco é útil, mas não tanto a ponto de se comprometer com ele.

A ausência de Xi Jinping, em especial, foi cheia de significado. Na minha visão, não foi apenas um gesto diplomático, mas o retrato de um desinteresse crescente da China em compartilhar protagonismo com parceiros que considera inferiores. Para Pequim, o BRICS só vale a pena quando está sob sua órbita direta. Participar de uma cúpula liderada por Lula, em Brasília, debatendo multipolaridade com países em crise fiscal, pareceu um desperdício de tempo para o imperador das reformas de Hong Kong e dos campos de reeducação de Xinjiang. Afinal, o soft power chinês não precisa mais de vitrine; ele se impõe por massa econômica, o que chamo de colonização por concessões.

Putin teve razões mais “legais” para não comparecer. O ditador russo é atualmente alvo de um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, acusado de crimes de guerra na Ucrânia. Sua ausência poupou o Brasil de um constrangimento diplomático e jurídico de proporções gigantescas. Mas é curioso como, mesmo diante de acusações formais por crimes contra a humanidade, Putin segue sendo saudado como um bastião da nova ordem multipolar. Uma ordem que, ao que tudo indica, dispensa os direitos humanos.

Mais reveladora ainda foi a entrada celebrada do Irã no BRICS. Trata-se de um regime teocrático que enforca dissidentes, pune mulheres por mostrarem os cabelos e censura até sorrisos fora de hora, mas que, no contexto do bloco, é enaltecido como símbolo de soberania e resistência ao Ocidente. Na lógica do BRICS, liberdade é um conceito flexível. Depende de quem a viola e contra quem. O discurso da autodeterminação só vale se não questionar os próprios aliados.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição que beira a esquizofrenia geopolítica. Ainda tenta se apresentar como o elo democrático do grupo, o conciliador da ordem internacional, o porta-voz dos direitos e do multilateralismo. Mas sua realidade interna conta outra história. Não classificado como uma “democracia plena” por órgãos internacionais, com instituições cada vez mais tensionadas e um presidente mais interessado em alinhamentos ideológicos do que em coesão regional, o Brasil é a utopia democrática de um grupo onde utopias morrem de fome. Em meio a ditaduras flagrantes, o Brasil aparece como um fiador simbólico de legitimidade, mesmo que seu cheque democrático esteja há tempos sem fundo.

A China segue como a força gravitacional do bloco. Investe, expande sua influência, coopta governos frágeis com promessas de infraestrutura e crédito fácil e vende a ilusão de uma ordem multipolar. Desde que ela seja a estrela do sistema. Os demais membros, com mais ou menos resistência, orbitam essa ambição como satélites que às vezes fingem autonomia enquanto seguem rotas pré-definidas por Pequim.

A Índia, por seu lado, parece cada vez mais desconfortável. As tensões com a China após os confrontos no Himalaia, o nacionalismo de Modi e sua reaproximação com os Estados Unidos a colocam em uma encruzilhada. Seguir como antagonista contido dentro do BRICS ou assumir seu papel estratégico em uma Ásia onde os EUA continuam a operar como árbitros invisíveis.

Com a volta de Trump à presidência americana, o cenário se tensionou ainda mais. Trump não esperou muito. Reativou tarifas, ameaçou sanções, “reforçou” alianças bilaterais, como a feita com Israel, Coréia do Sul, Japão e Vietnã, e se empenhou em minar o BRICS por dentro. Se antes via o bloco como um incômodo, agora o vê como uma ameaça. E, como um predador experiente, ele não ataca o cardume. Ataca os peixes isoladamente. Explorou a rivalidade sino-indiana, ofereceu exceções comerciais a parceiros estratégicos após o “tarifa sob pressão” e usou sua diplomacia ruidosa para desmoralizar o bloco diante da opinião pública internacional.

