“Acordo dos acordos” pode criar mercado de US$ 27 trilhões. Pacto inclui ampla redução tarifária, abertura de serviços, regras para investimentos e benefícios diretos a empresas e exportadores.

Em meio à fragmentação do comércio global, União Europeia e Índia decidiram apostar no caminho oposto. O bloco europeu e Nova Délhi selaram o maior acordo de livre comércio já firmado por ambos, criando uma zona econômica de quase dois bilhões de pessoas e cerca de um quarto do PIB mundial.
O acordo foi anunciado nesta semana, em Nova Délhi, após quase 20 anos de negociações intermitentes, e ocorre em um contexto de crescentes tensões comerciais com os Estados Unidos. A assinatura contou com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, às vésperas do Dia da República da Índia.
O tratado prevê uma ampla redução de tarifas e a abertura gradual de mercados historicamente protegidos. A Índia eliminará ou reduzirá tarifas sobre 96,6% das exportações europeias, enquanto a União Europeia liberalizará 99,5% de suas linhas tarifárias para produtos indianos ao longo de até sete anos. Segundo a Comissão Europeia, apenas em tarifas alfandegárias a economia para empresas do bloco pode chegar a € 4 bilhões.
Para a Europa, o acordo representa acesso ampliado a um dos mercados mais dinâmicos do mundo, com crescimento anual superior a 6%. Setores como máquinas, equipamentos elétricos, aeronaves, produtos químicos, farmacêuticos e automóveis estão entre os principais beneficiados. Tarifas indianas sobre veículos, hoje em até 110%, cairão progressivamente para cerca de 10%, ainda que sob cotas e salvaguardas.
A agricultura, tradicionalmente sensível, também entrou no acordo, embora com limites claros. Vinhos, cervejas, destilados e azeite de oliva europeu terão reduções expressivas de tarifas, enquanto produtos considerados sensíveis, como carne bovina, arroz e açúcar, ficaram fora da liberalização, preservando produtores europeus.
Além de bens, o pacto avança de forma inédita sobre serviços. A Índia abriu 102 subsetores, incluindo finanças, transporte marítimo e telecomunicações, enquanto a União Europeia concedeu acesso a 144 áreas de serviços. Para pequenas e médias empresas, foi criado um capítulo específico, com plataformas digitais e pontos de contato para facilitar o uso do acordo.
Para a economia europeia, o acordo também representa um instrumento defensivo. Ao garantir regras claras de acesso, proteção a investimentos e redução tarifária, o bloco busca preservar competitividade de suas empresas em um cenário global cada vez mais marcado por subsídios estatais e barreiras comerciais disfarçadas.
Do ponto de vista geopolítico, o tratado carrega um recado claro. Em meio à guerra tarifária promovida por Washington e às incertezas geradas pela política comercial do presidente Donald Trump, Bruxelas e Nova Délhi aceleraram a convergência estratégica.
“Criamos uma zona de livre comércio de dois bilhões de pessoas, com ambos os lados prontos para se beneficiar economicamente”, afirmou Ursula von der Leyen, acrescentando que “a cooperação ainda entrega grandes resultados”.
Narendra Modi reforçou o tom ao dizer que o acordo “fortalecerá a confiança em Índia para cada empresa e investidor do mundo” e ampliará tanto a manufatura quanto o setor de serviços do país.
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