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Equipe World on the Wire

O WoW aterrissa no sudeste asiático e examina as ramificações de um conflito que já perdura por quase 80 anos e coloca frente a frente o país de maior população do mundo e um ator regional de extrema relevância.

(Texto publicado originalmente em 02 de MAIO de 2025)

Imagem: Financial Times

“O conflito segue sendo tratado como regional quando, na verdade, trata-se de ameaça sistémica. “

Por Radamés Perin.

A rivalidade entre Índia e Paquistão é uma das mais antigas e perigosas do século XXI. Desde a partição do Império Britânico da Índia, em 1947, os dois países travam uma disputa que atravessa gerações, marcada por guerras abertas, escaramuças fronteiriças, acusações de terrorismo e, mais alarmante ainda, pela presença de arsenais nucleares sob comando de governos cada vez mais nacionalistas.

O principal foco da tensão é a região da Caxemira, cuja população majoritariamente muçulmana contrasta com o controle político exercido por Nova Délhi. Ao longo das décadas, a disputa se consolidou como uma ferida aberta: três guerras formais, além de conflitos como o de Kargil, deixaram um legado de desconfiança e militarização total da fronteira. No lado indiano, mais de meio milhão de soldados permanecem mobilizados permanentemente. No paquistanês, a doutrina militar se baseia na ideia de dissuadir qualquer avanço indiano com o uso antecipado de armas nucleares táticas.

A chegada de Narendra Modi ao poder, em 2014, marcou uma virada estratégica. Seu governo intensificou o controle sobre a Caxemira e, em 2019, revogou o artigo 370 da Constituição, que conferia autonomia especial à região. A resposta paquistanesa veio em forma de condenação internacional, mas também por meio do incentivo indireto a grupos insurgentes. No mesmo ano, um atentado suicida em Pulwama matou 40 soldados indianos e provocou a retaliação direta de Nova Délhi com bombardeios aéreos em território paquistanês — uma ação inédita desde a guerra de 1971.

O que torna esse conflito especialmente perigoso é o fato de que ambos os países possuem armas nucleares. Estima-se que a Índia tenha cerca de 160 a 170 ogivas, e o Paquistão entre 165 e 175. A doutrina indiana de “não primeiro uso” contrasta com a estratégia paquistanesa de uso antecipado e limitado, o que aumenta o risco de uma escalada descontrolada. Especialistas temem que um conflito iniciado por uma ofensiva convencional possa rapidamente evoluir para o uso de armas táticas, desencadeando um ciclo de retaliações potencialmente devastador. Estudos apontam que até mesmo uma guerra nuclear “regional” entre os dois poderia causar dezenas de milhões de mortes imediatas e gerar um inverno nuclear leve, afetando o clima e a produção agrícola global.

Mas a ameaça não se limita à destruição mútua. Um conflito entre Índia e Paquistão traria sérios impactos para a economia global. A Índia é hoje a quarta maior economia do mundo em termos nominais, e a 122 em paridade de poder de compra. Seu setor tecnológico e farmacêutico está profundamente entrelaçado com o Ocidente. O Paquistão, por sua vez, ocupa posição estratégica como elo da Rota da Seda chinesa e hospeda o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), vital para o acesso chinês ao Golfo Pérsico. Uma guerra nessa região interromperia cadeias de suprimento críticas, especialmente nos setores de tecnologia, medicamentos genéricos e têxteis, além de provocar uma fuga massiva de capitais dos mercados emergentes. A tensão também criaria fluxos de refugiados que poderiam alcançar milhões de pessoas, pressionando países vizinhos como Irã, Afeganistão, Bangladesh e até mesmo o Golfo.

