Equipe World on the Wire
O WoW mergulha na República Democrática do Congo, onde o governo, acossado por seguidas derrotas para a milícia M23, vê na negociação de terras raras sua mais valiosa moeda de troca para reverter a situação.
(Texto publicado originalmente em 18 de abril de 2025)


“O que está em jogo não é a integridade ou segurança da RDC, mas o futuro energético do planeta. “
Por Radamés Perin.
Durante décadas, a República Democrática do Congo (RDC) tem sido palco de uma das mais complexas, violentas e negligenciadas crises geopolíticas do mundo contemporâneo. À sombra de grandes disputas internacionais, o país foi transformado em um tabuleiro instável onde se entrecruzam interesses locais, rivalidades étnicas, disputas regionais e, acima de tudo, a cobiça global por seus imensos recursos naturais. Os conflitos no leste do Congo não são apenas uma tragédia humana ou um caso de falência institucional — eles são também uma peça-chave no entendimento da luta global pelo controle de matérias-primas estratégicas, como cobalto, coltan e ouro, essenciais para a economia digital e a transição energética do século XXI.
Para entender o momento atual, é necessário recuar algumas décadas. Após a queda de Mobutu Sese Seko em 1997, resultado direto da Primeira Guerra do Congo — um conflito transnacional alimentado pelos resquícios do genocídio em Ruanda — a RDC mergulhou num ciclo de instabilidade crônica. A chamada Segunda Guerra do Congo, que se estendeu de 1998 a 2003, envolveu nove países africanos e dezenas de milícias locais, sendo por vezes referida como a “Grande Guerra da África”. Mesmo com o fim formal do conflito, o leste do país nunca conheceu verdadeira paz. O vácuo de poder, a ausência de infraestrutura estatal efetiva e a abundância de riquezas minerais transformaram essa região em terreno fértil para a proliferação de grupos armados.
Entre esses grupos, o Movimento 23 de Março (M23) emergiu como um dos mais sofisticados e controversos. Formado majoritariamente por tutsis congoleses, muitos dos quais haviam integrado o CNDP (Congrès National pour la Défense du Peuple) e depois sido incorporados às Forças Armadas da RDC como parte de um acordo de paz em 2009, o M23 alegou que o governo congolês havia violado os termos do acordo. Em 2012, o grupo rebelou-se, travou combates intensos com o exército e chegou a ocupar Goma, capital da província de Kivu do Norte, durante uma semana. A ofensiva foi sufocada em 2013 por uma ação conjunta do exército congolês e de uma brigada de intervenção da ONU, mas o grupo nunca desapareceu completamente.
Após anos de relativo silêncio, o M23 ressurgiu com força a partir de 2021. Seu reaparecimento coincidiu com uma nova onda de tensões étnicas e, sobretudo, com uma crescente competição internacional pelos minerais do leste congolês. A nova ofensiva do grupo revelou não apenas uma impressionante capacidade de reorganização militar, com armamento moderno, disciplina tática e logística eficiente, mas também indicativos cada vez mais claros de apoio externo. O governo congolês tem reiteradamente acusado Ruanda de fornecer suporte direto ao M23, uma alegação respaldada por relatórios de especialistas da ONU e por organizações de direitos humanos. Ruanda, por sua vez, nega qualquer envolvimento, acusando Kinshasa de conivência com milícias hutus ligadas ao genocídio de 1994, como as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), que ainda operam em território congolês.

A atual escalada tem implicações que vão muito além da rivalidade étnica ou da disputa por autonomia local. O território que o M23 ocupa ou busca controlar é extremamente rico em minerais estratégicos. A RDC detém aproximadamente 60% das reservas mundiais conhecidas de cobalto, insumo crucial para a fabricação de baterias de carros elétricos, smartphones e sistemas de armazenamento de energia. Além disso, o solo congolês guarda vastas quantidades de coltan, estanho e ouro, recursos de altíssimo valor no mercado internacional. Não é por acaso que o conflito no Kivu atrai não apenas o olhar atento de países vizinhos, mas também de grandes potências globais, como China, Estados Unidos e membros da União Europeia.
