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Equipe World on the Wire

O World on the Wire viaja à península arábica para examinar as medidas adotadas pela Arábia Saudita com vistas à transformar o presente e o futuro do reino.

(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 13 DE JUNHO DE 2025)

Imagem: The New York Times

“A Arábia Saudita busca consolidar sua posição como eixo de uma arquitetura de segurança regional.”

Por Radamés Perin.

Por décadas, a Arábia Saudita foi percebida principalmente como uma potência econômica, sustentada pela vasta receita do petróleo e pela aliança estratégica com os Estados Unidos. A imagem dominante era a de um bastião conservador do mundo islâmico, mais preocupado em garantir a estabilidade interna e manter seu status geopolítico por meio de sua diplomacia petrodolarizada do que em projetar força militar de forma autônoma. No entanto, nas duas primeiras décadas do século XXI, essa percepção começou a mudar de maneira silenciosa, mas estratégica. O reino iniciou uma transformação ambiciosa, reposicionando-se como ator militar relevante, embora ainda enfrentando sérias limitações estruturais, dilemas estratégicos e um ambiente regional marcado por tensões prolongadas.

O catalisador mais evidente dessa mudança foi o envolvimento direto da Arábia Saudita na guerra civil do Iêmen. Em 2015, sob a liderança do então recém-emergido príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, Riad lançou a operação “Tempestade Decisiva”, à frente de uma coalizão árabe que interveio no conflito iemenita com o objetivo de deter a ascensão dos houthis — grupo rebelde xiita apoiado logisticamente pelo Irã. A campanha foi pensada como uma ofensiva curta e contundente, capaz de restaurar rapidamente o governo reconhecido internacionalmente em Sanaa. No entanto, oito anos depois, o conflito permanece sem solução clara, tendo se tornado um atoleiro de proporções estratégicas, políticas e humanitárias.

O prolongamento da guerra evidenciou as vulnerabilidades das forças armadas sauditas. Apesar de um dos orçamentos de defesa mais generosos do planeta e da aquisição de equipamentos de ponta — caças F-15, mísseis guiados, sistemas Patriot —, o reino se mostrou incapaz de lidar com um inimigo assimétrico, bem adaptado ao terreno e dotado de crescente capacidade tecnológica. Os houthis não apenas resistiram à ofensiva, como passaram a atacar diretamente o território saudita. Utilizando drones e mísseis balísticos, os rebeldes atingiram oleodutos, aeroportos e refinarias, impondo desgaste militar e embaraço estratégico à monarquia. O episódio mais emblemático ocorreu em setembro de 2019, quando ataques coordenados — atribuídos aos houthis com apoio iraniano — paralisaram temporariamente metade da produção de petróleo saudita ao atingirem as instalações da Aramco em Abqaiq e Khurais. O impacto simbólico foi profundo: revelou que os bilhões gastos em defesa não haviam garantido ao reino uma capacidade real de proteção de seus ativos mais vitais.

Esse choque levou a uma reavaliação profunda da doutrina militar saudita. Tornou-se evidente que não bastava comprar armas sofisticadas — era preciso desenvolver uma estrutura nacional capaz de operar, integrar e, sobretudo, produzir seus próprios meios de defesa. A partir de 2017, essa percepção passou a guiar uma das frentes centrais do programa Vision 2030: a construção de uma base industrial de defesa autônoma. Sob a liderança de bin Salman, o país criou a Saudi Arabian Military Industries (SAMI), uma holding estatal dedicada ao desenvolvimento da indústria militar local, à formação de quadros técnicos e à celebração de joint ventures com empresas estrangeiras. Lockheed Martin, Boeing e BAE Systems já figuram entre os parceiros da SAMI, que iniciou a fabricação de componentes de drones, veículos blindados e munições. Embora o país ainda dependa em grande medida da expertise externa, a ambição declarada é que ao menos 50% dos gastos com defesa sejam internalizados até o fim da década.

Paralelamente à industrialização da defesa, o reino tem investido em reformas estruturais nas Forças Armadas. Treinamentos mais frequentes, integração entre Exército, Marinha e Força Aérea, e a criação de centros de comando conjunto refletem uma tentativa de profissionalizar as estruturas militares. Uma Guarda Real foi estruturada com foco exclusivo na proteção da monarquia, evidenciando que, para Riad, a segurança militar é inseparável da sobrevivência do regime. Esse aspecto, aliás, é central para compreender a lógica saudita: os investimentos em defesa são tanto instrumentos de projeção regional quanto mecanismos de contenção interna. Após as convulsões da Primavera Árabe e diante do risco constante de dissidências palacianas, o aparato de segurança interna foi robustecido com tecnologia de vigilância, censura digital e repressão preventiva. A brutal execução do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, no consulado saudita em Istambul, escancarou ao mundo o grau de agressividade com que o regime lida com opositores — mesmo fora de suas fronteiras.