Num cenário de guerra em larga escala, dificilmente os aliados globais permaneceriam neutros. Os Estados Unidos, que desde 2005 estreitaram relações com a Índia por meio de acordos nucleares civis e do Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), tenderiam a apoiar Nova Délhi. O mesmo pode ser dito de França, Reino Unido e Israel, importantes fornecedores de armamento e tecnologia militar para os indianos. Do lado paquistanês, a China provavelmente atuaria como patrocinadora estratégica, fornecendo apoio logístico e político, senão militar, em função do seu projeto de contenção da influência indiana no sul da Ásia. Turquia e Azerbaijão, por alinhamentos religiosos e ideológicos, também se posicionariam a favor do Paquistão, enquanto o Irã, apesar da proximidade cultural com Islamabad, manteria uma postura ambígua, por conta de seus interesses econômicos com a Índia.

Em meio a esse cenário polarizado, alguns atores buscariam manter uma neutralidade estratégica. A Rússia, tradicionalmente aliada da Índia, também tem estreitado laços com o Paquistão em função de sua diplomacia multipolar e da crescente presença chinesa na região. Moscou poderia assumir o papel de mediador, especialmente por sua posição no Conselho de Segurança da ONU e seu histórico de contenção de conflitos. Países do Golfo, por sua vez, que tradicionalmente apoiaram o Paquistão, hoje investem bilhões na Índia e teriam poucos incentivos para tomar partido. Seu foco estaria em minimizar os efeitos econômicos e garantir a segurança de rotas energéticas.

O mais alarmante, porém, é o fato de que esse conflito continua sendo tratado como um problema regional, quando na realidade representa uma ameaça sistêmica. Em um mundo cada vez mais conectado por cadeias de valor, redes diplomáticas e sistemas de segurança compartilhados, um confronto indo-paquistanês em larga escala teria impacto imediato nos mercados, nos fóruns multilaterais e na arquitetura de dissuasão global. A confiança entre potências nucleares sairia abalada, e a percepção de que guerras atômicas são evitáveis poderia ruir — com efeitos colaterais do Mar do Sul da China até o Báltico.

Prevenir esse cenário exige mais do que mediação pontual. São necessários mecanismos multilaterais robustos de contenção de crise, canais permanentes de comunicação militar e, acima de tudo, uma pressão internacional clara por parte das potências a favor da diplomacia preventiva. A Índia, por sua crescente estatura global, e o Paquistão, por sua vulnerabilidade estratégica, precisam entender que qualquer vitória em campo de batalha custará caro demais em legitimidade internacional, capital humano e estabilidade regional.

Enquanto se discute a guerra na Ucrânia, a crise em Gaza e as tensões no Indo-Pacífico, a fronteira entre Índia e Paquistão segue como o ponto de ignição mais subestimado do planeta. Não será surpresa se, num futuro próximo, o destino do mundo for decidido nas montanhas geladas da Caxemira. Afinal, ali se encontram não apenas duas potências nucleares, mas dois projetos de civilização em confronto direto — e o menor erro de cálculo pode significar o maior desastre da era moderna.

“A disputa aqui não é por fronteiras, mas por legitimidade, identidade e reconhecimento.”

Por Gabriel Sabino.

Quando pensamos nas relações entre países, geralmente o foco está nos interesses econômicos ou nas jogadas de poder. Mas, no fundo, tem algo muito mais forte em jogo: a identidade. O que cada país acredita ser e como vê o outro. Índia e Paquistão são um exemplo perfeito disso. Eles nasceram de uma história compartilhada, mas, a partir da partição de 1947, se distanciaram e se tornaram praticamente inimigos. A guerra deles não é uma coisa que vai e vem — ela é constante, em uma tensão que nunca desaparece completamente.

A partição não foi só um corte no mapa, ela separou as histórias. A Índia se formou como um país secular, mas sempre lidou com problemas internos difíceis. Já o Paquistão foi criado para ser o lar dos muçulmanos do sul da Ásia, e isso o fez se definir como oposto à Índia. Não era só uma questão de onde as fronteiras estavam, mas de como os dois países viam o mundo e como se viam, um em relação ao outro.