A presença chinesa na mineração congolesa tem sido dominante nos últimos quinze anos. Através de uma combinação de investimentos bilionários, parcerias com empresas locais e contratos diretos com o governo, Pequim consolidou uma posição estratégica sobre cadeias de suprimento de minerais críticos. Em contrapartida, os Estados Unidos e a União Europeia têm buscado alternativas que reduzam sua dependência da China. Iniciativas como o “Partnership for Global Infrastructure and Investment”, liderado pelos EUA e seus aliados do G7, visam criar cadeias de fornecimento “responsáveis”, o que implica em rastreabilidade, sustentabilidade e extração ética. No entanto, esses objetivos colidem com a realidade de um território profundamente fragmentado, onde o controle efetivo de minas frequentemente está nas mãos de milícias armadas.
É nesse contexto que a presença do M23 assume contornos ainda mais relevantes. Ao dominar áreas produtoras de minerais estratégicos, o grupo não apenas adquire capacidade de financiar suas operações militares, mas também se torna um ator central em um jogo geopolítico mais amplo. A instabilidade local transforma-se, assim, em fator de influência nas relações internacionais, podendo alterar a dinâmica de preços e a oferta global de recursos indispensáveis à economia verde.
A situação se complica ainda mais com a retirada progressiva da missão da ONU no Congo (MONUSCO), prevista para ser concluída até o fim de 2024. Criada com o objetivo de estabilizar a região e apoiar as autoridades congolesas, a missão foi alvo de críticas por sua ineficácia diante do crescimento das milícias. Mesmo assim, sua saída representa um vácuo de segurança significativo, que poderá ser rapidamente explorado por grupos como o M23 e outros atores armados. A possibilidade de um colapso ainda maior na segurança regional preocupa não apenas os congoleses, mas também os países fronteiriços e os investidores internacionais.
Diante desse cenário, não se pode descartar a hipótese de que potências estrangeiras — direta ou indiretamente — recorram à proteção armada privada para garantir o acesso contínuo a minas estratégicas. Empresas Militares Privadas (EMPs), como já ocorreu no passado em outras partes da África, podem emergir como agentes de estabilização seletiva, operando em parceria com governos locais ou corporações internacionais. Tal movimento, contudo, acentuaria a privatização da segurança e a fragilização do Estado congolês, reforçando um ciclo de dependência e fragmentação que mina qualquer possibilidade de reconstrução institucional no longo prazo.
Paralelamente, a crise tem gerado atritos diplomáticos de grandes proporções. Kinshasa cortou relações com Kigali em diversas ocasiões, enquanto Ruanda intensificou sua retórica de defesa e acusou a RDC de abrigar elementos genocidas. Uganda, outro ator regional com histórico de intervenções no Congo, também permanece como uma incógnita — por vezes cooperando com Kinshasa contra grupos como o Estado Islâmico na região de Ituri, e por vezes sendo acusado de conivência com redes ilegais de mineração.
A nível regional, há uma clara fragmentação institucional. A Comunidade da África Oriental (EAC), que chegou a enviar uma força regional para estabilizar o leste do Congo, enfrenta dificuldades logísticas, falta de consenso político e desafios operacionais. Já a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), liderada por Angola e África do Sul tenta oferecer uma alternativa mais robusta, mas ainda carece de eficácia prática. O risco de sobreposição de mandatos, agendas conflitantes e competição entre blocos regionais aumenta, o que dificulta a construção de uma solução africana coesa para o impasse.