No plano externo, a Arábia Saudita busca consolidar sua posição como eixo de uma arquitetura de segurança regional. O reino procura liderar um bloco sunita capaz de conter a expansão do chamado “arco xiita”, formado por Irã, Hezbollah, milícias xiitas iraquianas, o regime sírio e os próprios houthis. Tentativas de formar uma aliança militar árabe nos moldes da OTAN, apelidadas de “NATO Árabe”, ainda não se materializaram plenamente, mas refletem a intenção de Riad de articular uma frente regional coordenada. Os laços com aliados tradicionais — como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito — foram intensificados, ao mesmo tempo em que, discretamente, o reino vem se aproximando de Israel em áreas como inteligência, cibersegurança e defesa antimísseis. Embora a normalização formal ainda não tenha ocorrido, os interesses convergentes frente ao Irã têm pavimentado essa cooperação estratégica informal.

Essa expansão do campo de atuação militar inclui também novas modalidades de guerra. A Arábia Saudita vem investindo em capacidades cibernéticas, guerra eletrônica e drones armados, reconhecendo que os conflitos contemporâneos não se dão apenas nos campos convencionais. Parcerias com empresas israelenses e americanas têm resultado na criação de centros de guerra cibernética e na aquisição de softwares avançados de vigilância. Após os ataques de 2019, o reino iniciou testes com sistemas antidrone e estuda a formação de unidades especializadas em guerra irregular e operações não convencionais. Essa evolução aponta para uma mudança significativa no pensamento estratégico saudita, que tenta se adaptar a um cenário em que ameaças assimétricas, híbridas e tecnológicas se tornam cada vez mais relevantes.

Embora ainda longe de ser uma superpotência militar, a Arábia Saudita já se consolidou como um dos principais atores bélicos do Oriente Médio. Seu orçamento de defesa está consistentemente entre os maiores do mundo, chegando a superar, em certos anos, os investimentos da Rússia. O desafio, no entanto, permanece na conversão desses recursos em eficácia operacional e autonomia estratégica. A experiência no Iêmen serviu de lição amarga, mas também como impulso para um ciclo de reformas militares que busca consolidar o poder do regime, proteger seus recursos e aumentar sua capacidade de dissuasão diante de rivais regionais.

Essa transição não é apenas técnico-militar. Ela é profundamente política. Ao transformar sua arquitetura de defesa, a monarquia saudita tenta garantir sua continuidade histórica em um Oriente Médio instável, onde velhas alianças se reconfiguram, novas tecnologias redistribuem o poder e o controle dos céus e das redes digitais se torna tão vital quanto o controle do território. A Arábia Saudita, em armas, busca não apenas um exército mais forte, mas também um trono mais seguro e um futuro mais previsível — em um mundo onde nenhuma dessas garantias pode mais ser comprada apenas com petróleo.

“A disputa por hegemonia regional impõe à Arábia Saudita um jogo de equilíbrio entre a ofensiva diplomática e a contenção estratégica.”

Por Gabriel Sabino.

“Nos Estados hereditários e afeitos ao sangue do seu príncipe, as dificuldades para mantê-los são bastante menores que nos novos.”

É com essa observação precisa que Maquiavel, em O Príncipe, introduz a vantagem política da continuidade dinástica em relação à instabilidade dos domínios recém-conquistados. Com base nessa premissa, e com o contexto atual, essa lógica se mostra surpreendentemente útil para interpretar os mecanismos de poder e reforma nos regimes do Golfo, especialmente na Arábia Saudita.

Diferente das democracias liberais, onde reformas estruturais costumam vir acompanhadas por disputas institucionais e muito barulho, os regimes monárquicos absolutistas operam sob outra lógica: a de uma autoridade central hereditária que, ao manter o controle absoluto, pode implementar mudanças profundas sem comprometer sua própria estabilidade. É nesse contexto que se insere o projeto Vision 2030, idealizado e liderado por Mohammed bin Salman, o famoso “MBS”. Sua proposta não é apenas modernizar a economia saudita, mas reconstruir os fundamentos simbólicos e estratégicos do reino em antecipação ao esgotamento progressivo da hegemonia petrolífera.