Alguns membros do BRICS agora enfrentam prazos apertados para renegociar suas tarifas com os EUA e evitar retaliações. O tempo corre contra o bloco. E, como em todo grupo desalinhado, cada um corre para salvar seu próprio casco. Em vez de articulação conjunta, o que a gente vê é uma diplomacia de sobrevivência individual. A promessa de um polo alternativo se dilui na pressa de cada país em escapar das garras do unilateralismo trumpista, mesmo que para isso precise fazer o jogo de quem quer destruir o BRICS.

O BRICS, portanto, permanece uma ficção útil. Uma utopia geopolítica que seduz pelo discurso e tropeça na realidade. Comandado por interesses assimétricos, minado por lideranças autoritárias e desafiado por potências externas que conhecem suas fraquezas melhor que seus próprios membros, o bloco caminha mais como encenação do que como projeto. A presidência brasileira apenas expôs o que muitos já sabiam: o BRICS é um mosaico mal colado de ambições incompatíveis.

Esse diagnóstico é corroborado por análises quantitativas que medem o alinhamento político entre os membros do bloco ao longo do tempo.

Ao se observar a trajetória histórica das posições políticas adotadas por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul em votações multilaterais, especialmente na ONU, nota-se que as preferências nacionais apresentaram uma relativa convergência entre o pós-guerra e o fim da Guerra Fria, atingindo seu ponto de maior proximidade no final dos anos 1980.

A partir dos anos 1990, entretanto, essas preferências voltaram a divergir, refletindo as transformações internas de cada país e seus novos posicionamentos estratégicos. Ainda que tenha havido uma reaproximação pontual em meados daquela década, os dados mostram que, nas últimas décadas, os BRICS caminham em direções cada vez mais distintas.

Com base nessas informações, percebemos que, até que consiga resolver suas contradições internas, redefinir sua moral e blindar-se das pressões externas, o BRICS seguirá sendo aquilo que é. Um clube de discursos, onde até os ditadores têm cadeira cativa e os “democratas”, no máximo, servem café.

“A baliza entre China e EUA reflete a tensão entre o pragmatismo comercial e as alianças estratégicas tradicionais da Colômbia.”

Por Vítor Ribeiro e Fernando Gonçalves.

“Equilibrado” é indiscutivelmente um dos piores adjetivos para caracterizar a história das relações econômicas entre os países. Dos estados tributários chineses, passando pelo colonialismo europeu, chegando às esferas de influência soviéticas e ao imperialismo americano – entre tantos outros exemplos que o parco conhecimento de história destes autores os impede de citar – , a balança sempre pendeu mais para um lado que para outro.

O sistema multilateral erigido no pós-Segunda Guerra tinha como uma de suas premissas justamente trazer harmonia a este arranjo descoordenado. O Banco Mundial – uma das instituições nascidas em Bretton Woods -, por exemplo, estabelece entre seus princípios a promoção do “crescimento equilibrado do comércio internacional no longo prazo”. Propósito quase idêntico figura na carta de criação do Fórum Monetário Internacional (FMI). Instituída mais à frente, a Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê em seu estatuto de fundação a intenção de alcançar acordos “recíprocos e mutuamente benéficos”. Tudo muito bonito, mas não se demanda muito para converter princípio em letra morta.

É inegável que o comércio internacional, especialmente ao final da Guerra Fria, trouxe inúmeros benefícios à maioria das nações. Segundo pesquisa com 40 países citada pelo Fórum Econômico Mundial, a liberalização das trocas eleva em ⅔ o poder de compra nos lares de menor poder aquisitivo, que tendem a consumir mais produtos importados.

O próprio Fórum reconhece, porém, que as fatias do bolo costumam ser muito mal cortadas. O mesmo arranjo institucional que dá uma força aos mais pobres para fechar a conta no final do mês também concentrava, em 2023, 13% do PIB mundial, aproximadamente US$14 trilhões, nas mãos de apenas 3.000 famílias. Em 1987, esse percentual beirava os 3%. Todos ganham? Sim, sem dúvida. Mas alguns ganham muito mais que outros.