As possibilidades de desfecho, portanto, oscilam entre cenários de contenção parcial e agravamento generalizado. A opção por uma negociação direta com o M23, mediada por atores como a União Africana ou por potências neutras, poderia conduzir a um cessar-fogo temporário, mas implicaria em concessões políticas que Kinshasa até o momento se recusa a fazer. Por outro lado, a intensificação das operações militares por parte do exército congolês, sem um apoio internacional coeso, tende a agravar o sofrimento civil, deslocar populações e prolongar a guerra de posições que domina o Kivu há mais de duas décadas.
No fundo, o que está em jogo no leste da RDC não é apenas a integridade territorial do país ou a segurança de suas comunidades — mas sim o controle do futuro energético e tecnológico do planeta. A disputa por minerais como o cobalto e o coltan, em um mundo que caminha rapidamente para a digitalização total e a eletrificação da mobilidade, transforma cada quilômetro de solo congolês em um campo de batalha invisível, onde decisões locais reverberam em cadeias produtivas globais.
Se o mundo não reconhecer o valor humano e geopolítico do Congo além de suas jazidas, continuaremos assistindo a uma guerra em câmera lenta que, embora relegada às margens das manchetes, molda silenciosamente o equilíbrio de poder no século XXI.

“A pressa em garantir concessões tem gerado perda de biodiversidade, deslocamento de comunidades e ilegalidades.”
Por Gabriel Sabino.
Entre 1760 e 1780, a humanidade desenvolveu o primeiro grande motor capaz de vencer a força da natureza: a máquina a vapor. Foi ali, sob a implacável pressão do vapor sobre o pistão, que os alicerces arcaicos do trabalho manual deram lugar a complexos conjuntos de rodas dentadas e correias, inaugurando a Revolução Industrial. Mas essa transformação não ocorreu no vácuo: tão decisivo quanto o engenho humano foi o carvão — o “combustível negro” que, ao queimar, liberava a energia necessária para mover fábricas e locomotivas.
Nas décadas seguintes, o mundo aprendeu que avanço tecnológico e disponibilidade de recursos naturais formam uma dupla indissociável. Com o esgotamento gradual das reservas de carvão, surgiu a “corrida pelo petróleo”: esse novo fluido vital prometia o mesmo poder e progresso que o vapor trouxera — mas gerou também conflitos e dependências geopolíticas inéditas. A perfuração de poços comerciais em 1859, nos EUA, marcou o início de uma disputa que redesenhou fronteiras, motivou os embargos de 1973 e 1979 e consolidou as “Sete Irmãs” como guardiãs das reservas globais. Em cada fase, o recurso energético — fosse carvão ou petróleo — tornou‑se sinônimo de segurança nacional e influência externa, especialmente no Oriente Médio.
Hoje, o imponderável não é mais o petróleo, mas as terras raras: elementos microscópicos, concentrados em minérios de regiões remotas e desafiadoras, porém essenciais para ímãs de alto desempenho, baterias de íons‑lítio e semicondutores. Quando potências lançam seus olhos sobre os depósitos africanos, desenha‑se um novo “jogo do ouro moderno”. Tal como o carvão alimentou pioneiros ingleses e o petróleo lubrificou impérios e guerras, as terras raras movem drones, smartphones e satélites — e agora o mundo volta-se para a África, não mais apenas para o Oriente Médio.

O motor da atual era não é mais a chama, mas os ímãs de neodímio, as baterias de lítio e os circuitos eletrônicos — todos dependentes de terras raras. A África abriga jazidas promissoras em locais como Ngualla (Tanzânia), Kangankunde (Malawi) e Steenkampskraal (África do Sul). Segundo o professor Robin Harmer no estudo “Rare Earth Deposits of Africa” (2016), até 2015 havia 11 projetos avançados no continente, capazes de suprir várias vezes a demanda não‑chinesa e diminuir o quase‑monopólio que a China mantinha (≈ 95 % da oferta em 2010). Esses empreendimentos não são meras curiosidades geológicas, mas peças‑chave na estratégia de segurança tecnológica de Estados Unidos, União Europeia e Japão, que buscam diversificar fontes e impedir que embargos ou choques de oferta paralisem indústrias críticas.
