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O interesse na Groenlândia revive a tradição expansionista dos Estados Unidos, baseada em compras territoriais, pressão militar e esferas de influência.

Imagem: Howard Chandler Christy

A ideia de os Estados Unidos adquirirem a Groenlândia, ventilada por Donald Trump, soou excêntrica para parte da opinião pública internacional. Para historiadores, no entanto, trata-se menos de uma excentricidade e mais de um retorno a uma tradição antiga da política externa norte-americana: a expansão territorial por meio de cheques, pressão diplomática e, quando conveniente, força militar.

Desde o início do século XIX, os Estados Unidos cresceram comprando território de potências europeias em declínio. A compra da Louisiana da França em 1803, por US$ 15 milhões, marcou o início de uma era que seguiria com a incorporação da Flórida, adquirida da Espanha em 1819, do Alasca, comprado do Império Russo em 1867, e, mais tarde, das Filipinas, obtidas da Espanha em 1898.

Oficialmente, mais de 40% do território norte-americano foi adquirido dessa forma, frequentemente sob protestos do Congresso e sempre com a ameaça militar à espreita.

“A ideia de adquirir a Groenlândia não é nova. Ela existe desde o século XIX”, afirmou Henry William Brands Jr., professor da Universidade do Texas em Austin e especialista em história norte-americana. Segundo ele, o interesse estava ligado à compra do Alasca.

“Alguns estrategistas norte-americanos acreditavam que, ao adquirir o Alasca no oeste e a Groenlândia no leste, isso colocaria pressão sobre o Canadá britânico, o verdadeiro prêmio.”

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Washington chegou a tentar anexar o Canadá duas vezes, durante a Guerra de Independência, em torno de 1777, e na Guerra de 1812, mas foi contido pela proteção britânica.

A compra do Alasca, negociada pelo então secretário de Estado William Seward por US$ 7,2 milhões (aproximadamente US$ 160 milhões na cotação atual), foi recebida com escárnio e ficou conhecida como “a loucura de Seward”. A reação negativa foi tamanha que, segundo Brands, afastou qualquer ambição imediata sobre a Groenlândia. O contexto também havia mudado: naquele mesmo ano, o Reino Unido concedeu autonomia ao Canadá, tornando inviável qualquer discurso de “libertação”.

A preferência norte-americana por comprar territórios, em vez de simplesmente conquistá-los, tinha vantagens estratégicas. Evitava guerras diretas com grandes potências europeias, conferia aparência de legitimidade às aquisições e reforçava a ideia de excepcionalismo.

“Os norte-americanos se orgulhavam dos territórios que haviam ocupado e desenvolvido”, explicou Brands, citando o crescimento populacional do antigo território de Ohio como exemplo dessa mentalidade.

Isso não impediu contradições profundas. Quando o dinheiro não bastava, a guerra cumpria seu papel. O presidente James Polk provocou deliberadamente o conflito com o México para anexar a Califórnia e outros territórios do norte mexicano. “Polk estava claramente procurando um pretexto para a guerra”, disse Brands. Ao fim do conflito, Washington pagou uma indenização ao México e apresentou a conquista como uma compra.

“Eles diziam ‘não estamos conquistando o México, estamos comprando’, só que com uma arma apontada para o negociador mexicano.”

A lógica expansionista ignorava por completo o direito dos povos à autodeterminação. Indígenas, mexicanos, alasquianos e outros habitantes jamais foram consultados. No caso da Groenlândia, Brands observa que “o que a administração Trump tenta fazer é voltar o relógio para um tempo anterior, quando o que as pessoas que viviam ali pensavam não fazia diferença”.

O desconforto norte-americano com o colonialismo também faz parte dessa história. Após a incorporação das Filipinas, a experiência se revelou custosa, violenta e politicamente desgastante. “Os norte-americanos descobriram, depois da dolorosa experiência de governar as Filipinas, que ser uma potência colonial é uma tarefa ingrata”, afirmou Brands.

Trump, contudo, parece àvido a resgatar a tradição segundo a qual os Estados Unidos exercem poder de polícia no Hemisfério Ocidental. Para o historiador, o risco atual é ainda maior.

“Se tropas norte-americanas forem enviadas à Groenlândia, eu realmente teria de perguntar se Trump está tentando deliberadamente destruir a OTAN”, disse Brands. “Isso atingiria todo o fundamento da segurança ocidental desde os anos 1940. De repente, estaríamos falando de Terceira Guerra Mundial novamente.”

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