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Equipe World on the Wire

Após décadas de terceirização da própria segurança, bloco europeu, cercado por crises, anuncia programas de estímulo bilionários para reativar sua economia e desenvolver complexo industrial bélico.


(Texto publicado originalmente em 04 de abril de 2025)

Imagem: OTAN

“Caso confirmado o colapso da OTAN, a Europa precisará criar uma nova aliança militar independente.”


Por Radames Perin.

A recente decisão da União Europeia de reforçar suas capacidades militares representa uma mudança significativa na arquitetura de segurança do continente. Esse movimento surge em um contexto de incertezas quanto à continuidade do comprometimento dos Estados Unidos com a OTAN e do aumento das ameaças representadas pela Rússia. A aquisição de armamentos, a priorização de indústrias de defesa locais e a possibilidade de uma estratégia mais autônoma podem redefinir o equilíbrio de poder na Europa e no Atlântico Norte, com consequências profundas para a segurança global.

A necessidade de reduzir a dependência da Europa em relação aos Estados Unidos se tornou uma pauta fundamental para os principais países do bloco. O crescente isolacionismo de setores políticos americanos e a imprevisibilidade da política externa de Washington colocam em xeque a confiabilidade dos EUA como pilar da defesa europeia. Esse temor se intensificou diante das declarações de líderes americanos que questionam o compromisso do país com a OTAN, sugerindo que os europeus deveriam assumir uma maior responsabilidade por sua própria segurança. Neste contexto, o rearmamento europeu busca garantir que a defesa do continente não esteja vulnerável a mudanças políticas nos EUA.

O fortalecimento da capacidade militar também é fundamental para a dissuasão contra a Rússia. A guerra na Ucrânia evidenciou que a dissuasão convencional é essencial para conter avanços territoriais e que a presença militar efetiva é um fator determinante na prevenção de conflitos. Os Estados-membros da OTAN localizados no flanco leste, especialmente os países bálticos e a Polônia, temem que a estratégia russa de desgaste e agressão híbrida possa se expandir para suas fronteiras. Dessa forma, o aumento dos investimentos militares visa criar um efeito dissuasório robusto, impedindo que Moscou perceba qualquer fraqueza explorável na região.

Atualmente, os Estados-membros da UE aumentaram seus gastos com defesa em mais de 30% entre 2021 e 2024, atingindo aproximadamente €326 bilhões em 2024, o que representa cerca de 1,9% do PIB da UE. Projeções indicam que os investimentos em defesa alcançarão um recorde de 31% do total das despesas de defesa, com gastos em pesquisa e tecnologia (P&T) aumentando para €5 bilhões em 2024. Além disso, os gastos com aquisições podem ultrapassar €90 bilhões no mesmo ano. Para fortalecer ainda mais a capacidade de defesa, a Comissão Europeia propôs a criação de um instrumento de empréstimo de €150 bilhões para os governos da UE investirem em rearmamento, com foco em defesa aérea, mísseis e drones. Essa iniciativa poderia mobilizar até €800 bilhões em gastos adicionais com defesa.

O efetivo militar europeu também precisa ser ampliado para acompanhar essa modernização. Em 2024, as forças armadas dos países da OTAN contavam com aproximadamente 3,4 milhões de militares ativos, enquanto a Rússia possuía cerca de 1,32 milhão de militares ativos. Dentro da UE, Itália, França e Alemanha mantêm os maiores contingentes militares. A Itália possui aproximadamente 170.000 militares ativos, a França 215.000 e a Alemanha 180.000. No entanto, a eficácia dessas forças é frequentemente prejudicada pela falta de um comando unificado e por limitações na prontidão operacional. No total, estima-se que a Europa, incluindo o Reino Unido, tenha cerca de 1,5 milhão de militares ativos. Contudo, muitos desses militares não estão aptos para desdobramento imediato em combate, destacando a necessidade de reformas estruturais e investimentos em treinamento e equipamentos para aumentar a prontidão operacional.

Os possíveis cenários de conflito que podem emergir nos próximos anos tornam essa iniciativa ainda mais crucial. Se a guerra na Ucrânia escalar para uma ofensiva russa mais ampla, os países europeus podem ser forçados a intervir militarmente, o que exigiria uma capacidade de resposta imediata. Caso a Rússia tente desestabilizar ou ocupar territórios dos Estados Bálticos, a ativação do Artigo 5 da OTAN seria inevitável, e a rapidez e eficiência da resposta militar europeia seriam decisivas para conter a agressão.

