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Equipe World on the Wire

Veja neste edição como a China avança em seus planos para obter supremacia no Mar do Sul da China, artéria fundamental no comércio global!

(Texto publicado originalmente em 09 de MAIO de 2025)

Imagem: Financial Times

“Um conflito nessa região paralisaria fluxos comerciais globais e provocaria impactos econômicos catastróficos”

Por Radamés Perin.

O Mar do Sul da China é, há décadas, um dos epicentros mais sensíveis da geopolítica global. Mas nas últimas duas décadas, a crescente militarização da região, somada ao avanço tecnológico e ao reposicionamento estratégico das grandes potências, transformou esse mar interior em uma arena cada vez mais próxima de um confronto armado. Ao contrário de outros pontos de tensão do mundo, como a Península Coreana ou o Oriente Médio, o Mar do Sul da China reúne todos os elementos para uma guerra de grandes proporções: interesses econômicos massivos, rivalidades históricas não resolvidas, disputas territoriais sobrepostas e, sobretudo, o confronto direto entre potências nucleares em projeção de força.

A China considera essa região uma extensão estratégica do seu território soberano. A famosa “linha de nove traços”, que se curva pelo mar e abarca quase 90% da área total, é a base das reivindicações chinesas. Essa linha, no entanto, atravessa as zonas econômicas exclusivas reconhecidas internacionalmente de países como Filipinas, Vietnã, Malásia, Indonésia e Brunei. O Tribunal de Haia, em 2016, declarou ilegal essa reivindicação, em um processo movido por Manila — decisão ignorada por Pequim, que, na prática, intensificou sua presença. Desde então, a China construiu ilhas artificiais, bases militares, pistas de pouso, portos de águas profundas e estruturas defensivas sofisticadas nos arquipélagos Spratly e Paracel. Trata-se de uma “grande muralha do mar”, com capacidade não apenas defensiva, mas ofensiva. Satélites e análises de campo mostram presença de mísseis antiaéreos HQ-9, radares de vigilância de longo alcance e abrigos reforçados para aviões de combate J-11 e bombardeiros H-6K.

Para além da infraestrutura, a movimentação de meios navais é constante. Destróieres chineses monitoram embarcações civis e militares da região, enquanto navios da Guarda Costeira frequentemente bloqueiam ou colidem deliberadamente com barcos filipinos e vietnamitas. Pequim opera sob a lógica da “fatia de salame”: avança pequenos passos, testa reações, consolida presença e evita confrontos diretos — até agora. A tensão, porém, cresce. Um único erro de cálculo, uma provocação mal interpretada ou um acidente com vítimas pode acionar uma cadeia de respostas sem retorno.

As Filipinas têm sido o principal foco dos embates nos últimos anos. Desde a chegada ao poder de Ferdinand Marcos Jr., Manila fortaleceu laços com os Estados Unidos, reativou bases militares conjuntas e autorizou a presença de tropas americanas mais próximas da região disputada. Em resposta, Pequim intensificou o assédio a navios filipinos, inclusive disparando canhões de água de alta pressão e lasers de interferência em operações de abastecimento. Isso transformou a questão em um dilema estratégico para Washington: os EUA têm um tratado de defesa mútua com as Filipinas, o que, em teoria, obriga uma resposta militar em caso de agressão armada. Mas o que define uma “agressão armada” em tempos de guerra híbrida e táticas cinzentas?

O Vietnã, por sua vez, mantém uma posição mais ambígua. É rival histórico da China, tem uma marinha crescente e bases na região das Spratly, mas adota uma postura de contenção. Ainda assim, está se armando com rapidez, adquirindo submarinos russos, drones israelenses e mísseis antinavio modernos. O temor vietnamita é ser pego em um confronto que não possa controlar, ao mesmo tempo em que reconhece que qualquer recuo pode significar perda de soberania de fato. A situação da Malásia e da Indonésia é semelhante, mas mais distante do epicentro. Esses países são afetados pelas incursões chinesas em suas ZEE, porém evitam o confronto direto e tentam resolver os impasses por meio de diplomacia regional e fortalecimento das capacidades navais — com limitações claras.

Nesse cenário, os Estados Unidos mantêm uma presença robusta e cada vez mais visível. Porta-aviões como o USS Ronald Reagan, submarinos nucleares da classe Virginia e bombardeiros B-52 são frequentemente mobilizados para operações de dissuasão. As chamadas “operações de liberdade de navegação” têm se tornado mais frequentes, cruzando deliberadamente áreas que a China considera suas — e que o direito internacional reconhece como águas internacionais. A tensão nesses momentos é palpável. Os encontros entre embarcações americanas e chinesas muitas vezes beiram o confronto direto, com cruzamentos perigosos, bloqueios e manobras agressivas.