No artigo “National Identity and War – The case of Indian and Pakistan”, Vikas Sreevatsa aborda exatamente isso: o conflito entre esses dois países não se resume apenas a disputas de território. É uma luta por quem tem a “legitimidade” de ser a verdadeira nação naquela região. A guerra não é só por causa da Caxemira ou das fronteiras, mas por causa do orgulho, da identidade que um quer que o outro reconheça.

Então, para realmente entender o conflito entre Índia e Paquistão, não é possível olhar apenas para os mapas ou para os acordos de paz. O que está por trás disso tudo é uma luta muito maior, por reconhecimento e por uma visão de mundo que não consegue coexistir com a do outro.

Durante os conflitos de libertação do Império Britânico, a Índia começou a se enxergar como um só corpo, e não apenas um amontoado de regiões desconexas. Como aponta o pesquisador Vikas Sreevatsa, essa luta anticolonial “uniu diferentes grupos sob uma mesma comunhão” Em outras palavras, camponeses e fazendeiros, operários de cidade grande e aldeões remotos, indianos de línguas e crenças diversas sentiram que compartilhavam um destino comum. Eu sinto que foi justamente esse propósito coletivo que os aproximou: a resistência contra o colonialismo criou, espontaneamente, uma nova solidariedade nacional. Nesse processo, o Congresso Nacional Indiano teve papel central. Os líderes do Congresso perceberam que, para falar a todos, era preciso construir narrativas amplas e inclusivas. Sreevatsa destaca que o partido “focou em criar narrativas universalmente inclusivas” para manter a coesão do país.

Isso se traduziu em símbolos e valores capazes de abarcar comunidades diferentes – por exemplo, a ideia de Pátria comum, citada nos discursos de líderes, e os ideais morais ligados à justiça e à igualdade. Impressiona ver como o Congresso usou conceitos que ressoavam em todo mundo indiano (liberdade, igualdade, secularismo etc.) para reforçar a noção de identidade nacional compartilhada. Aliás, é importante notar que só na luta contra o colonialismo a ideia de “comunidade nacional” realmente se formou. Antes disso, as pessoas tendiam a se identificar mais com grupos regionais ou religiosos. Sreevatsa observa que a própria existência de uma “comunidade nacional” emergiu exatamente desse esforço conjunto pela independência.

Em outras palavras, foi a experiência do conflito comum que fez o indiano médio começar a se sentir parte de uma mesma nação. Percebo que cada greve e protesto dava às pessoas a sensação de estarem vinculadas umas às outras – como se todo ato de desobediência civil fosse um passo para costurar a diversidade numa só tela social.

Um ponto relevanteé como se recorreu ao passado remoto para fortalecer tudo isso. Sreevatsa descreve que se traçava um fio histórico que ia “da civilização do Vale do Indo até os tempos coloniais” para embasar a narrativa nacional. Era como dizer: “vejam só, nós somos herdeiros de uma civilização de milênios” – reforçando o orgulho coletivo. Em linguagem mais cotidiana, dá para dizer que a Índia moderna foi apresentada como filha de suas antigas civilizações. Esse apelo às raízes também aparece nas palavras de estudiosos como Shoyana Ray: ela lembra que “séculos de civilização indiana e anos de amálgama de várias tradições moldam o cidadão indiano de hoje”.

Ou seja, o passado não ficava lá atrás no tempo; ele era constantemente invocado como alicerce do presente. Na prática, isso significava usar histórias e símbolos antigos para que cada comunidade se sentisse parte de algo maior. Tem ainda a ideia do que poderíamos chamar de “unidade piloto” simbólica – algo como um núcleo fundador de identidade. No caso indiano, esse papel foi dado à própria geografia civilizacional do subcontinente. Sreevatsa explica que o “elemento de continuidade” principal para a Índia era todo o território a leste do rio Indo.

