Banco Europeu de Investimentos quadruplica despesas com defesa e segurança. Apoio crescente à indústria militar sinaliza busca do continente por autonomia.

O discurso de paz continua, mas o orçamento agora fala outra língua.
Ao longo de 2025, o Banco Europeu de Investimento (BEI) quadruplicou seus gastos em segurança e defesa, alcançando €4 bilhões anuais. A mudança ocorre em meio ao temor de um possível ataque russo antes do fim da década e à deterioração do ambiente geopolítico global, marcada por conflitos prolongados e pela imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos. As projeções para 2026 indicam que o nível de despesas deve ser mantido.
No último ano, 5% de todo o financiamento do banco dentro da União Europeia foi destinado a projetos ligados diretamente à defesa. O número é inédito e alcança antecipadamente meta prevista apenas para 2026. Segundo a presidente do banco, Nadia Calviño, trata-se de uma “mudança estrutural”, com abertura explícita para investimentos puramente militares, algo impensável até poucos anos atrás.
Os recursos estão sendo direcionados para infraestrutura crítica e mobilidade militar, como a expansão de portos estratégicos na Dinamarca e um campus militar na Lituânia, além de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da indústria europeia de defesa. Pequenas e médias empresas do setor também passaram a ter acesso facilitado ao crédito por meio de parcerias com bancos comerciais e fundos de venture capital.
Esse movimento ganhou reforço do Fundo Europeu de Investimento, braço de capital de risco do grupo, que já sinalizou a criação de um programa ainda mais ambicioso para defesa e cibersegurança.
“Uso dual é um termo ultrapassado. Agora podemos investir em aplicações exclusivamente militares”, afirmou a CEO do fundo, Marjut Falkstedt, ao justificar a nova estratégia.
O pano de fundo é econômico e estratégico. A Comissão Europeia estima que o bloco precisará de cerca de €500 bilhões em investimentos em defesa na próxima década. Embora Calviño ressalte que o banco “não é um ministério da Defesa”, o EIB passou a atuar como catalisador financeiro de um setor que, até recentemente, era politicamente sensível.
A escalada ocorre paralelamente à intensificação das tensões globais, incluindo disputas territoriais no Ártico e o desgaste da ordem internacional. Para Bruxelas, fortalecer sua base industrial e tecnológica tornou-se sinônimo de soberania.
“Financiamento é parte da resposta, mas também precisamos de sistemas padronizados, compras conjuntas e mais eficiência”, disse Calviño.
Na prática, a União Europeia aceita que, no atual cenário, segurança deixou de ser um custo político e passou a ser um investimento estratégico.
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