O Japão, embora geograficamente mais distante, considera o controle do Mar do Sul da China uma questão vital para sua segurança energética e liberdade comercial. Tóquio já declarou que um eventual bloqueio das rotas marítimas por parte da China seria interpretado como uma ameaça existencial, o que, dentro de sua nova interpretação da constituição pacifista, justifica o uso de força militar. A Austrália também tem ampliado sua presença, participando de exercícios conjuntos, enviando navios para patrulhas e firmando acordos de defesa com os EUA, Reino Unido e Japão — especialmente no âmbito do pacto AUKUS, que prevê o compartilhamento de submarinos nucleares e tecnologias avançadas.

O potencial de conflito na região passa por três grandes cenários. O primeiro é o confronto limitado entre China e Filipinas, com uso de armas convencionais leves, mísseis antinavio e drones. Esse tipo de embate poderia ser contido diplomaticamente, mas com risco alto de escalada se houver mortos. O segundo é uma guerra regional, onde além das Filipinas, o Vietnã se envolve ativamente e os EUA oferecem apoio logístico e aéreo — algo que poderia se aproximar do modelo do Mar Negro na guerra da Ucrânia. O terceiro, mais grave, seria uma guerra sistêmica, envolvendo diretamente China e Estados Unidos, possivelmente combinada a uma ofensiva sobre Taiwan. Nesse cenário, o Mar do Sul da China funcionaria como a frente naval de uma guerra total no Indo-Pacífico, com bloqueios de rotas, uso de mísseis hipersônicos, guerra eletrônica e ataques a satélites.

Em todos os casos, os custos são monumentais. Um conflito nessa região paralisaria fluxos comerciais globais, derrubaria cadeias de suprimentos, afetaria o fornecimento de semicondutores e provocaria impactos econômicos catastróficos — não apenas para a Ásia, mas para o planeta inteiro. As rotas que passam pelo Mar do Sul são responsáveis por mais de 60% do tráfego energético da Coreia do Sul e do Japão, e por boa parte das exportações chinesas ao Ocidente. Um bloqueio, ainda que parcial, teria efeitos em cascata na inflação, no preço do petróleo e nos mercados globais.

A doutrina chinesa parece se basear na ideia de negação de acesso e área, uma estratégia voltada a impedir que forças estrangeiras operem livremente em áreas próximas do território chinês. Para isso, Pequim investe pesadamente em mísseis balísticos de precisão, como os DF-21D — apelidados de “assassinos de porta-aviões” —, além de mísseis hipersônicos, guerra cibernética e capacidades espaciais. O objetivo não é derrotar os EUA em uma guerra convencional, mas tornar o custo de qualquer intervenção americana alto o suficiente para desestimulá-la. É uma estratégia de dissuasão assimétrica.

Ao mesmo tempo, os EUA operam com a lógica da contenção e da liberdade de navegação, com aliados posicionados em aneis concêntricos ao redor da China: Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Guam, Austrália. O Indo-Pacífico, nesse contexto, se transforma num gigantesco tabuleiro de peças móveis, onde cada deslocamento estratégico é lido como provocação.
A região, hoje, vive uma paz instável e carregada de tensão latente. Não há guerra declarada, mas há confrontos diários. Não há invasão formal, mas há ocupação gradual. Não há ataques em massa, mas há simulações, ameaças veladas, bloqueios, interceptações e vigilância constante. O Mar do Sul da China é o retrato perfeito da guerra do século XXI: fluida, ambígua, tecnológica, disputada não apenas por força, mas por narrativa, diplomacia e influência.

A pergunta que resta é por quanto tempo essa tensão pode se manter sem colapsar. E se, quando colapsar, o mundo estará preparado para lidar com as consequências de uma guerra que não começa com um tiro, mas com um bloqueio, um drone, ou um míssil lançado de uma ilha artificial em meio a águas azul-turquesa.

“O Mar do Sul da China tornou-se o símbolo da nova disputa por hegemonia global.”

Por Gabriel Sabino.

Assim como uma casa sem muros claros acaba virando uma bagunça, sem saber exatamente onde começa e onde termina, um país que não mostra sua força e a sua influência para além das suas fronteiras acaba ficando acanhado, meio sem voz, sabe? Quando um Estado não estabelece limites definidos, a sua presença no cenário internacional se enfraquece, e a capacidade de influenciar e proteger seus interesses diminui, inevitavelmente. É por isso que a projeção de poder — seja por meios econômicos, diplomáticos ou militares — é uma ferramenta vital para qualquer potência, sem dúvida.

