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Vítor Ribeiro

Nesta análise, Radamés Perin narra a lenta caminhada, tropeço a tropeço, da União Europeia em direção a sua possível derrocada. Na sua visão, o que o futuro reserva para Bruxelas?

(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 17 DE OUTUBRO DE 2025)

“Embora Bruxelas e Washington tenham se unido em sanções contra Moscou, a maioria dos países europeus continua incapaz de sustentar uma estrutura militar autônoma.”

Por Radamés Perin

Por décadas, a União Europeia foi apresentada como o maior experimento político e econômico do pós-guerra — a prova viva de que a integração supranacional poderia substituir os antigos impulsos nacionalistas por uma lógica de cooperação e prosperidade compartilhada. No entanto, em 2025, esse ideal parece cada vez mais distante. O bloco, antes símbolo de estabilidade e coesão, vive hoje um processo de fragmentação interna e perda de relevância externa que ameaça corroer seus próprios fundamentos. Trata-se de um colapso silencioso: sem guerras ou rupturas dramáticas, mas com um lento e constante esvaziamento de poder, identidade e propósito.

A crise da União Europeia é, antes de tudo, política. As instituições de Bruxelas perderam a capacidade de representar os interesses diversos de seus 27 membros. O Parlamento Europeu, cuja influência cresceu nas últimas décadas, ainda é percebido como distante e burocrático. Já a Comissão Europeia, dominada por tecnocratas, age muitas vezes como uma entidade sem rosto, impondo políticas que nem sempre refletem as realidades nacionais. Essa distância entre governantes e governados alimentou o avanço de partidos nacionalistas e eurocéticos em praticamente todos os países do bloco.

Na França, Marine Le Pen consolidou sua força ao transformar a pauta anti-imigração e antiBruxelas em um discurso de soberania econômica. Na Alemanha, a AfD se firmou como terceira força política, desafiando o establishment e questionando o custo da integração. Na Itália, Giorgia Meloni equilibra pragmatismo e euroceticismo, enquanto países do Leste, como Hungria e Polônia, desafiam abertamente as regras europeias em temas de imigração e direitos civis. O consenso europeu, antes sustentado por valores liberais e instituições fortes, dá lugar a uma guerra cultural interna sobre identidade, fronteiras e soberania.

Nenhum tema expôs mais as fissuras da União Europeia do que a imigração. Desde a crise de refugiados de 2015, o continente se vê dividido entre países que defendem políticas de acolhimento e aqueles que adotam uma postura rígida de controle de fronteiras. A incapacidade de criar uma política comum transformou a migração em um problema estrutural e permanente.

Nos últimos anos, o fluxo migratório voltou a crescer, impulsionado por conflitos na África e no Oriente Médio. Cidades como Paris, Roma e Atenas enfrentam tensões sociais crescentes, e partidos de direita usam o tema como combustível eleitoral. Bruxelas tenta impor cotas de realocação, mas muitos governos simplesmente se recusam a cumprí-las. O resultado é uma Europa cada vez mais fragmentada, onde a solidariedade dá lugar ao ressentimento.

Além disso, a migração se tornou um ponto de pressão geopolítica. Turquia, Bielorrússia e até a Rússia têm usado o fluxo de refugiados como ferramenta de chantagem política, sabendo que a Europa é incapaz de responder de forma unificada. A fronteira externa do continente, portanto, tornou-se não apenas uma linha física, mas também um símbolo da impotência política europeia.
A crise energética de 2022, provocada pela guerra na Ucrânia, revelou outro ponto fraco da União Europeia: sua dependência de fontes externas. O corte do gás russo deixou países inteiros à beira do racionamento e expôs o fracasso de uma política energética comum. Em vez de uma transição coordenada para fontes renováveis, o que se viu foi uma corrida caótica por contratos emergenciais e acordos bilaterais com fornecedores africanos e árabes.

Essa dependência não é apenas energética, mas também industrial e tecnológica. A Europa perdeu competitividade frente aos Estados Unidos e à China. A indústria alemã, motor da economia europeia, sofre com custos altos e com a fuga de investimentos para os EUA, onde os subsídios verdes de Joe Biden atraem empresas europeias. O resultado é um continente envelhecido, caro e tecnologicamente atrasado — que sobrevive mais por inércia do que por vitalidade.

No campo da segurança, a situação é ainda mais delicada. Desde o fim da Guerra Fria, a Europa delegou sua defesa aos Estados Unidos, via OTAN. Essa dependência se tornou desconfortável após o início da guerra na Ucrânia. Embora Bruxelas e Washington tenham se unido em sanções contra Moscou, a maioria dos países europeus continua incapaz de sustentar uma estrutura militar autônoma.

As tentativas de criar uma “defesa europeia” esbarram em falta de coordenação e divergências estratégicas. França e Alemanha, por exemplo, defendem modelos distintos de comando e financiamento. Enquanto isso, o Leste Europeu insiste na centralidade da OTAN, temendo uma retirada gradual do compromisso norte-americano. O resultado é uma Europa militarmente fraca, dividida e dependente de uma potência externa — uma vulnerabilidade estratégica que mina sua capacidade de agir como ator global independente.

A consequência mais visível dessa série de crises é o declínio da influência europeia no cenário internacional. O bloco, que já foi mediador em conflitos e exemplo de integração pacífica, tornou-se espectador dos grandes eventos geopolíticos. Nos fóruns multilaterais, como G20 e ONU, a voz europeia é fragmentada. Na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, a Europa é consumidora, não produtora. Em temas de defesa, é satélite da OTAN. E, nas relações com o Sul Global, perdeu espaço para a diplomacia chinesa e para a assertividade russa.

A própria ideia de “valores europeus” — democracia, direitos humanos, economia de mercado — está em declínio, inclusive dentro do continente. O aumento da censura, da polarização e da intolerância política nos principais países-membros mostra que a crise europeia não é apenas institucional, mas também civilizacional. A Europa parece ter perdido a confiança em seu próprio modelo.
O futuro da União Europeia dependerá da capacidade de seus líderes de redefinir o projeto continental. Manter a unidade exigirá mais do que tratados e comissões: exigirá uma nova narrativa capaz de dar sentido à integração em um mundo que voltou a ser competitivo e violento. No entanto, há poucos sinais de que isso esteja acontecendo. Em vez de visão estratégica, prevalece a política de curto prazo. Em vez de coesão, disputas internas. Em vez de liderança, burocracia.

O colapso da União Europeia não virá sob a forma de um evento único e catastrófico, como uma dissolução formal. Ele já está em curso — silencioso, gradual, mas inexorável. Cada crise migratória, cada divergência energética, cada eleição polarizada é uma rachadura adicional em um edifício que já perdeu a alma. E, se nada mudar, o continente que inventou a civilização moderna poderá se tornar apenas um apêndice geopolítico entre a América e a Ásia: rico em passado, mas sem futuro.

A União Europeia nasceu da promessa de que a integração traria paz e prosperidade. Por algum tempo, cumpriu essa promessa. Hoje, porém, enfrenta um paradoxo existencial: para sobreviver, precisaria aprofundar a união; mas quanto mais tenta fazê-lo, mais desperta as forças centrífugas do nacionalismo.

Entre a utopia federalista e o retorno às soberanias nacionais, a Europa parece condenada a um meio-termo paralisante. Seu colapso, portanto, não será um ato, mas um processo — e talvez já tenha começado.


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