Por outro lado, os professores James Boafo e Jacob Obodai no estudo “The race for critical minerals in Africa: A blessing or another resource curse?” (2024) demonstram que, apesar do entusiasmo com “novas frentes de extração”, as “declarações de urgência” sobre terras raras geralmente servem a interesses geoestratégicos externos, e não ao desenvolvimento africano propriamente dito. A pressa em garantir concessões — muitas vezes sem planejamento de longo prazo — tem causado perda de biodiversidade em ecossistemas frágeis, deslocamento de comunidades tradicionais sem compensações adequadas e o surgimento de ilegalidades, como disputas locais por licenças e royalties, por exemplo, na República Democrática do Congo (RDC), abordada pelo colega Radamés Perin acima.
Em suma, a “corrida” pelas terras raras africanas configura‑se sobretudo como um movimento geopolítico estratégico. Nas últimas décadas, Estados Unidos, União Europeia e Japão têm identificado na África uma alternativa vital para reduzir sua dependência da China e proteger suas cadeias de suprimento de tecnologias críticas. Esse esforço vai além de simples acordos comerciais: envolve investimentos em infraestrutura, concessões de licenças e parcerias governamentais que reforçam o protagonismo externo na definição de quando, onde e como avançam os projetos de mineração. Como aponta o professor James Boafo, tais “declarações de urgência” muitas vezes alinham interesses econômicos e de segurança nacional em detrimento do protagonismo africano e de uma governança local sólida.
Se, por um lado, a exploração de terras raras pode alavancar o desenvolvimento — por meio de receitas fiscais e transferência de tecnologia —, por outro, ela reproduz padrões históricos de dependência: o fornecedor de matéria‑prima permanece à margem das cadeias de valor de maior agregação. Nesse contexto, a verdadeira conquista geopolítica para a África dependerá de fortalecer sua capacidade regulatória e sua visão estratégica de longo prazo, garantindo que o controle desses recursos se traduza em desenvolvimento sustentável e soberania tecnológica para o continente.

“O domínio chinês sobre o mercado faz das terras raras seu trunfo na busca por hegemonia não apenas regional, mas global.”
Por Vítor Ribeiro.
O que faz uma “guerra mundial” efetivamente “mundial”?
Seria este meramente um conceito geográfico, ou seja, sua distribuição por diferentes campos de batalha, com conflitos ocorrendo simultaneamente em diversas regiões do globo, como se deu nos palcos ocidental, oriental e africano entre 1914 e 1918? Ou teria ele relação com alianças rígidas, que por vezes puxaram atores para embates que sequer desejavam, como lamentou o Conde Ciano, Ministro das Relações Exteriores italiano de 1936 a 1943?
Ciência humana que é, a história não aprecia camisas de força. A objetividade matemática é rara e nunca passa sem contestação. O mesmo vale para o questionamento anterior, para o qual um sem número de definições, fatores e variáveis já foi proposto. Escopo e número de envolvidos, por sua correlação e análise simples, tendem a se destacar. Outras óticas, porém, também são possíveis. Consideremos, por exemplo, os objetivos.
Em 1947, ao solicitar ao congresso americano a aprovação de um pacote de US$ 400 milhões de dólares – à época, valores que hoje superam US$ 5 bilhões – para combater o avanço comunista na Turquia e na Grécia, o então presidente Harry Truman afirmou que deveria ser política americana o “apoio a povos livres que resistem a tentativas de subjugação por minorias armadas ou pressões externas”. Com o objetivo de evitar que a falta de liderança americana colocasse em perigo “a paz mundial”, os EUA se lançaram em uma cruzada mundial, estimulando política, econômica e militarmente nações, governos, movimentos de resistência, “povos livres” e – vez ou outra, por que não? – “minorias armadas” e “pressões externas”.