Essa perspectiva encontra eco em Carl von Clausewitz, que afirmou, lá na sua obra Da Guerra, que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Para Clausewitz, o conflito é uma expressão racional do Estado em defesa dos seus objetivos políticos. A projeção de poder, nesse sentido, não é apenas demonstração de força bruta, mas parte essencial da política internacional — um instrumento que molda alianças, dissuade ameaças e garante soberania.

No caso da China, essa projeção se manifesta de maneira bem explícita no Mar do Sul da China, uma área de relevância estratégica, econômica e simbólica. Não se trata apenas de recursos naturais ou rotas comerciais; trata-se da reafirmação de uma identidade nacional que foi fragmentada desde o século XX e do reposicionamento de uma potência que busca imposição no cenário global.

Imagine a China como uma grande casa, com séculos de história e tradições profundamente enraizadas. Durante décadas, o lar chinês foi marcado pela unidade e centralização, até que, em 1949, uma grande briga interna dividiu a família: os nacionalistas se retiraram para uma parte afastada do terreno, numa casa vizinha chamada Taiwan. Esse novo morador, embora não tenha sido oficialmente reconhecido pela maioria da vizinhança (o sistema internacional), começou a construir a sua própria identidade e a prosperar no terreno que havia escolhido como refúgio.

Ao longo do tempo, Taiwan, o “morador vizinho”, não permaneceu um simples inquilino temporário. Ele construiu a sua casa, formou o seu governo, estabeleceu um sistema de defesa e uma economia robusta. A sua localização, no entanto, num ponto estratégico e tão próximo à casa “original”da China, tornou-se cada vez mais desconfortável para o “dono da casa”, Pequim. A ideia de ter um vizinho que, além de morar tão perto, se destacava pela sua organização, estabilidade e sucesso econômico, tornou-se um desafio à autoridade de Pequim, que via Taiwan não como uma simples residência independente, mas como uma ameaça à sua própria soberania e identidade.

Para a China, Taiwan sempre foi visto como uma parte perdida da sua casa e a sua existência como um morador independente representa uma rachadura simbólica nos alicerces do Estado. Pequim, ao longo das décadas, buscou reverter essa separação — às vezes com interferência política, às vezes com ameaças (exercícios militares próximos a Taiwan) —, mas sempre com a intenção de reintegrar o vizinho. Afinal, construir um muro em um terreno sem dono e dizer que é seu pode funcionar até o momento em que alguém com poder diga o contrário; e, quando ele diz, a China, em vez de aceitar, aponta a arma — um gesto que revela mais sobre a sua necessidade de controle do que sobre a sua segurança.

Mas a vizinhança do Mar do Sul da China não é composta apenas por China e Taiwan. Outros moradores, como as Filipinas, Brunei e a distante mas vigilante Austrália também se posicionam diante da expansão territorial e naval chinesa.

As Filipinas, que compartilham fronteiras marítimas diretas com as zonas de interesse da China, veem com preocupação a construção de ilhas artificiais e bases militares chinesas em áreas que consideram suas, como o recife de Scarborough e as ilhas Spratly. Para Manila, trata-se de uma clara invasão do seu quintal. E como apontam os estudos do professor Taylor Fravel, as disputas territoriais no mar refletem diretamente a tentativa da China de consolidar a sua soberania por meio de presença física, ignorando decisões jurídicas internacionais como o veredito de 2016 da Corte Permanente de Arbitragem, que invalidou as pretensões chinesas sobre a chamada “linha de nove traços”.

Brunei, embora menor e mais discreto, também está atento. Mesmo mantendo uma diplomacia contida, o país depende fortemente da estabilidade marítima para a sua economia baseada em energia. Como um vizinho mais calmo, Brunei evita confrontos diretos, mas participa ativamente de fóruns multilaterais como a ASEAN, tentando preservar o espaço comum por meio do direito internacional e do diálogo multilateral, conforme ressaltam os estudos de Caballero-Anthony.

Já a Austrália, que não mora exatamente no bairro, mas patrulha como se fosse síndica regional, tem interesses claros na segurança da navegação e no equilíbrio de poder no Indo-Pacífico. Apoiada pelos Estados Unidos, a Austrália intensificou exercícios militares conjuntos com o Japão e países do Sudeste Asiático, como uma forma de sinalizar que os muros que a China tenta erguer não serão aceitos sem resistência.

Neste cenário, o que parecia ser apenas uma antiga disputa interna chinesa se transformou num emaranhado de tensões regionais. O Mar do Sul da China, com as suas riquezas minerais, pesca abundante e importância geoeconômica, virou o quintal mais disputado da geopolítica contemporânea. E nesse quintal, erguer muros sem combinar com os vizinhos tem levado a confrontos diplomáticos, e, cada vez mais, à beira do confronto armado.