Outra possibilidade reside no colapso gradual da OTAN caso os EUA diminuam significativamente seu envolvimento. Se isso ocorrer, a Europa precisará criar uma nova aliança militar independente, liderada por potências como França, Alemanha e Reino Unido. O rearmamento atual serviria como base para essa transição, possibilitando um realinhamento estratégico que mantenha a segurança do continente sem depender da proteção norte-americana. Além disso, a ativação de cláusulas de escape no Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE permitiria aos Estados-membros elevar seus gastos com defesa até 3,5% do PIB, resultando em um potencial de €650 bilhões adicionais para investimentos militares.

Por fim, o Oriente Médio continua sendo uma região de instabilidade crônica, e um conflito de larga escala envolvendo potências regionais como Irã e Israel teria repercussões diretas para a Europa. Ondas migratórias massivas, ataques terroristas e crises energéticas seriam algumas das consequências prováveis. O fortalecimento militar europeu também permitiria uma postura mais proativa na gestão dessas crises, garantindo maior proteção das fronteiras e contribuindo para a estabilidade global.

O programa de rearmamento europeu é, portanto, uma resposta necessária aos desafios geopolíticos do presente e do futuro. Embora a cooperação com os Estados Unidos ainda seja essencial, a Europa busca assegurar que possa se defender autonomamente diante de qualquer crise emergente. O sucesso dessa iniciativa dependerá de uma coordenação política eficiente, investimentos sustentáveis e da capacidade de adaptação aos desafios geopolíticos que virão.

“A incapacidade europeia de prestar suporte à Ucrânia é consequência de anos de dependência.”

Por Gabriel Sabino.

Em 1532, era publicada a obra O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, que se tornou uma bíblia para governantes que desejavam se manter no poder ou, ao menos, tornar seu governo menos vulnerável a possíveis dissidências.

No capítulo XIII de O Príncipe, Maquiavel aborda de forma significativa o perigo da dependência de forças estrangeiras. Na obra, ele apresenta dois grandes riscos dessa prática:

1. Se elas vencem, o príncipe fica refém do poder que as enviou. Quando um governante recorre a um exército auxiliar e este obtém sucesso, o mérito não pertence ao príncipe, mas sim ao governante que cedeu as tropas.

Isso cria uma situação de dependência, na qual o príncipe não tem controle real sobre a vitória e pode ser forçado a aceitar as condições impostas pelo seu “aliado”.

Em alguns casos, o governante que cedeu as tropas pode decidir manter a ocupação, transformando o território “ajudado” em uma extensão de seu próprio domínio.

2. Se elas perdem, o príncipe fica indefeso. Como as tropas auxiliares não são controladas diretamente pelo príncipe, ele não pode contar com sua total dedicação na batalha.

Se forem derrotadas, o príncipe ficará sem um exército próprio para reagir e poderá ser rapidamente conquistado pelo inimigo.

Você pode se perguntar: o que um livro escrito em 1513 tem a ver com a geopolítica atual? E eu respondo: tudo!

Quase cem anos após a vitória aliada, percebemos que a reconstrução econômica europeia foi um sucesso. No entanto, alguns sacrifícios foram feitos, como o desinvestimento nas forças militares, que acabaram relegadas a uma posição secundária, tornando-se estruturas de segunda ou até terceira prateleira em termos de importância.

Racionalmente, essa escolha faz sentido, uma vez que o desenvolvimento tecnológico militar acompanhou o crescimento econômico. Porém, a disponibilidade operacional das forças armadas não seguiu a mesma trajetória, sofrendo com a falta de investimentos. Sobra tecnologia, falta soldado.

A incapacidade europeia de prestar suporte adequado a um de seus aliados, a Ucrânia, frente a um de seus principais inimigos, a Rússia, é a consequência de anos de dependência. A invasão russa à Ucrânia representou um ponto de inflexão, revelando a fragilidade das defesas europeias e sua total submissão ao suporte militar dos Estados Unidos. Enquanto Zelensky pede armas, a Europa inteira grita: “Estados Unidos, me ajude”.