O Vale do Indo (berço de antigas civilizações indianas) era celebrado como o núcleo inicial da nação. Era como se o passado longo da Índia servisse de guia para o presente: todas as regiões do país se apoiavam nessa mesma história fundadora. Sob essa visão, mesmo as diferenças culturais e religiosas ganhavamum pano de fundo comum, e a enorme diversidade da Índia podia ser unida simbolicamente. Em resumo, esses estudos mostram que a identidade nacional indiana foi construída de dentro para fora: com as pessoas vendo-se unidas por um ideal comum, um discurso inclusivo do Congresso, o passo dos anos de luta e o orgulho de um passado compartilhado. Como explica Sreevatsa (e reforça Ray), não foi algo imposto por um único grupo, mas resultado de muito “diálogo” na história – um processo onde cada elemento diverso encontrou seu lugar em uma só nação.

Enquanto a Índia construiu sua identidade nacional abraçando a “diversidade” como valor essencial, o Paquistão surgiu com um projeto de unidade que passava, necessariamente, pela exclusão. A ideia de um Estado criado especificamente para os muçulmanos do sul da Ásia implicava uma definição mais estreita de pertencimento, onde a religião era o principal marcador de identidade. Esse modelo não apenas criou um senso de coesão interna a partir da fé islâmica, mas também posicionou o Paquistão em oposição direta à Índia, uma nação que, apesar de suas tensões e questionamentos internos, defendia o “pluralismo” como princípio fundacional.

Essa diferença fundamental na forma de imaginar a nação gerou consequências profundas. Para o Paquistão, afirmar sua identidade significava, muitas vezes, se afastar ou até mesmo se contrapor àquilo que a Índia representa. É como se, para existir plenamente, o Paquistão precisasse continuamente reafirmar que não é a Índia. Isso criou uma lógica relacional baseada na negação: o “nós” paquistanês se fortalece na medida em que o “outro” indiano é mantido distante, suspeito, até inimigo.

Ao longo do tempo, essa construção identitária alimentou não apenas divergências políticas, mas também uma espécie de rivalidade emocional entre os dois países. O conflito pela Caxemira, por exemplo, não pode ser visto apenas como uma disputa territorial. Ele carrega um peso simbólico muito maior — é uma espécie de espelho onde ambas as nações refletem suas inseguranças identitárias. Para a Índia, manter a Caxemira é reafirmar que seu modelo “pluralista” é capaz de incluir uma maioria muçulmana sem abrir mão da unidade nacional. Para o Paquistão, por outro lado, a Caxemira é a continuação do projeto original: reunir, sob sua bandeira, os muçulmanos que “não cabem” no modelo indiano.

Essas visões de mundo se cristalizaram nas narrativas públicas, na mídia, nas escolas e até nas memórias familiares. E, com o passar das décadas, elas se tornaram parte do tecido das duas sociedades. Hoje, não se trata apenas de um problema entre governos — é uma disputa entre imaginários nacionais. Cada nação projeta no outro não apenas um rival geopolítico, mas um espelho distorcido de si mesma, onde até mesmo a possibilidade de destruição mútua esteja no tabuleiro, pois ambos são países com armamentos nucleares.

“A Índia segue carente de um episódio de crescimento acelerado como o da China após a liberalização de Deng Xiaoping.”

Por Vítor Ribeiro.

Em 1956, quando a temperatura dos conflitos pelo mundo era tudo menos fria, Jawaharlal Nehru, primeiro-ministro indiano entre 1947 e 1964, afirmou em um discurso em Washington a intenção da Índia de “manter relações amigáveis com todas as nações, ainda que discordemos de suas políticas ou estruturas de governo”. As palavras ratificaram a posição de destaque da potência asiática no “Movimento dos Países Não Alinhados”, amálgama de nações díspares como Iugoslávia, Egito, Indonésia e inúmeros outros, cuja proposta era manter-se equidistante das esferas de influência americana e soviética que ditavam as relações internacionais à época.