O artigo de Havrlant e Darandary (2021) nos dá uma visão clara de como essa transformação econômica está sendo operacionalizada. Usando uma matriz insumo-produto ajustada e o famoso índice de Shannon-Weaver – sim, aquele da diversidade que a gente vê na ecologia –, os autores demonstram que existe uma transição calculada do petróleo (que ainda responde por cerca de 40% do PIB real e mais de 70% da receita fiscal) para setores como manufatura de alta tecnologia, serviços e energia renovável. A diversificação, aqui, não é só uma resposta superficial às pressões externas, mas uma tentativa deliberada de alcançar resiliência estrutural frente aos ciclos muitas vezes insanos dos preços globais de commodities, como destacado abaixo.

Mas essa reconfiguração não é apenas econômica, como bem sabemos. Ela é também política, e seu sucesso depende da estabilidade do comando central. É nesse ponto que a hereditariedade, tratada por Maquiavel como uma das fontes mais sólidas de legitimidade, se transforma em ativo estratégico. O príncipe, ao contrário do conquistador, não precisa negociar cada passo com interesses dispersos. Ele governa a partir de um trono já aceito pela tradição e pelo hábito. Isso permite o lançamento de empreendimentos de grande escala e alto risco, como a cidade futurista de NEOM, o complexo de lazer de Qiddiya e as zonas turísticas do Mar Vermelho. Cada uma dessas iniciativas exige capital, tempo e coesão, três elementos que regimes fragmentados teriam dificuldade de, vamos dizer, conjugar.

Como todos sabem, porém, nenhuma reestruturação se sustenta apenas com engenharia econômica. Para atrair capital estrangeiro, turistas e investidores, é preciso também revisar a imagem internacional do país. A economia precisa ser convertida em narrativa. É aí que o futebol aparece não como distração, mas como ferramenta central de rebranding nacional. A conexão não é artificial: assim como a Arábia Saudita reorganiza seus setores produtivos, ela tenta reordenar seu imaginário global, afastando-se da imagem exclusivamente associada à austeridade religiosa, ao conservadorismo e ao petróleo.

Um estudo mais recente de Satish, Ginesta Portet e San Eugenio Vela, publicado em 2024, analisa como o regime saudita, por meio do Fundo de Investimento Público, utiliza o futebol como ativo estratégico. A aquisição do Newcastle United, a importação de atletas de elite, caso do português Cristiano Ronaldo, considerado por muitos como o melhor jogador de todos os tempos, e os investimentos em grandes eventos esportivos compõem uma política deliberada de visibilidade. Mais do que promover entretenimento, o futebol funciona como uma vitrine: transmite ao público global uma versão reformulada da Arábia Saudita, cosmopolita, moderna e culturalmente conectada. A análise dos autores, baseada em dados de redes sociais, confirma que essa estratégia tem produzido efeitos mensuráveis de alcance internacional, sobretudo no turismo e no interesse comercial.

O paralelismo com Dubai é inevitável. No início dos anos 2000, o emirado se projetou internacionalmente ao investir na construção de ilhas artificiais, como The Palm, que funcionaram como propaganda urbanística: não apenas infraestrutura, mas símbolo. O que Dubai fez com engenharia monumental, a Arábia Saudita tenta fazer com futebol. Em ambos os casos, trata-se de construir infraestruturas de prestígio, elementos espetaculares que sinalizam inovação e poder, e que ampliam o valor percebido do território para além do que ele representa fisicamente.

E é importante notar: esses dois eixos – o produtivo e o simbólico – não operam isoladamente. Eles se articulam dentro de uma lógica que faz muito sentido: a diversificação econômica exige uma nova imagem, e essa nova imagem, por sua vez, sustenta a viabilidade da própria diversificação. Nesse sentido, o futebol não está à margem do projeto Vision 2030; eu diria que ele é uma de suas expressões mais eficazes.

No entanto, toda essa transformação interna só pode ser sustentada se a estabilidade reverberar também em seu entorno. Como muito ouvimos: “ter uma plantação próspera de pouco adianta se ela estiver cheia de pragas.” A analogia faz muito sentido no contexto do Oriente Médio, onde a disputa por hegemonia regional impõe à Arábia Saudita um jogo de equilíbrio entre a ofensiva diplomática e a contenção estratégica.

O estudo “A política externa da Arábia Saudita, 2015-2022 – A era do pós-petróleo que tarda em chegar”, de Mathilde Silva Gonçalves (2023), mostra que desde 2015, com a ascensão de Mohammed bin Salman e a reconfiguração da política externa saudita, houve uma inflexão clara no comportamento regional do regime. A “era do pós-petróleo”, como ela chama, não é apenas uma mudança de matriz econômica, mas um novo arranjo geoestratégico que tenta projetar estabilidade em um tabuleiro onde o Irã, por meio de guerras por procuração, tem sistematicamente sabotado o equilíbrio regional, que ainda tem muito pano pra manga, principalmente diante das recentes possibilidades de desenvolvimento de armamento nuclear.