Se o século XX foi marcado pela disputa ideológica entre dois gigantes, EUA e URSS; o século XXI assiste a uma disputa por influência que se manifesta em mares, portos e corredores estratégicos. O Mar do Sul da China tornou-se, mais do que uma simples zona de disputa territorial, o símbolo da nova luta por hegemonia global. É ali que a China testa os limites da ordem internacional estabelecida, enquanto os Estados Unidos buscam conter a ascensão de um rival que já não se contenta em apenas reformar o sistema: quer moldá-lo à sua imagem.

Para a China, o mar não é apenas um espaço físico. Ele representa uma continuidade lógica do projeto de rejuvenescimento nacional, o chamado “sonho chinês” de Xi Jinping. Controlar o Mar do Sul é garantir acesso irrestrito a rotas marítimas vitais, segurança energética, projeção naval e, principalmente, reafirmação de soberania. É como garantir que o muro da casa vá até onde ela acredita ser o seu quintal original, mesmo que os vizinhos contestem. Para isso, a China constróiilhas, instala sistemas de defesa, impõe zonas de exclusão, e rejeita decisões jurídicas internacionais que contrariem a sua narrativa histórica.

Já para os Estados Unidos, o mar é uma linha vermelha. Manter a liberdade de navegação na região é fundamental não apenas para o comércio global, mas para a preservação da sua posição como garantidor da ordem liberal internacional. Deixar a China dominar essa área seria abrir precedentes para revisionismos em outras partes do mundo — do Mar Negro ao Ártico. Por isso, Washington reforça alianças, amplia a sua presença militar e realiza operações de liberdade de navegação como forma de dizer que, mesmo longe, o síndico ainda está de olho.

No fundo, o Mar do Sul da China tornou-se o espelho da disputa mais ampla entre projeção de poder autoritária e contenção liberal, entre uma potência emergente que constrói muros em águas contestadas e outra que patrulha com navios o direito à livre circulação. É um quintal onde cada pedra lançada gera ondas que vão muito além da vizinhança — e onde a guerra, como diria Clausewitz, continua sendo a política por outros meios, mas agora travada por diplomacia, dissuasão e tecnologia.

“Quem tiver nas mãos a chave do trajeto deterá também poder de influência global.”

Por Vítor Ribeiro.

Nas palavras de Xi Jinping, a “China será sempre construtora da paz mundial, contribuidora do desenvolvimento global e mantenedora da ordem internacional”.

Do apreço do presidente chinês pelos substantivos não resta dúvida. “Paz”, “desenvolvimento” e “ordem” são visíveis na cartilha de ações do gigante asiático. Quanto se analisa o gosto pelos adjetivos, porém, a convicção já se turva ligeiramente. “Mundial”, “global” e “internacional” sem dúvida figuram no discurso. Mas a conduta talvez divirja.

O desenrolar dos eventos recentes – e não tão recentes assim, já que as afirmações múltiplas de soberania remontam pelo menos aos anos 1970 – no Mar do Sul da China repisa o que toda grande potência ao longo da história, independentemente do ponto do mapa de que surja, do idioma que fale ou da ideologia que supostamente defenda, já cansou de provar: na prática, a teoria é outra.

O fogo cruzado de hasteamento de bandeiras no arquipélago de Sandy Cay é continuidade de um projeto de ampliação da influência de Beijing na região, que joga a China contra diversos vizinhos menores e provoca saudade da era dos estados tributários. Como bem lembrou Xi em ocasião anterior, “o povo chinês nunca para em sua busca por progresso”. E o “progresso” que guardam as águas locais não é de se jogar fora.
Em termos energéticos, o Mar do Sul da China abriga aproximadamente 11 milhões de barris de petróleo e mais de 50 trilhões de m³ de gás natural. Os recursos se concentram majoritariamente na área que circunda o norte de Bornéu, na Indonésia, e também nas Ilhas Spratly, entre Malásia, Brunei, Filipinas e Vietnã.

Estimativas apontam que, entre 2022 e 2028, a China pretende elevar sua capacidade de refino em 1,5 milhão de barris por dia. A ampliação das reservas possíveis é instrumental para a redução da dependência chinesa em relação a outros países, como Arábia Saudita, Rússia e Irã, garantindo maior segurança energética a seus setores industriais e de manufatura, principais motores de crescimento. Ainda que haja controvérsia sobre a efetiva escala dos recursos minerais na região, é inegável que possuir seu controle é benefício formidável.