Do outro lado do Atlântico, Josef Stalin, para quem supostamente “a liberdade verdadeira só existe onde a opressão foi abolida”, poderia ter proferido tradução praticamente literal do discurso de Truman a seus camaradas de Politburo. Em sua marcha para cruzar a fronteira entre “o velho mundo capitalista” e o “novo mundo socialista”, a URSS não mediu esforços para “extinguir a exploração de uns sobre os outros”, mesmo que no caminho precisasse – vez ou outra, por que não? – de um pouco de “opressão”, sobre “uns” e sobre “outros”. A empreitada custou caro, com o orçamento militar, só em 1988, ultrapassando US$128 bilhões, valor hoje ajustado para mais de US$300 bilhões.
Apesar de marcado por adjetivo mais afeito ao termômetro que ao mapa, o embate que nasceu do choque de objetivos similares envolveria o globo, aquecendo conflitos em todos os continentes. A disputa indireta entre seus protagonistas, porém, que raramente pousaram “boots at the same time on the same ground” evidenciaria como a guerra é, sobretudo, uma disputa econômica.
A capacidade econômico-industrial é, por óbvio, menos interessante que movimentos de tropas e assaltos militares, mas é a munição que sustenta todas as demais. O bloqueio dos unionistas às exportações dos estados do Sul durante a Guerra Civil americana fez desabar o valor dos títulos dos Confederados, privando-os de uma de suas principais fontes de financiamento. Recentemente, ao anunciar seu Liberation Day, Donald Trump destacou, como parte das justificativas para impor tarifas, que a capacidade industrial, mais que qualquer tática militar, permitiu aos EUA vencer a Segunda Guerra Mundial.
A verdade é que soldados são a ponta de lança, a face visível – e humana – de uma disputa travada em escritórios, com capitais, financiamento e – para o terror geral – planilhas de Excel. Genialidade militar é essencial, mas o que pende a balança é a capacidade de manter a máquina girando, escavando recursos, cuspindo suprimentos, armas e munições.
Hoje, ao analisar o desenrolar de conflitos em diferentes geografias, do coração da África, passando pelo frio do Donbass, e chegando ao calor das selvas do sudeste asiático, vemos dinâmica semelhante se repetir. Potências firmando acordos, disputando recursos econômicos por procuração, alimentando conflitos que têm tudo de mundial, menos a classificação.
Entre idas e vindas, a República Democrática do Congo (RDC) sangra há mais de duas décadas. Emulando práticas coloniais – certo e errado, afinal, são subjetivos por essência -, seus vizinhos vêm infligindo no segundo maior país do continente uma versão local made da “Partilha da África”. Agora, porém, com o avanço tecnológico promovendo a busca por novos recursos, os grandes voltaram – e será que algum dia de fato saíram? -, ávidos por sua parcela do butim. Um recurso em particular coloca China e EUA frente a frente: as terras raras.
A instrumentalidade deste minérios não está na expressividade de seu mercado. Mesmo em expansão acelerada, com projeções de crescimento anualizadas na casa de 12% entre 2024 e 2029, seu valor pouco superará US$10 bilhões nos próximos anos. A relevância jaz em dois outros fatores: sua indispensabilidade à revolução tecnológica e energética em curso – impulsionando de cabos de fibra óptica, smartphones e equipamentos médicos a data centers, carros elétricos e aplicações militares – e o quase monopólio por um único ator.
O domínio chinês sobre o mercado incomoda seus adversários, que temem se tornar reféns do gigante asiático. Hoje, a China responde por 60% da extração e 90% do processamento. Em certos grupos, como o refino de elementos pesados – as terras raras são divididas, com base em seu número atômico e propriedades, em leves, médias e pesadas -, esse controle pode chegar a 99%. Entusiasmada a atestar os receios alheios, no último 4 de abril, Pequim anunciou restrições à exportação de 7 minérios de terras raras.