Um dos focos dessa tensão é o Iêmen. Lá, o conflito com os Houthis – milícia xiita alinhada ao Irã – tornou-se o epicentro de uma disputa indireta entre Riad e Teerã. Essa guerra, que já causou milhares de mortes e uma crise humanitária severa, é um exemplo claro de como a diversificação econômica saudita não pode prescindir de uma política externa assertiva. Afinal, como construir megaestruturas futuristas ou atrair fluxos turísticos sustentáveis se seus vizinhos estão em ruínas e mísseis ainda sobrevoam suas fronteiras?

Ao mesmo tempo, o reino flerta com uma reaproximação estratégica com Israel, que, embora silenciosa e sem normalização formal até o momento (o que causa ansiedade em Netanyahu), representa uma tentativa de compor um bloco de contenção frente à influência iraniana. A diplomacia saudita aqui opera em múltiplas frentes: protege sua imagem de liderança do mundo islâmico sunita enquanto sinaliza, para os EUA e seus aliados ocidentais, que está alinhada com os interesses de segurança regional.

A lógica é clara: para que o projeto Vision 2030 seja viável, não basta diversificar a economia e reformar a imagem. É preciso garantir que essa nova ordem não seja corroída por ameaças externas. E nesse ponto, a centralização hereditária de poder novamente oferece uma vantagem: permite ações rápidas, coordenação militar concentrada e uma política externa unificada – algo difícil de se alcançar em sistemas políticos mais fragmentados.

Maquiavel avisava, e com razão: “Deve-se notar que nada é mais difícil de conduzir, mais duvidoso de obter êxito, nem mais perigoso de manejar do que iniciar uma nova ordem de coisas.” Essa é a tensão que todo reformador enfrenta. No caso saudita, esse risco é moderado pelo fato de que a ordem nova é conduzida pelo próprio herdeiro da ordem antiga. O príncipe, neste cenário, não governa contra a tradição, mas a partir dela. E isso lhe permite reinventar seu domínio sem romper com ele.

O sucesso dessa transição, no entanto, dependerá de até que ponto a modernização da economia e da imagem externa será acompanhada por uma transformação interna real. Porque há um limite para o que o futebol pode representar e para o quanto o capital externo pode sustentar. O príncipe, mesmo o hereditário, deve sempre lembrar que a estabilidade não se dá apenas pela aparência do novo, mas pela solidez com que ele se assenta sobre o velho.

“Por meio do esporte, o Reino busca reformular sua imagem internacional, aumentar seu soft power e abrir novos canais de negociação.”

Por Fernando Gonçalves.

Por décadas, a Arábia Saudita foi mundialmente associada ao petróleo. Riqueza que moldou profundamente sua economia, condicionou sua influência geopolítica e seu papel no cenário internacional. No entanto, diante dos desafios econômicos decorrentes das mudanças no mercado global de energia e da crescente pressão para modernização, o país iniciou um processo de transformação profunda para diversificar sua base econômica e ampliar sua relevância para além do setor petrolífero.

Essa transformação ganhou ímpeto em 2016, quando o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman lançou o ambicioso programa Vision 2030. O plano traça uma estratégia detalhada para que, até 2030, a Arábia Saudita se torne um polo de inovação, turismo e cultura, redefinindo sua imagem global e atendendo a novas demandas estratégicas e geopolíticas.

Os reflexos já são evidentes em toda economia em que, como informam seus órgãos oficiais, os setores não diretamente relacionados à produção de petróleo já respondem por 53,2% do PIB do país. Porém, a consolidação dessa guinada não é trivial. Boa parte do PIB saudita e de suas receitas governamentais ainda deriva do petróleo, conforme ilustra o gráfico abaixo:

A literatura econômica é rica em exemplos de países que, ao descobrir recursos naturais abundantes, em um aparente contrassenso, fracassam. Sofrem com a chamada Doença Holandesa: uma valorização da moeda nacional impulsionada pela exportação de commodities, que desindustrializa a economia e mina a competitividade de outros setores. Casos clássicos como o dos Países Baixos nos anos 1960, que deu nome ao conceito, ou da Venezuela nas últimas décadas ilustram o risco da dependência de uma única fonte de riqueza.

No caso saudita, há um esforço deliberado para evitar essa armadilha. Ao invés de permitir que a renda petrolífera sufocasse outras atividades, o governo passou a utilizá-la como combustível de transição. Projetos como NEOM — uma megacidade futurista cujas estimativas sobre custos apontam para centenas de bilhões de dólares — são financiados majoritariamente com os recursos do petróleo, mas voltados para atrair investimentos em tecnologia, energia limpa, turismo e entretenimento. O objetivo: transformar riqueza passiva em capital produtivo.