A importância para a indústria pesqueira é outro ponto de relevância significativa das águas disputadas. O Mar do Sul da China é a principal fonte de proteína animal para o sudeste asiático, uma das regiões mais populosas do mundo, e responde por aproximadamente 12% de todo o estoque de pescados no mundo, avaliado em mais de US$ 21 bilhões. A atividade é o principal sustento econômico de uma ampla gama de países, que possuem uma população combinada superior a 2 bilhões de pessoas.

Com mais de 15% da população global e respondendo por 35% de toda a produção mundial de pescados e frutos do mar, a China possui interesse ímpar na questão, tanto do ponto de vista do consumo interno quanto comercial e exportador. Assim como no caso de petróleo e gás, a primazia regional proporcionaria a Pequim maior segurança alimentar – desafio constante em um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes – além de uma carta valiosa em disputas locais.

Não obstante o quão profícuos sejam os benefícios anteriores, ambos se encolhem perto da maior das vantagens: a capacidade de controlar quem entra ou sai das águas do Mar do Sul da China e, com isso, regular o vultoso fluxo de comércio que por ele passa. Atualmente, em torno de 80% de todo o volume do comércio global trafega por mar. Deste percentual, aproximadamente 1/3 passou pela região, valor que ultrapassou US$ 3,4 trilhões de dólares em 2016, superior a 21% do total comercializado em todo o mundo.

O trânsito pelas águas disputadas é fundamental para todos os países próximos. Vietnã e Indonésia apresentam o maior grau de dependência, com aproximadamente 85% de suas trocas navegando pelo Mar do Sul da China em 2016. Tailândia, Cingapura e Malásia vêm em seguida, com respectivamente 74%, 66% e 58%. A Coreia do Sul, apesar de registrar exposição menos acentuada, tem metade de seu volume de comércio atrelado ao Mar. Japão, Coréia do Sul e Taiwan, inclusive, recebem mais de 80% de seu petróleo por esta via.

A China, por sua vez, viu no mesmo ano 39% de suas trocas cruzando o local. Foram US$874 bilhões em produtos exportados e US$598 bilhões em trocas recebidas. Mesmo a Índia, não tão próxima, comercializou em 2016 mais de 30% pelo Mar, enquanto até países distantes, como o Brasil, com 23% de seu comércio internacional, Reino Unido (11%) e Alemanha (9%) tiveram na rota caminho essencial.

Resta claro, portanto, que quem tiver nas mãos a chave do trajeto – especialmente no estreito de Malaca, principal conexão marítima entre os oceanos Pacífico e Índico -, possuirá também poder de influência global. É situação similar à do Irã, cuja proeminência no estreito de Ormuz lhe permite ditar o fluxo de comercia, garantindo à República Islâmica relevância superior a que seus demais atributos, por si só, concederiam.

Todavia, mesmo diante da postura recente e da tentação história por fortalecer sua posição regional, é provável que à China a atitude mais benéfica seja a manutenção do livre comércio pelo local. Qualquer comprometimento ao fluxo de navios poderia – para além das considerações de segurança e o acirramento de conflitos – provocar consequências severas sobre a economia global, com impactos sobre a própria China, cuja modelo econômico é ainda hoje extremamente dependente do comércio internacional.

Um cenário que promovesse interrupção total dos fluxos traria consequências disseminadas. Nesta conjuntura, estima-se queda de 22% no PIB de Cingapura, e em torno de 15% para Hong Kong, Vietnã, Filipinas e Malásia. Taiwan seria a economia mais penalizada, perdendo 1/3 de sua atividade. A China, com mais válvulas de escape, por possuir mercados e portos fora da região, sofreria impactos reduzidos, na faixa de 0,7% de seu PIB.

No entanto, ainda que diretamente menos penalizada, os danos a parceiros comerciais em regiões mais distantes – Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, por exemplo, veriam evaporar de sua atividade econômica entre 3% e 5% -, aliados à questões de segurança e geopolíticas, ampliariam em demasiado o custo, forçando a mão chinesa em direção contrária à insistência no empreendimento.

O Mar do Sul da China é outro daqueles locais do qual pouco sabemos, mas em que de tudo acontece. Economia, conflitos, política. Um ponto estreito no mapa, mas pelo qual o capital navega – neste momento – sem barreiras. É fundamental que o trajeto assim permaneça, sem tempestades, piratas ou bancos de areia no caminho. Xi outrora afirmou que “o vasto oceano Pacífico possui espaço suficiente para a China e os Estados Unidos”. Torçamos para que essa ideia seja mais que discurso, e que possa navegar para outros mares e nações.


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