Se considerarmos um cenário hipotético de guerra direta entre a Rússia — que, apesar de suas dificuldades na Ucrânia, ainda possui um grande contingente militar — e os países europeus, fica evidente que a Europa não suportaria um conflito prolongado. Mesmo operando os mais avançados equipamentos militares, seus exércitos não seriam capazes de vencer uma guerra contra um inimigo numericamente superior. Afinal, apesar da era dos drones, o soldado da linha de frente continua sendo essencial, e a Europa não tem força suficiente nesse aspecto, pois confiou no soldado americano para defender seu próprio território.

Os Estados Unidos, especialmente durante o primeiro mandato de Trump, sentiram o desequilíbrio nos investimentos militares. O país era responsável por 64% dos investimentos na OTAN, enquanto os europeus contribuíam com apenas 36%. Do ponto de vista dos negócios, era difícil para Trump não perceber essa discrepância e usá-la como argumento para exigir uma postura mais equilibrada dos países europeus.
A conta chegou. Trump retornou para um segundo mandato e, junto dele, levou seus soldados de volta para solo americano, despertando os príncipes europeus de seu sono.

“O grande desafio da UE é equilibrar suas muitas realidades econômicas, do frugalismo no norte à sanha gastadora no sul.”

Por Vítor Ribeiro

O Gigante acordou!

E quem conseguiria dormir com tanto barulho? À direita, um vizinho que arruma confusão em toda reunião de condomínio. Do outro lado, aquele velho amigo da família de quem ninguém gosta mais. Sem contar os conhecidos do andar de baixo, que volta e meia aparecem sem ser convidados.
Assolado por guerras, tarifas “across the board”, pressão migratória e sonolência econômica, o Velho Continente parece finalmente começar a se desvencilhar de sua própria complacência. $ 800 bilhões nos próximos quatro anos em nível europeu. $ 500 bilhões e defesa fora dos limites de endividamento na Alemanha. O mercado, instituição etérea laureada por seu comedimento, reagiu com euforia.

Stoxx 600, principal índice acionário pan-europeu, registrou crescimento de 6,3% em janeiro e mais de 3,3% em fevereiro, deixando sua contraparte americana, o S&P, comendo poeira. O euro atingiu seu maior valor frente ao dólar desde novembro de 2024. No mesmo caminho, o índice alemão, DAX, ganhou 3,5% nos dias posteriores ao anúncio, enquanto os juros dos bunds, títulos soberanos do país, dispararam para o nível mais alto em 3 anos.
O reflexo mais gritante se deu no valor de mercado das empresas de defesa do continente, como Rheinmetall (Alemanha), BAE Systems (Inglaterra) e Leonardo (Itália), cujas ações valorizaram em média 15% no ano. Nelas jaz o maior potencial, e sobre elas paira a maior parte das dúvidas.

Segundo o Kiel Institute for the World Economy, um incremento de 2% para 3,5% nos gastos com defesa poderia impulsionar o PIB do continente de 0,9% a 1,5% ao ano. Mais que meramente acelerar os gastos com defesa e segurança, o objetivo é desenvolver um complexo militar industrial próprio, apto a atrair investimentos, suprir as necessidades europeias e dinamizar a economia regional.

No momento, 80% dos contratos de defesa são firmados com fornecedores de fora do bloco. O redirecionamento destes investimentos para empresas locais, especialmente as menores, com maior tendência de produzir soluções de uso dual – ou seja, com aplicações tanto civis quanto militares -, pode promover ganhos de produtividade permanentes, fomentando a inovação e criando externalidades positivas disseminadas por toda a cadeia produtiva.

Para estimular esse movimento, a UE está desenvolvendo instrumentos como o SAFE – parte do programa Readiness 2030 -, em que capta recursos no mercado e os empresta aos Estados, tendo como contrapartida sua aplicação em projetos cujos componentes sejam, pelo menos, 65% fabricados no continente ou em países com acordos de defesa e segurança firmados.

Um dos grandes desafios impostos é como evitar o trade-off entre investimento em defesa e gastos sociais. Nessa conjuntura, a Europa tem como caminho elevar seus níveis de endividamento. Aqui, porém, as enormes discrepâncias dentro do bloco – seu eterno calcanhar de Aquiles – se tornam evidentes.

Países como Alemanha, Áustria e Holanda – estes dois últimos integrantes, ao lado de Suécia e Dinamarca, de um bloco fiscalmente conservador informalmente conhecido como “Frugal Four”, – possuem folga suficiente para elevar suas dívidas públicas sem incorrer em custo fiscal elevado. No caso alemão, o expansionismo fiscal é defendido não apenas por acadêmicos e políticos locais, mas estimulado pelo próprio mercado, que vê nele solução para o marasmo econômico que há anos acomete o país.

