Berlim propõe que países em estágios diferentes caminhem separados. Objetivo é destravar reformas, fortalecer o euro, ampliar defesa e reduzir dependências estratégicas.

A União Europeia pode estar prestes a admitir oficialmente aquilo que há anos tenta disfarçar: a integração plena já não avança no mesmo ritmo para todos.
O ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, defendeu nesta semana a criação de uma “Europa de duas velocidades”, na qual um núcleo reduzido de países avançaria em reformas econômicas, financeiras e de defesa, deixando o restante do bloco para trás. A proposta foi apresentada em Berlim e reforçada em entrevistas e documentos enviados a parceiros estratégicos.
Segundo Klingbeil, a paralisia decisória do bloco de 27 países ameaça transformar a Europa em mera “peça no tabuleiro das grandes potências”. Para evitar esse destino, Alemanha e França querem liderar um novo formato com Itália, Espanha, Polônia e Países Baixos, reunindo as seis maiores economias da União Europeia em torno de uma agenda concreta de competitividade e soberania.
O plano prevê quatro frentes centrais: aprofundar a união dos mercados de capitais, fortalecer o euro como moeda de refúgio internacional, coordenar investimentos em defesa e garantir o acesso a matérias-primas críticas. O grupo pretende acelerar decisões que hoje ficam travadas por divergências internas, sobretudo em um contexto de tarifas comerciais, fragmentação dos mercados globais e crescente dependência europeia de insumos estratégicos vindos da China.
Klingbeil argumenta que, diante de um ambiente geopolítico cada vez mais imprevisível, “continuar como antes não é uma opção”. O ministro também defendeu que os gastos com defesa passem a ser tratados como prioridade no próximo orçamento plurianual do bloco, transformando o setor em um motor de crescimento econômico, e não apenas em um custo fiscal.
A iniciativa conta com o apoio do chanceler alemão Friedrich Merz e deve ganhar forma em reuniões nas próximas semanas, incluindo um encontro à margem do Eurogrupo, na Bélgica. A ideia é que o grupo funcione como força motriz para reformas estruturais, mesmo sem consenso pleno entre os 27.
Ao propor uma Europa mais rápida para alguns e mais lenta para outros, Berlim sinaliza que a integração, antes vista como destino comum, passa a ser tratada como privilégio condicionado à capacidade de acompanhar o ritmo imposto pelos países centrais.
“Agora é o momento de uma Europa de duas velocidades”, afirmou Klingbeil.
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