Entre os setores que vêm ganhando destaque na estratégia de diversificação econômica da Arábia Saudita, alguns chamam especial atenção: o turismo e a hospitalidade despontam como prioridade desde a abertura de vistos para estrangeiros em 2019. Com a meta ousada de atrair 100 milhões de visitantes por ano até 2030, o país tem transformado antigos locais sagrados e regiões anteriormente restritas ao acesso turístico em destinos integrados a roteiros globais, numa tentativa clara de competir com centros consolidados como Dubai e Doha.

No campo da tecnologia e inovação, os investimentos têm sido igualmente agressivos. Utilizando seu poderoso fundo soberano, o Public Investment Fund (PIF), o governo saudita tem canalizado recursos para startups, inteligência artificial e infraestrutura digital. Parcerias com empresas como Google , Apple e e Lucid Motors (especializada em veículos elétricos) revelam a ambição de tornar o país um polo tecnológico de ponta no Oriente Médio.

Destaca-se ainda o setor de entretenimento e esportes, que ultrapassa as fronteiras da economia, assumindo um caráter simbólico e geopolítico. Por meio da promoção de grandes eventos e mesmo da compra de clubes esportivos, o Reino busca reformular sua imagem internacional, aumentar seu soft power e abrir novos canais de negociação com o Ocidente.

Criticada internacionalmente por violações de direitos humanos e repressão política, a Arábia Saudita enfrenta obstáculos significativos para redesenhar sua imagem no Ocidente. É nesse contexto que o esporte emerge como importante ferramenta de suavização da imagem. A lógica é clara: patrocinar, adquirir ou sediar grandes eventos esportivos globais cria uma ponte simbólica entre o país e o público internacional.

O país comprou o clube inglês Newcastle United, introduzindo-se na maior liga de futebol do mundo, injetou bilhões na sua própria liga local de futebol ao atrair estrelas como Cristiano Ronaldo, e recentemente avançou também sobre o golfe, tendo aberto confronto direto com o tradicional PGA Tour, com o qual acabou por se fundir. Também patrocina eventos de Fórmula 1, boxe, eSports e outros segmentos emergentes do entretenimento esportivo. Para muitos críticos, trata-se de uma estratégia de sportswashing — usar o prestígio do esporte para limpar a reputação de regimes autoritários. Para os sauditas, é parte de um plano coerente de inserção internacional moderna.

A transição saudita não encontra paralelo direto entre seus vizinhos, ao menos não na mesma escala. Países como Emirados Árabes Unidos e Catar já haviam iniciado processos de diversificação econômica anteriormente, mas com enfoques distintos — os EAU via finanças e turismo, o Catar via energia e diplomacia midiática (como a Al Jazeera Media Network). O que diferencia a Arábia Saudita é o tamanho do mercado interno, a centralização do projeto e o volume de recursos mobilizados.

Outros países da região, como o Kuwait ou o Bahrein, permanecem fortemente dependentes de hidrocarbonetos e mostram avanços mais tímidos. Já o Irã, por questões de sanções e isolamento, enfrenta um cenário mais complexo, ainda que possua potencial em reservas naturais e capital humano.

Apesar do ímpeto, a transição saudita enfrenta obstáculos estruturais. A rigidez institucional, o conservadorismo religioso e as tensões internas entre modernização e tradição criam fricções constantes. Além disso, o risco de dispersão de investimentos em projetos, talvez, megalomaníacos (veremos), como a própria NEOM, levanta dúvidas sobre a viabilidade de longo prazo.
Há também a dimensão geopolítica. Em um mundo polarizado, o alinhamento estratégico da Arábia Saudita ora com os EUA, ora com a China, precisa ser calibrado para não gerar conflitos de interesse. O mesmo vale para sua liderança na OPEP+, que lhe confere peso, mas também responsabilidade sobre os preços globais de energia.

A Arábia Saudita está tentando o que muitos não conseguiram: utilizar a bonança dos recursos naturais como trampolim para o futuro. A estratégia é, por óbvio, arriscada, dado o volume colossal de recursos depreendidos, mas, em linhas gerais, vem se apresentando como um case de sucesso na condução da transição econômica. Em um tabuleiro global onde imagem, influência e inovação valem tanto quanto petróleo, os sauditas parecem entender que, para se manter relevantes, será preciso jogar em mais de um campo — e, de preferência, marcar gols neles todos.


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