No que pese o verdadeiro exercício de equilibrismo exigido, é inegável que a Índia colheu frutos de seu posicionamento estratégico, não apenas no campo político, mas também na esfera econômica. Descrevê-la meramente como “nação carente que viu crescimento vigoroso na segunda metade do século XX” é ignorar séculos de história e prosperidade pré-colonização, mas, sim, considerando a limitação de tempo do leitor e de caracteres do artigo, o diagnóstico tem seu valor.

A saída abrupta dos britânicos legou aos líderes locais – além de um país partido, um conflito religioso severo, 15 milhões de refugiados em fluxo e 1 milhão de mortos – um sétimo da população mundial, cuja renda per capita era então quinze vezes menor que a dos Estados Unidos (EUA). A taxa de alfabetização girava em torno de 14%, enquanto a expectativa de vida não ultrapassava 34 anos. Três quartos da população trabalhavam no setor agrário, fazendo uso de técnicas e ferramentas antiquadas, em geral sem propriedades ou qualquer segurança jurídica.

Fast-forward para hoje e o retrato é outro: mais que dobrando desde 1950, o 1,44 bilhão de indianos compõe agora a maior população do mundo, tendo superado a China já em 2023. Ao contrário desta, porém, a Índia segue com crescimento populacional projetado até, pelo menos, 2046. 40% de seus habitantes têm menos de 25 anos – ⅕ da faixa etária no mundo – e a média local de idade gira em torno de 28 anos, consideravelmente inferior a, por exemplo, EUA (38 anos) e China (39).

Esse dividendo demográfico demanda ajustes – especialmente emigração líquida, fuga de profissionais qualificados e disparidade na distribuição regional de oportunidades -, mas, se bem aproveitado, pode colocar o país em um novo patamar.

Economicamente, o avanço é similar. O mesmo 2023 que viu a Índia tornar-se líder em população também registrou outro marco simbólico: o país asiático subiu à quinta posição do ranking das maiores economias, deixando para trás justamente o Reino Unido, sua ex-metrópole. Com robustas taxas de crescimento nos últimos anos, em torno de 6,5% a 8% – mais que o dobro da média mundial -, a nação tem perspectivas positivas para o futuro, com as principais instituições internacionais, como FMI e OCDE, prevendo que, em breve, tornar-se-á a terceira maior economia do mundo.

O progresso, todavia, segue encontrando obstáculos para se consubstanciar em prosperidade distribuída por toda a cadeia. O PIB per capita, por exemplo, aproxima-se de US$2.500, nível severamente inferior ao das maiores economias do mundo. No Reino Unido, esse valor supera US$40.000. Pela ótica da paridade do poder de compra, a economia indiana desaba para a 122ª posição, atrás de países como Guatemala, Namíbia e Albânia.

A Índia segue carente de um episódio de crescimento acelerado como o ocorrido na China após a liberalização da era Deng Xiaoping. Em 1990, os dois estavam praticamente empatados no quesito renda per capita, com a Índia ligeiramente acima (US$367) da China (US$317). Esta, porém, disparou nos anos seguintes, alcançando US$12.720 em 2023.

Nova Delhi tem como meta converter o país em economia desenvolvida – na qual a renda per capita deve ser de no mínimo US$20.000 – até 2047. No comparativo regional, a evolução do nível atual para a meta prevista levou em média 21 anos. O Japão cruzou a distância no menor tempo, 15 anos, a uma taxa anualizada de 15%. Considerando o crescimento de 7,8% ao ano visto pela Índia de 2010 para cá, o país demandará estímulo, reformas e investimentos para alcançar seus objetivos.

Nos últimos anos, movimentos nesse sentido vêm sendo empreendidos pelo governo. Uma série de reformas foi implementada para fortalecer as instituições, tornar o ambiente de negócios mais atrativo e aumentar a segurança jurídica para proteger empresários e investidores. Medidas como a redução dos tributos sobre renda, consumo e serviços, a reforma da lei de falências e políticas de incentivo à digitalização e à inclusão financeira refletiram-se em ganhos significativos na década passada, gerando empregos e promovendo o surgimento de conglomerados empresariais como os grupos Tata e Adani.