Essa possibilidade, todavia, não se estende a todos os membros. A situação mais ao sul é marcadamente diferente. Itália e a França, cujo endividamento ultrapassa 100% de seu PIB, incorreriam em despesas com juros significativamente maiores, e assumiriam ainda riscos como o possível rebaixamento de suas notas de crédito, entrando em um círculo virtuoso em que o custo de rolagem da dívida eleva os juros, que, por sua vez, tornam a dívida cada vez mais cara. Todavia, um maior apetite de endividamento ao norte pode sendo, ele mesmo, o respiro necessário às economias mais endividadas. Níveis mais altos de dívida pública alemã, por exemplo, podem reduzir o acentuado spread cobrado dos títulos soberanos de outros países sobre os bunds, tornando aqueles mais atrativos para os investidores.

A captação de recursos de forma conjunta – com a emissão de títulos soberanos multinacionais, os Eurobonds – surge como opção, mas também enfrenta resistências. Em entrevista recente, Andrius Kubilius, Comissário para a Defesa da UE, lembrou que o bloco ainda possui um passivo considerável – em torno de $ 25 bilhões por ano – com serviço da dívida oriunda do período da pandemia da Covid-19. Por isso, ele afirma que os Estados-membros devem “esgotar todas as alternativas antes de emitir mais Eurobonds”.

As dissidências se refletem ainda em outros temas, alguns bastante básicos, como a definição do que exatamente se considera como “segurança e defesa”. Cada região do continente tem problemas próprios, que vão de insegurança energética a cibersegurança, passando por defesa climática e terrorismo. A indefinição do escopo afasta investidores potenciais e dificulta a captação de recursos, enquanto a falta de uniformidade nos requerimentos para contratações públicas prejudica a alocação de recursos na indústria local.

Mesmo diante das inegáveis dificuldades, o efeito em cascata do novo posicionamento da Europa traz consequências e oportunidades a nível global. Não apenas as já citadas ações de defesa do continente devem apresentar performance superior aos pares de outras geografias, mas também sua cadeia de fornecedores e indústrias correlacionadas, como tecnologia da informação e comunicação. Larry Fink, CEO da BlackRock, destacou as oportunidades em infraestrutura, tecnologia e data centers como geracionais.

A maior concorrência por insumos pode provocar valorização de commodities de uso intensivo, notadamente aço, alumínio e cobre. Movimentos como reshoring friendshoring têm potencial de promover até mesmo a reorientação de cadeias de suprimento, reservanda oportunidades para acordos e parcerias que permitam a fornecedores de outros países – emergentes inclusive – participar nas cotas de produção local. Vale destacar ainda que a busca intensiva por matérias-primas muito provavelmente impactará outros conflitos, especialmente na África.

Efeitos no câmbio tendem a ser contidos, oferecendo flutuações momentâneas, sem um direcionamento definido no longo prazo. A nova postura europeia pode ter reflexos na relação euro x dólar, mas esta tende a ser parte do movimento, e não seu propulsor. Aqui, a aplicação mútua de tarifas tende a ter peso bem mais significativo.

Por fim, é fundamental acompanhar a postura da política monetária frente à mudança drástica de atitude do bloco. Frente a um possível aperto inflacionário, fruto da aceleração econômica, o BCE pode ser forçado a interromper sua flexibilização monetária. No entanto, caso os recursos sejam adequadamente aplicados na modernização do parque industrial regional, os ganhos de produtividade tendem a equacionar a pressão sobre os preços. Independente das consequências, o fato é que, em um cenário de incerteza exacerbada, a Europa só coloca como alternativa a empresários e investidores, oferecendo segurança e ganhos potencialmente crescentes.

É cedo para dizer se, agora acordado, o gigante de fato fará alguma coisa. Ainda assim, a mudança é muito mais que simbólica. Vencer a apatia de décadas não é tarefa que se resolve em meses com uma única proposta, mas sim com tempo e insistência. O gigante fez o primeiro movimento. Cabe agora à liderança europeia manter o pé no acelerador – sem tirar os olhos da estrada – para evitar que ele simplesmente ajeite o corpo, vire para o lado e pegue no sono novamente.


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