Como nosso querido Gabriel Sabino tanto gosta de dizer, “não há vácuos nas relações internacionais”. E o BRICS é, precisamente, uma resposta à insatisfação generalizada entre as economias em desenvolvimento – o hoje tão em voga e geograficamente contestável “Sul Global” – quanto à divisão desigual dos espólios do comércio mundial.

Criado originalmente como mero acrônimo para facilitar o entendimento de clientes e investidores, o grupo tem na batalha por uma “globalização econômica equitativa” um de seus grandes motores de expansão. E que expansão.

Em sua primeira formação, por volta de 2003, composta por Brasil, Rússia, Índia e China – sim, o ‘S’ chegou um pouquinho depois – , o bloco já respondia por aproximadamente 10% do PIB mundial, percentual que cresceu para 14% em 2009. A África do Sul completou o time original em 2011.

Hoje, com a entrada de 6 novos membros, o agora rebatizado BRICS+ entra em campo completo, ostentando na torcida aproximadamente metade da população mundial e podendo afirmar que joga em casa em 3 continentes e 36% do território global. No cofre, 39% do PIB mundial, com 43% da produção de petróleo e 72% das reservas de terras raras. No banco de reservas, 9 países parceiros aguardam prontos para não deixar o time perder o ritmo.

No papel, uma seleção. Mas como Romário, Sávio e Edmundo provaram à torcida do Flamengo, dentro de campo a história é outra. E, no caso do BRICS, a distinção é tão acentuada que, por vezes, os participantes parecem jogar esportes diferentes. Em termos de visões, peso e escala, a distância é tão significativa que é difícil discernir se, de fato, os planos aventados buscam “fortalecer a parceria estratégica” ou servir de trampolim para propostas econômicas que fortaleçam a posição internacional de seus membros mais relevantes.

No campo econômico-financeiro, o BRICS tem como grande meta desafiar a dominância ocidental – leia-se Estados Unidos (EUA) – na governança das principais instituições multilaterais, como o FMI e a OMC. Seus membros as enxergam – não sem razão, vale frisar – como defasadas e pouco representativas, tendentes a sempre preterir os interesses das nações menos desenvolvidas.

De forma a contrabalançar tal influência, não só faz pressão por mudanças em tais fóruns como busca criar suas próprias alternativas. É o caso, por exemplo, do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês), estabelecido em 2015 com capital inicial subscrito de US$50 bilhões, dividido igualmente entre seus membros fundadores. Em seu estatuto, o banco se descreve como “complementar às instituições multilaterais e regionais” em seus esforços de desenvolvimento global.

Na mesma época, foi instituído também um Fundo de Contingência de US$100 bilhões, cujo objetivo é prover liquidez em momentos de crise na balança de pagamentos. Aqui, a participação chinesa, com US$41 bilhões, é significativamente superior à dos demais. Brasil e Rússia, por exemplo, contribuíram com US$18 bilhões cada um.

Outra seara que ganha muita relevância é a intenção dos participantes de ter no BRICS+ um veículo de fomento a sistemas alternativos de pagamento. A ideia é não apenas reduzir a dependência do SWIFT – utilizado, por exemplo, em sanções contra a Rússia – , mas fortalecer a interoperabilidade entre os membros e desenvolver toda uma arquitetura financeira própria, que inclua, além dos pagamentos, resseguros, liquidação, custódia e garantias.

Em sentido correlato, o bloco vem reiteradamente defendendo medidas para promover a “desdolarização” do sistema econômico mundial. Há anos seus integrantes vêm utilizando a infraestrutura do NDB para transacionar utilizando suas moedas, especialmente o Renminbi chinês. As propostas, no entanto, vão além, com discussões e estudos sobre a criação de uma moeda própria para o BRICS. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, inclusive, critica duramente as iniciativas, classificando-as como “antiamericanas”, e ameaça retaliação com tarifas.

