Egito e Sudão apoiam mediação dos Estados Unidos no impasse da barragem do Nilo. Disputa se arrasta e provoca apreensão no Nordeste da África.

As águas do Nilo voltaram a ferver na diplomacia internacional. A disputa em torno da maior hidrelétrica da África reacendeu tensões regionais e abriu espaço para o retorno dos Estados Unidos como mediadores em um dos conflitos geopolíticos mais sensíveis do continente africano.
Egito e Sudão receberam, no último sábado (20), a oferta do presidente Donald Trump para retomar a mediação entre seus países e a Etiópia sobre a Grande Barragem do Renascimento Etíope, inaugurada em 2025. O projeto, localizado no oeste etíope, é visto por Addis Abeba como símbolo de soberania econômica, mas tratado pelos países rio abaixo como ameaça direta à sua segurança hídrica e alimentar.
A usina tem capacidade estimada entre 5.000 e 6.000 megawatts e praticamente dobra a geração de energia da Etiópia, país onde cerca de 60 milhões de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade. Para o governo etíope, trata-se de uma “vitória geracional”. Para o Egito, que depende do Nilo para abastecer 95% de sua população concentrada ao longo do rio, o projeto representa risco existencial.
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O impasse é antigo. Tratados firmados em 1902, 1929 e 1959 garantiram ao Egito ampla primazia sobre as águas do Nilo, mesmo com até 85% do fluxo vindo das terras altas etíopes. A construção da barragem, iniciada em 2011, foi o primeiro grande desafio a esse arranjo histórico. Tentativas de mediação envolvendo Estados Unidos, Banco Mundial, Rússia e Emirados Árabes Unidos fracassaram ao longo da última década.
O centro do conflito está na exigência egípcia e sudanesa de um acordo juridicamente vinculante sobre o enchimento e a operação do reservatório, capaz de evitar impactos em períodos de seca. A Etiópia resiste, alegando direito soberano ao desenvolvimento.
O Sudão, agora mergulhado em guerra civil, aproximou-se ainda mais do Cairo. Seu líder de fato, Abdel-Fattah Burhan, afirmou que a iniciativa norte-americana pode ajudar a encontrar “soluções sustentáveis e satisfatórias que preservem os direitos de todos”.
O presidente egípcio Abdel-Fattah el-Sisi também elogiou a iniciativa, destacando a “importância central da questão do Nilo para o Egito” e reiterando o compromisso com uma solução baseada no direito internacional.
Addis Abeba, por sua vez, permanece em silêncio.
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