Os impactos, especialmente para os EUA, podem ser severos. O país importa mais de 70% de suas terras raras da China. Mesmo nos casos em que o refino é realizado em nações – teoricamente – aliadas, como França e Japão, os insumos são originários do país asiático. Até mesmo a única mina de terras raras localizada em solo americano envia o minério para processamento na China.

Nesse ponto, fica claro novamente como conflitos e economia são indissociáveis. Considerando o quão cruciais os elementos são para a indústria de defesa – caças, submarinos, drones, radares e bombas, todos dependem dos suprimentos -, Pequim tem nas terras raras provavelmente sua melhor carta na competição por hegemonia global.
Esta conjuntura abre oportunidades para fornecedores e projetos alternativos ganharem terreno. O Departamento de Defesa americano anunciou a alocação de até US$439 milhões de dólares para desenvolver uma cadeia de suprimentos independente até 2027. Colocar de pé essa indústria, porém, integrando extração, processamento e envio, demanda não apenas capital, mas também tempo, know-how e uma generosa dose de paciência. Ao longo desse período, a China, em posição confortável e com anos de experiência, terá força suficiente para influenciar o mercado, minando a viabilidade econômica de projetos e sufocando iniciativas.
Bem atrás na corrida, os EUA se voltam então para opções mais controversas, que possam aumentar a oferta, reduzir os custos e manter a atratividade dos projetos. O possível acordo com a RDC surge nessa ótica. Alegando que hoje os EUA adquirem de Ruanda recursos minerais “saqueados da RDC”, Félix Tshisekedi, presidente do país, propôs aos americanos a compra direta de Kinshasa, sua “verdadeira proprietária”. Em contrapartida, o governo local exige “cooperação na segurança”, o que poderia levar a um cessar-fogo em termos melhores e a linhas de financiamento internacionais às quais o país africano tenta desesperadamente acessar.
A validade de acordos do tipo “minério por segurança” – o governo americano trabalha em um similar com a Ucrânia – carrega riscos significativos. No caso da RDC, a proposta envolveria expressivos investimentos americanos em um ambiente de negócios difícil, marcado por insegurança jurídica e corrupção sistêmica. Pagamento de propinas e conluio para obter contratos do governo são disseminados, o que pode afastar grupos empresariais, que temem acabar enredados em leis americanas de combate à corrupção internacional. Nesta conjuntura, o prêmio de risco simplesmente não se paga. Além disso, o principal recurso oferecido pelo país africano, o cobalto, tem hoje menos atratividade, tanto pelo distanciamento americano da transição energética quanto pelo próprio progresso tecnológico que vem reduzindo a demanda pelo metal.
A real vantagem do acordo seria combater a crescente influência chinesa na África. Aqui, o objetivo vai além de simplesmente distanciar a China de um de seus fornecedores, mas engloba também o aumento da presença americana na RDC e o lobby direto para evitar que ativos de infraestruturas relevantes, como portos, aeroportos e minas, sejam controlados por Pequim. No entanto, essas ‘oportunidades’ exigirão participação financeira e política significativa do Tesouro americano, sem qualquer garantia de retorno. Vietnã e Afeganistão, guardadas as proporções, são ecos nada auspiciosos de empreitadas similares anteriores.
Guerras mundiais não surgem de uma simples ânsia coletiva em trocar tiros. Não é como se vários clubes de futebol se juntassem e resolvessem organizar um campeonato. Em geral, os conflitos se alastram pela vontade de poucos atores muito influentes. Os demais tendem a ser tragados por eles. Seja por senso de oportunidade ou falta de opção, o determinante são os objetivos, e estes, para serem alcançados, demandam recursos, que estão espalhados mundo afora. No final das contas, pouco importa se ganham ou não o adjetivo. Quando as potências se envolvem, toda guerra é mundial.
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