Ora, como todo jovem traumatizado pela morte de Tio Ben jamais esquece, “grandes poderes vêm com grandes responsabilidades”. E, da mesma forma, iniciativas grandiosas carregam riscos proporcionais. As propostas do BRICS + endereçam claramente dores criadas pela própria arquitetura econômica internacional. No entanto, a forma de apresentá-las e a condução de sua evolução podem acabar não por tornar o jogo mais parelho, mas sim tornar instáveis os benefícios já conquistados.

Aqui, os braços abertos do bloco – que aceita de sistemas políticos ‘inovadores’ a estruturas econômicas ‘criativas’ – tornam tudo mais difícil. Os imperativos que movem os países componentes do bloco não são apenas diferentes. Em alguns casos, chegam até mesmo a ser conflitantes.

Para o Brasil, por exemplo, o grupo é um mecanismo ímpar para estreitar os laços e administrar a relação com a China, seu principal parceiro comercial. China e Rússia compartilham o foco em erodir a capacidade norte-americana de ditar as regras da economia global. Pequim para ampliar sua influência e prover musculatura a suas – por vezes controversas – iniciativas comerciais e financeiras. Já Moscou para desenvolver rotas que lhe tirem do jugo das sanções americanas e europeias, caso similar ao do Irã. Índia, África do Sul e Emirados Árabes Unidos, por sua vez, possuem relação muito mais próxima com os EUA, com a primeira tendo inclusive interesse maior em minar a ascensão chinesa do que dificultar o caminho americano.

Há, obviamente, interesses partilhados por todos, sobretudo o estímulo a ferramentas de desenvolvimento e financiamento alternativos. Quando se precisa de recursos – seja por oportunidade ou necessidade – aproximar-se do máximo de players possível não é exatamente uma decisão difícil de tomar. No final das contas, do ponto de vista econômico, é essa a principal mola propulsora dos novos entrantes no grupo.

Todavia, apesar do discurso comum em favor de uma ordem econômica mais multipolar, os membros do BRICS+ operam com prioridades econômicas próprias, frequentemente desalinhadas. Enquanto alguns países buscam acesso a financiamento em condições menos restritivas, outros visam ampliar mercados para seus bens e serviços, diversificar parcerias comerciais ou elevar o grau de influência internacional de suas moedas. O que para uns representa uma oportunidade de contestar o status quo global, para outros pode significar riscos desnecessários de retaliação ou isolamento.

Esse mosaico de interesses reduz a margem para ações coordenadas e impõe obstáculos à construção de uma agenda econômica comum robusta. Além disso, o grau de disposição para arcar com os custos geopolíticos de uma maior autonomia financeira varia de país para país. Avançar em projetos que desafiem a centralidade do dólar, por exemplo, pode ser estratégico para a Rússia, mas implica riscos diplomáticos que nem todos estão dispostos a assumir. A entrada de novos membros, com perfis econômicos, políticos e regionais ainda mais diversos, tende a amplificar essa complexidade e tornar mais difícil qualquer tentativa de articulação estratégica consistente. Assim, a coesão do grupo não depende apenas da convergência de metas gerais, mas também de sintonia fina, o que, em um conjunto tão heterogêneo, tende a ser a exceção, não a regra.

Em que pese suas, digamos, incongruências, o fato é que o BRICS (com + ou sem +) deixou há tempos de ser mero golpe de marketing de luxo. Dos campos de batalha às batalhas geopolíticas à política econômica, o grupo é indubitavelmente uma força que precisa ser considerada. As reiteradas investidas de Trump são prova disso. A questão é saber se seus membros serão capazes de jogar como uma equipe, ou se o ego dos craques vai falar mais alto. Afinal, Muricy avisou: a bola pune.


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