Neste momento, a pujança industrial e a vocação para a manufatura, aliadas à digitalização financeira contínua, guardam a melhor oportunidade para alavancar o dividendo demográfico que a Índia terá em anos vindouros. Diante do recrudescimento do conflito comercial iniciado com o tarifaço americano, a Índia tem, na visão de boa parte dos analistas, potencial para se converter num dos principais beneficiários da conjuntura.
Taxada em nível consideravelmente inferior aos vizinhos do sudeste asiático – outrora destinos preferenciais de empresas americanas na busca por reduzir a exposição de suas cadeias de produção à China -, a Índia se destaca como reshoring óbvio neste momento de turbulência, podendo ganhar market-share em uma ampla gama de setores, de produtos têxteis e brinquedos a automóveis e manufatura avançada. As boas relações com os EUA, principal parceiro comercial, são outro trunfo. Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, anunciou recentemente que a Índia é um dos países cujas negociações para celebrar acordos comerciais estão em estágio mais avançado.

Além disso, o foco da economia indiana no consumo interno acaba sendo também uma proteção. Países com viés exportador muito forte, como China, Alemanha e Vietnã, tendem a ser mais penalizados pela desaceleração do comércio global. A Índia, por sua vez, sofrerá menos com os reflexos da guerra comercial, e poderá ainda, dado o ganho de competitividade de seus produtos, seguir com a implementação de reformas estruturais para obter ganhos de escala, adicionar valor a suas exportações e multiplicar os ganhos.

É justamente esta conjuntura positiva que – mais – um conflito em larga escala com o Paquistão pode abalar. Com relações comerciais severamente reduzidas recentemente – fruto de outro atentado na Caxemira -, os países viram seu fluxo de comércio encolher pela metade, de US$2,4 bilhões em 2019 para US$1,2 bilhão em 2024. Ainda assim, as medidas tomadas até o momento – notadamente o fechamento do espaço aéreo – trarão impactos sobre ambas as economias. No último episódio similar, também após a crise de 2019, as companhias aéreas indianas registraram custo financeiro superior a U$$60 milhões em um período de 5 meses.

Mesmo se incluído o comércio não oficial – que envolve rotas indiretas por outros países, como os Emirados Árabes Unidos, e gira em torno de US$ 10 bilhões ao ano -, os principais riscos para a Índia se concentram não na relação direta com Islamabad, mas sim no comprometimento de sua posição como destino atrativo para investimento estrangeiro direto.

A necessidade de apoio da população pode reduzir o capital político de que dispõe o governo para implementar reformas econômicas que, ainda que positivas, inevitavelmente terão custo social no curto e médio prazos. Da mesma forma, o desvio de recursos para orçamentos militares e de defesa inevitavelmente limitará a capacidade de investimento público em projetos de grande vulto, especialmente ligados à infraestrutura. Além disso, sem meios de determinar a escala e a duração, os investidores têm no conflito um fator totalmente alheio a seu controle, o que dificulta sobremaneira sua alocação de capital. Por fim, caso a conflagração se consume, é inevitável que ela tome o foco de Nova Delhi, tirando seus olhos de outros temas, como o mencionado acordo comercial com os EUA.

“Não Alinhamento” jamais foi sinônimo de amizade universal. Do ponto de vista indiano, a relação com o Paquistão – tão profunda e complexa – sempre foi o melhor exemplo. No entanto, o cenário que se descortina hoje é um dos mais propícios para que a Índia conclua sua transformação econômica e garanta que os proveitos do crescimento alcancem os recantos mais remotos de sua escala continental. No mesmo discurso na capital americana em 56 em que defendeu o não alinhamento, Nehru também afirmou que “a preservação da paz é o principal objetivo da política da Índia”. As lideranças atuais fariam bem em se recordar.


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