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Discurso de soberania de Pedro Sánchez contrasta com o silêncio da Espanha sobre o Saara Ocidental. Entre idas e vindas, Madri agora apoia o Marrocos por conveniência estratégica.

Imagem: Jakub Gavlak/EPA

Recentes declarações do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez sobre soberania internacional reacenderam acusações de incoerência na política externa da Espanha. O foco das críticas seria a hipocrisia espanhola na questão do Saara Ocidental.

Ao criticar a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela e alertar contra o que chamou de violações de soberania, Sánchez afirmou que o respeito a territórios como Venezuela, Gaza, Ucrânia ou Groenlândia seria “não negociável”. A retórica, no entanto, contrasta com a postura adotada por Madri em relação ao Saara Ocidental, ex-colônia espanhola cuja situação jurídica segue pendente no direito internacional.

Embora tenha se retirado formalmente do território em 1975, a Espanha mantém controle sobre o espaço aéreo do Saara Ocidental, território localizado na costa atlântica da África, ao sul do Marrocos. A região é palco de uma longa disputa entre Rabat e a Frente Polisário, grupo local que defende a independência da área.

Em 2024, o Tribunal de Justiça da União Europeia reafirmou que o território é juridicamente distinto do Marrocos e que qualquer decisão sem o consentimento do povo saaraui, nativo da região, é ilegal. Mesmo após o veredito, o governo espanhol evita abordar o tema de forma pública e consistente.

O episódio expõe a dificuldade da esquerda europeia em sustentar discursos morais universais quando interesses estratégicos e pressões regionais entram em cena.

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A ambiguidade ficou mais evidente após a guinada diplomática de 2022, quando Sánchez passou a apoiar o plano marroquino de autonomia para o Saara Ocidental, posição também defendida pelos Estados Unidos e pela França.

Em dezembro de 2025, Madri reiterou esse apoio durante a 13ª Reunião de Alto Nível entre Espanha e Marrocos, exaltando as reformas conduzidas pelo rei Mohammed VI e celebrando uma parceria estratégica baseada em segurança, migração e combate ao terrorismo.

O controle das rotas migratórias e a cooperação policial no Mediterrâneo permitem a Rabat exercer influência significativa sobre Madri. O silêncio espanhol sobre o Saara, portanto, revela menos prudência diplomática e mais conveniência política.

“O debate sobre o controle do espaço aéreo não é apenas técnico, é profundamente político”, afirmou o ex-coronel do Exército espanhol Alfredo Rodríguez.

A frase resume um dilema que o governo espanhol evita enfrentar: defender a soberania como princípio abstrato é simples; aplicá-lo quando há custos estratégicos reais é outra história.

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